Oduvaldo Vianna Filho

Moço em estado de sítio


Escrita em 1965, esta peça sintetiza as dificuldades do engajamento político, as disputas em torno das diferentes correntes estéticas da arte e os dilemas éticos e materiais enfrentados pela esquerda brasileira a partir da ruptura institucional de 1964

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O livro

FICHA TÉCNICA

Gênero Teatro
Formato 14 x 19 cm
Páginas 136
Peso 160 g
ISBN 978-85-53092-14-7
Ano de lançamento 2021

Escrito em 1965, este texto traz à cena os embates do protagonista Lúcio Paulo com os demais integrantes de um coletivo teatral do qual participa. Além das disputas por protagonismo, dos conflitos amorosos e dos desentendimentos políticos e estéticos entre os membros do grupo, a peça retrata os embates do jovem com seu pai, Cristóvão, um funcionário público que, aborrecido com os frequentes pedidos de empréstimo por parte do filho, o pressiona a trabalhar em um escritório de advocacia, no qual se forjam atas de assembleias que sequer ocorreram.

Concebida por meio de frequentes cortes sequenciais, quase cinematográficos, Moço em estado de sítio sintetiza as dificuldades do engajamento político, as disputas em torno das diferentes correntes estéticas e os dilemas éticos e materiais enfrentados pela esquerda brasileira a partir da ruptura institucional de 1964, com o advento do golpe civil-militar, antecipando elementos de peças posteriores de Oduvaldo Vianna Filho, como Mão na luva e Rasga coração.

Por que ler Moço em estado de sítio?

Escrita durante os intervalos em que Oduvaldo Vianna Filho atuou nos trabalhos de O desafio e Liberdade, liberdade, esta peça apresenta fortes ressonâncias com o Cinema Novo, gênero muito praticado entre os anos de 1960/70 no Brasil. Em Moço em estado de sítio, Vianna busca respostas nos grupos de esquerda diante dos impasses políticos que se instauravam no país pós-1964. Na opinião do crítico Yan Michalski, o texto representa uma ruptura na trajetória do autor e uma “prova de espantoso amadurecimento”. Ao enfocar Lúcio, um jovem de caráter fraco e duvidoso, que em busca de autopromoção abre mão de seus ideais e de suas relações, Moço em estado de sítio apresenta um tipo corriqueiro, o do anti-herói, indivíduo acuado pelo sistema, que costuma dar o exemplo do oposto a ser seguido.

Curiosidades sobre a peça

Escrita em 1965, nem Vianinha nem seus companheiros do grupo Opinião parecem ter levado adiante o projeto de encenar Moço em estado de sítio e a peça foi “engavetada”; como consequência, o autor nunca teve a oportunidade de vê-la encenada. Vianna chegou a presentear a atriz Ítala Nandi, com quem se relacionava à época, com o original. Posteriormente, Nandi o guardou em um baú de mudança que passou anos perdido, até que foi encontrado no fim dos anos 1970, quando o texto, ainda intacto, foi por fim revelado. Censurada e proibida pelo regime militar, a peça continuou praticamente desconhecida até a década de 1980, quando se dá a sua primeira montagem.

Em 1981, Aderbal Freire Filho leva aos palcos do Sesc Tijuca Moço em estado de sítio e dedica o espetáculo à morte de Glauber Rocha e Mario Pedrosa, ambos falecidos naquele ano. O diretor ressalta, em suas palavras, que as gerações que viveram entre os anos “Jota” – referência aos governos de Juscelino Kubitschek, de Jânio Quadros e de João Goulart –, representadas por Vianna com seus jovens sitiados, foram obrigadas a lidar com tumultuados acontecimentos, que quase sempre tiveram consequências entre as famílias mais humildes. O elenco da montagem contava com Zezé Polessa, Carmen Gadelha, Alfredo Ebasco, entre outros, e recebeu o Prêmio MEC por estar entre os cinco melhores espetáculos daquele ano.

O autor

Oduvaldo Vianna Filho nasceu no Rio de Janeiro em 1936, filho de um dramaturgo (Oduvaldo Vianna) e de uma radialista (Deocélia Vianna). Ligado à militância política comunista por influência de seus pais, cresceu em contato com quadros históricos do PCB (Partido Comunista Brasileiro). Ao ingressar no movimento estudantil, ainda na adolescência, organizou, juntamente com Gianfrancesco Guarnieri e outros companheiros, o Teatro Paulista do Estudante. Ao longo de sua carreira Vianna participou de frentes de trabalho fundamentais para a renovação da dramaturgia e do teatro como veículos de reflexões estéticas e políticas: o Teatro de Arena de São Paulo, o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC), e o grupo Opinião, do Rio de Janeiro. No CPC seu trabalho teve crucial importância para a criação de um teatro político de rua, de que ele participou como dramaturgo e como ator.

Em 1964, com o golpe e a implantação do regime autoritário, a perseguição política tornou impossível a continuidade do projeto cultural que ali se desenvolvia, e a prioridade artística e política de Vianna, dentro dessa nova e difícil conjuntura, passa a ser a resistência ao golpe, entendida como primeiro passo para a luta contra o autoritarismo.

Em 1968, com o Ato Institucional número 5, é implantada a censura prévia aos meios de comunicação, e acirra-se a repressão a todos os que se ligassem à militância e à arte de esquerda. A necessidade de trabalhar e o desejo de atingir outras faixas de público levam Vianna a estreitar seus laços com a televisão, já que todas as suas peças haviam passado a ser sumariamente proibidas pela censura. Escrevendo inicialmente para o programa de teleteatro de Bibi Ferreira (Bibi – Série Especial), na Tupi do Rio de Janeiro, Vianna (juntamente com seu ex-companheiro do CPC, Armando Costa) passa, em 1973, a criar, na TV Globo, os roteiros de A Grande Família, programa em que o talento de comediógrafo herdado de seu pai, Oduvaldo Vianna, se fez sentir.

A censura impediu que a grande maioria das peças que Vianna escrevera após o golpe fossem encenadas, mesmo que tivessem sido premiadas pelo concurso de dramaturgia do Serviço Nacional de Teatro, como Papa Highirte (1968) e Rasga coração (1974), seu último trabalho.

Última foto do passaporte de Oduvaldo Vianna Filho, 1974. © Funarte/Centro de Documentação