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Vítimas do dever por Eugène Ionesco
"Encenada pela primeira vez em 1953, Vítimas do dever é a peça em que Eugène Ionesco satiriza o teatro realista ao colocar um inspetor diante de um homem comum, num interrogatório que rapidamente mergulha no absurdo. A busca por um nome esquecido leva o protagonista a questionar sua própria identidade, num jogo de linguagem e poder que escancara a falência do discurso lógico e das convenções dramáticas.
Obra de caráter autobiográfico – talvez a mais significativa neste quesito em toda a produção de Ionesco – e de maior densidade de significados, temos apoio reforçado dos comentários de Gilles Ernst, professor emérito da Universidade de Lorraine (Nancy), ao longo da peça, além de seu posfácio, outro texto de apoio sobre as primeiras montagens e uma cronologia da vida e obra do autor, todos materiais traduzidos da reedição francesa pela Gallimard, publicada em 2000.
Peça de encenação complexa, pois os personagens da Madalena e o policial assumem diferentes papéis, feições e trejeitos ao longo da trama, nunca teve uma montagem no Brasil. A publicação foi enriquecida com fotos da montagem mais recente da Romênia, do Teatrul Național Mihai Eminescu de Timișoara, durante a temporada de 2024. "
"Encenada pela primeira vez em 1953, Vítimas do dever é a peça em que Eugène Ionesco satiriza o teatro realista ao colocar um inspetor diante de um homem comum, num interrogatório que rapidamente mergulha no absurdo. A busca por um nome esquecido leva o protagonista a questionar sua própria identidade, num jogo de linguagem e poder que escancara a falência do discurso lógico e das convenções dramáticas.
Obra de caráter autobiográfico – talvez a mais significativa neste quesito em toda a produção de Ionesco – e de maior densidade de significados, temos apoio reforçado dos comentários de Gilles Ernst, professor emérito da Universidade de Lorraine (Nancy), ao longo da peça, além de seu posfácio, outro texto de apoio sobre as primeiras montagens e uma cronologia da vida e obra do autor, todos materiais traduzidos da reedição francesa pela Gallimard, publicada em 2000.
Peça de encenação complexa, pois os personagens da Madalena e o policial assumem diferentes papéis, feições e trejeitos ao longo da trama, nunca teve uma montagem no Brasil. A publicação foi enriquecida com fotos da montagem mais recente da Romênia, do Teatrul Național Mihai Eminescu de Timișoara, durante a temporada de 2024. "
trecho da obra
Chubert
A voz se calou. (Chubert se dirige ao Policial) Pai, nunca nos entendemos… Você ainda consegue me ouvir? Vou obedecê-lo. Perdoe-nos, pois nós já o perdoamos. Mostre seu rosto! (O Policial não se move) Você era duro, mas talvez não fosse tão mau. Talvez você não tenha culpa. Não foi você. Eu odiava sua violência, seu egoísmo. Não tive compaixão por suas fraquezas. Você me batia, mas eu era mais duro. Meu desprezo bateu mais forte em você. Foi meu desprezo que o matou. Não foi? Escute… Eu precisava vingar minha mãe… Eu precisava… Qual era meu dever? Deveria fazê-lo de fato?… Ela o perdoou, mas eu continuei assumindo sua vingança… Para que serve a vingança? Sempre é o vingador que sofre… Você está me ouvindo? Descubra seu rosto. Dê-me sua mão. Poderíamos ter sido bons amigos. Eu era muito pior que você. Você era burguês. Que importância tem isso? Fiz mal em desprezá-lo. Não valho mais do que você. Que direito eu tinha de castigá-lo? (O Policial continua sem se mexer) Façamos as pazes! Façamos as pazes! Dê-me sua mão. Vamos, venha comigo, vamos encontrar os companheiros! Beberemos juntos! Olhe para mim, olhe! Me pareço com você. Você não quer… Se quisesse me olhar, você veria como me pareço com você. Tenho todos os seus defeitos. (Silêncio. O Policial não muda de posição) Quem terá compaixão por mim, o impiedoso? Ainda que você me perdoasse, eu jamais poderia perdoar a mim mesmo!