Oduvaldo Vianna Filho

Papa Highirte


Escrito em 1968, Papa Highirte é o trabalho teatral mais significativo sobre o esforço da esquerda perante o autoritarismo, a tortura e a repressão dos anos mais duros do governo militar

R$ 45

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O livro

FICHA TÉCNICA

Gênero Teatro
Formato 14 x 19 cm
Páginas 120 pp.
Peso 190 g
ISBN 978-85-53092-02-4
Ano de lançamento 2019

Juan Maria Guzamón Highirte, conhecido como Papa Highirte, é um ex-ditador que agora está exilado na fictícia república latino-americana de Montalva. Após ser deposto por generais de seu governo, Papa deixa sua terra natal, a também ficcional Alhambra, e passa a viver em um bunker com seus empregados Grissa e Morales, e com sua amante Graziela. Seu cotidiano é entremeado de memórias dos decretos e feitos “para o bem do povo de Alhambra”, até que um novo motorista chega para abalar suas certezas sobre si. O soturno Pablo Mariz, amante de Graziela, é interrogado por Papa e Morales, mas, apesar da desconfiança de ambos a respeito da origem do rapaz, consegue o trabalho. Ao longo da trama descobre-se a verdadeira intenção de Mariz: vingar-se de Highirte pela morte de seu amigo Manito.

Escrita em 1968 – um dos anos mais conturbados politicamente em todo o mundo – a peça foi intitulada em alusão ao ditador haitiano que governou de 1957 a 1971, François Duvalier, conhecido como Papa Doc, e tem três temas centrais: o declínio do populismo caudilhista, a organização das militâncias de luta armada e a influência da política externa estadunidense no continente americano. Personificando cada um desses assuntos em personagens bastante pitorescos, Oduvaldo Vianna Filho escreveu o trabalho teatral mais significativo sobre o esforço da esquerda perante o autoritarismo, a tortura e a repressão daqueles anos.

Liberada para publicação e encenação somente em 1979, no início da chamada redemocratização, Papa Highirte é, na opinião de muitos críticos, um retrato sintético e perfeito do panorama político das repúblicas latino-americanas. Cinquenta anos depois, a pertinência da leitura de Papa Highirte se amplia à medida que o Brasil se depara novamente com o peso do modelo estadunidense, com a concretude do revisionismo histórico acerca do período de governo militar e com a ascensão do autoritarismo na política. Em si, a nitidez e a sensibilidade da percepção de Vianna Filho a respeito das forças que estavam em jogo já permitem que a leitura de Papa Highirte seja imprescindível nos dias de hoje.

A edição da Temporal contém Apresentação e Posfácio da professora e pesquisadora Maria Sílvia Betti (org.), fotos e ficha técnica da primeira montagem da peça e sugestões de leitura a respeito da obra do autor.

Essencialmente, Papa Highirte poderia ser definido como o oposto de seu personagem-título: nada tem de panfletário ou demagógico. Sensível à vida política da América Latina, Vianna pinta o retrato de um ditador entre o populista, o buffo e uma certa ingenuidade sem, no entanto, transformá-lo em mártir ou herói da História. Isso porque a visão de mundo do autor é suficientemente lúcida para não cair em tais armadilhas. Fica bastante claro que o dramaturgo não porta viseiras, nem camisas de força ideológicas.

— Flávio Marinho

O autor

Oduvaldo Vianna Filho nasceu no Rio de Janeiro em 1936, filho de um dramaturgo (Oduvaldo Vianna) e de uma radialista (Deocélia Vianna). Ligado à militância política comunista por influência de seus pais, cresceu em contato com quadros históricos do PCB (Partido Comunista Brasileiro). Ao ingressar no movimento estudantil, ainda na adolescência, organizou, juntamente com Gianfrancesco Guarnieri e outros companheiros, o Teatro Paulista do Estudante. Ao longo de sua carreira Vianna participou de frentes de trabalho fundamentais para a renovação da dramaturgia e do teatro como veículos de reflexões estéticas e políticas: o Teatro de Arena de São Paulo, o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC), e o grupo Opinião, do Rio de Janeiro. No CPC seu trabalho teve crucial importância para a criação de um teatro político de rua, de que ele participou como dramaturgo e como ator.

Em 1964, com o golpe e a implantação do regime autoritário, a perseguição política tornou impossível a continuidade do projeto cultural que ali se desenvolvia, e a prioridade artística e política de Vianna, dentro dessa nova e difícil conjuntura, passa a ser a resistência ao golpe, entendida como primeiro passo para a luta contra o autoritarismo.

Em 1968, com o Ato Institucional número 5, é implantada a censura prévia aos meios de comunicação, e acirra-se a repressão a todos os que se ligassem à militância e à arte de esquerda. A necessidade de trabalhar e o desejo de atingir outras faixas de público leva Vianna a estreitar seus laços com a televisão, já que todas as suas peças haviam passado a ser sumariamente proibidas pela censura. Escrevendo inicialmente para o programa de teleteatro de Bibi Ferreira (Bibi – Série Especial), na Tupi do Rio de Janeiro, Vianna (juntamente com seu ex-companheiro do CPC, Armando Costa) passa, em 1973, a criar, na TV Globo, os roteiros de A Grande Família, programa em que o talento de comediógrafo herdado de seu pai, Oduvaldo Vianna, se fez sentir.

A censura impediu que a grande maioria das peças que Vianna escrevera após o golpe fossem encenadas, mesmo que tivessem sido premiadas pelo concurso de dramaturgia do Serviço Nacional de Teatro, como Papa Highirte (1968) e Rasga coração (1974), seu último trabalho.

Oduvaldo Vianna Filho © Paulo Moreira / Agência O Globo