Elfriede Jelinek, tradução e nota tradutória Angélica Neri, Gisele Eberspächer, Luiz Abdala Jr. e Ruth Bohunovsky, prefácio Ruth Bohunovsky

O que aconteceu após Nora deixar a Casa de Bonecas ou Pilares da Sociedade


O argumento desta obra, escrita em 1979 pela Nobel de Literatura Elfriede Jelinek, nasce de um interesse que sempre moveu a atividade criadora da autora: resgatar figuras femininas, reais ou literárias, como forma de tematizar questões sociais profundas e complexas

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O livro

FICHA TÉCNICA

Gênero Teatro
Formato 14 x 19 cm
Páginas 192
Peso 215 g
ISBN 978-65-87243-26-9
Ano de lançamento 2023

 

O que aconteceu após Nora deixar a Casa de Bonecas ou Pilares das Sociedades, peça escrita em 1979 pela romancista, ensaísta e dramaturga austríaca, vencedora do Nobel de literatura, Elfriede Jelinek, começa exatamente no ponto em que termina Casa de Bonecas, escrita pelo norueguês Henrik Ibsen cem anos antes. Protagonista de ambas as peças, Nora aparece em Ibsen como uma figura feminina aparentemente bem enquadrada na sociedade patriarcal e que, no entanto, se liberta pouco a pouco de sua condição submissa, deixando a casa onde morava e abandonando marido e filhos. Já a peça de Jelinek tem início no momento em que Nora inicia sua trajetória como mulher emancipada, mas nem por isso livre das estruturas de dominação que a assujeitam, seja em virtude de sua condição de operária de fábrica, seja em seu novo casamento com o Cônsul Weygang – empresário avarento e calculista que a autora foi buscar entre os personagens de outra peça de Ibsen, Pilares da Sociedade –, seja ainda pelas pressões econômicas que a desafiam continuamente em sua busca pela realização pessoal.

O argumento desta obra, concebida como um drama secundário, nasce de um interesse que sempre moveu a atividade criadora de Elfriede Jelinek: resgatar figuras femininas, reais ou literárias, como forma de tematizar questões sociais profundas e complexas.

A Nora de Jelinek nos palcos

Marcando o início da atividade teatral da autora, O que aconteceu… teve estreia mundial em 6 de outubro de 1979, no Schauspielhaus da cidade austríaca de Graz, sob direção de Kurt Josef Schildknecht. Segundo artigo do jornal Presse, a atriz Petra Fahrnländer interpretou não apenas a Nora de Jelinek, mas também a de Ibsen, quando Casa de Bonecas esteve nos palcos do mesmo teatro. Dando sequência ao êxito da montagem, no ano de 1992, em Viena, a direção de Emmy Werner inovou ao colocar duas atrizes – Beatrice Frey e Andrea Eckert – para se revezarem na interpretação de Nora. A edição da Temporal inclui as fichas técnicas dessas montagens e de outras realizadas na França, no Japão e na Argentina.

Sobre a edição da Temporal

Um prefácio, assinado por Ruth Bohunovsky, uma das tradutoras, dá início à edição. No texto, a autora contextualiza a peça em relação aos dois textos de Ibsen que servem de referência para Jelinek. Além disso, o leitor também encontra uma apresentação dos tradutores Angélica Neri, Gisele Eberspächer, Luiz Abdala Jr. e Ruth Bohunovsky. O texto elucida alguns dos critérios adotados no trabalho coletivo de traduzir não apenas o texto, mas também os traços estilísticos da dramaturga, enfatizando o intuito de recriar, em português brasileiro, um dos traços fundamentais da escrita de Jelinek: a intertextualidade; ou seja, a profusão de referências a livros, músicas, clichês, discursos publicitários e outras memórias comuns que formam o universo cultural de seus destinatários. Por fim, na seção “Anexos” estão, além das fichas técnicas das principais montagens, sugestões de leitura sobre a vida e a obra da autora. As fotografias de capa e miolo foram produzidas na montagem de 1992, realizada no Volkstheater, em Viena.

 

Nora em montagem de 1992 (Volkstheater Viena) © Martin Vukovits

"Jelinek consegue atualizar mitos e narrativas literárias históricas, sempre chegando à mesma conclusão: não passa de mera ilusão a ideia de que a história é uma sequência de passos em direção a um mundo mais justo e humano. Para a escritora, a história é circular e a humanidade não sai do lugar em que se encontrou desde sempre, um lugar pouco adequado para quem procura ou acredita num convívio humano baseado na razão, na tolerância, no amor e na compaixão.

[...]

Redução extrema e exagero grotesco, combinados com um distanciamento satírico, essas são as ferramentas literárias e dramatúrgicas com que Elfriede Jelinek trabalha para nos atentar para as bases ideológicas e discursivas da nossa sociedade. E, mesmo quem não concorda com a perspectiva ideológica na qual a peça se baseia, não ficará imune ao cenário vislumbrado pela escritora em relação também ao nosso futuro."

— tradutora Ruth Bohunovsky sobre a escritora Elfriede Jelinek
atores em montagem de 1992 (Volkstheater Viena) © Martin Vukovits

Sobre a autora

Nascida em 20 de outubro de 1946, na cidade austríaca de Mürzzuschlag, Elfriede Jelinek cresceu em Viena, cidade natal de sua mãe, Olga Ilona, pertencente a uma próspera família burguesa. Seu pai, Friedrich Jelinek, de origem tcheco-judaica, era químico. Ainda na infância, Jelinek recebeu formação musical, por insistência de sua mãe. Já no ensino superior, Jelinek passa a se dedicar ao teatro e à história da arte na Universidade de Viena. 

A incursão de Jelinek pela escrita tem início com a poesia. Em 1967, aos 20 anos, Jelinek lança a coletânea de poemas Lisas Schatten [A sombra de Lisa]. Quando se torna membro do movimento estudantil, a autora passa a se dedicar à escrita de romances de teor crítico: Wir sind Lockvögel baby! [Somos as iscas, baby!] (1970) e Michael. Ein Jugendbuch für die Infantilgesellschaft [Michael. Um livro juvenil para uma sociedade infantil] (1972). Dando continuidade à escrita de romances, Elfriede Jelinek lança novas obras, entre elas Die Liebhaberinnen [As amantes]  (1975) – primeiro sucesso de público; Die Ausgesperrten [Os excluídos] (1980); o autobiográfico A pianista (1983), livro que foi transformado em longa-metragem pelo diretor austríaco Michael Haneke, e publicado no Brasil em 2011 pela editora Tordesilhas; e o sucesso de crítica Desejo (1989), também traduzido e publicado pela Tordesilhas em 2013. 

Sua primeira peça de rádio, Wenn die Sonne sinkt ist für manche schon Büroschluss [Quando o sol se põe, o expediente já acabou para certas pessoas], data de 1974. Desde então, a autora não cessou a escrita de textos teatrais e passou a publicar um grande número de peças para rádio e teatro. São mais de trinta publicadas e encenadas, dentro e fora da Áustria. Apesar de sua posição de destaque no meio teatral, O que aconteceu após Nora deixar a Casa de Bonecas ou Pilares das Sociedades (1979) é a primeira peça da autora publicada no Brasil. Elfriede Jelinek é a única escritora austríaca vencedora de um prêmio Nobel de Literatura. Caracterizados por um desejo experimental, uma nitidez satírica e uma franqueza intransigente, seus textos, considerados transgressores, são permeados por categorias que estão fortemente enraizadas na sociedade austríaca e representam o horror para a autora: o patriarcado, o capitalismo, o fascismo e o humanismo burguês-cristão.

Eventos de lançamento — Embaixada da Áustria, Goethe-Institut e Temporal Editora

A Embaixada da Áustria no Brasil, apoiadora da edição de Elfriede Jelinek, Goethe-Institut de São Paulo e Curitiba, Goethe-Zentrum de Brasília e a Temporal promovem no mês de abril três encontros especiais de debate e leitura dramática comentada da obra com a participação da convidada internacional Bettina Hering, produção e concepção de Flávio Stein e tradução simultânea de Ruth Bohunovsky.

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