Oduvaldo Vianna Filho

Mão na luva


Primeira incursão lírica de Oduvaldo Vianna Filho, nesta peça de 1966 um casal discute sua separação iminente, relembra os anos de matrimônio e revela conflitos mais profundos que se misturam aos impasses que vive o Brasil pós-1964

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O livro

FICHA TÉCNICA

Gênero Teatro
Formato 14 x 19 cm
Páginas 132 pp.
Peso 160 g
ISBN 978-85-53092-12-3
Ano de lançamento 2021

Um casal – Ele e Ela – vive uma crise e discute sua separação iminente. Ela quer deixar o casamento, alegando não o aguentar mais, ao passo que Ele resiste à ideia, menosprezando as motivações da companheira. O conflito matrimonial desvela camadas mais profundas do relacionamento conforme o espectador-leitor se depara com uma sequência de flashbacks, e o passado repleto de paixão aos poucos revela mudanças, traições, omissões, silêncios e distâncias acumulados ao longo dos anos. Entre idas e vindas, os afetos pessoais e os conflitos agressivos do casal se dissolvem e, em seu lugar, emerge o contexto político. Ela (mais tarde nomeada Sílvia) recorda a antiga militância de esquerda que Ele (Lúcio) aos poucos abandonou para tornar-se alguém oposto ao que outrora perseguia como ideal. Escrita em 1966, Mão na luva, primeira incursão de Oduvaldo Vianna Filho pelo terreno do lirismo, aborda os impasses da classe média pós-1964 com surpreendente complexidade formal e analítica.

Tais impasses éticos e políticos, no entanto, típicos do momento histórico em que a peça foi escrita, não se sobrepõem aos dilemas existenciais dos personagens. O texto traz no subtítulo “Introdução ao homem de duas faces” a dimensão do que é retratado: pessoas divididas entre suas possibilidades de vida, bem como entre as consequências de suas ações e posicionamentos. Todo esse conjunto confere ao texto caráter único na obra de Oduvaldo Vianna Filho.

Por que ler Mão na luva?

Vianna é constantemente recebido pela crítica como um autor “datado”, que se resume ao propósito político em seus textos. Porém, talvez Mão na luva seja o melhor exemplo de que o dramaturgo não politizou a arte; pelo contrário, “Vianna Filho estetizou a política”, como afirma a pesquisadora Rosangela Patriota (Universidade Mackenzie).

Na sala do apartamento de um casal de classe média carioca, identificados como intelectuais à esquerda, vemos retratadas questões que permanecem contemporâneas: o comportamento machista do homem em seu ambiente de trabalho e no contexto familiar, a violência doméstica, o jogo de interesses da vida pública e privada, a pequenez material que cerca o cotidiano, o papel da mulher na família, a disputa entre individual e coletivo, entre outras.

Mais um ponto interessante é a presença das Bachianas brasileiras, de Heitor Villa-Lobos. A partir das repetições de trechos do movimento número 5 da composição, Vianna problematiza o personagem intelectual, que deveria representar a ideia do autêntico brasileiro por conhecer as raízes da cultura nacional. Diante dos impasses da história pública e privada recente do país, Mão na luva mostra-se uma leitura contundente e necessária. 

Curiosidades sobre a peça

Apesar de ter escrito Mão na luva em 1966, a peça só foi encenada em 1984, sob direção de Aderbal Freire Filho, quando também foi pela primeira vez publicada em livro.
A edição, organizada pelo crítico Yan Michalski, foi responsável pelo título definitivo da dramaturgia, uma vez que Vianna a nomeara Corpo a corpo, tal qual seu monólogo posterior, de 1970.

Além disso, em sua apresentação à edição, Maria Sílvia Betti, organizadora da Coleção Oduvaldo Vianna Filho, comenta a similaridade da peça com O desafio, filme de Paulo Saraceni que marcou o chamado Cinema Novo no país, e no qual Vianna Filho atuara.

O autor

Oduvaldo Vianna Filho nasceu no Rio de Janeiro em 1936, filho de um dramaturgo (Oduvaldo Vianna) e de uma radialista (Deocélia Vianna). Ligado à militância política comunista por influência de seus pais, cresceu em contato com quadros históricos do PCB (Partido Comunista Brasileiro). Ao ingressar no movimento estudantil, ainda na adolescência, organizou, juntamente com Gianfrancesco Guarnieri e outros companheiros, o Teatro Paulista do Estudante. Ao longo de sua carreira Vianna participou de frentes de trabalho fundamentais para a renovação da dramaturgia e do teatro como veículos de reflexões estéticas e políticas: o Teatro de Arena de São Paulo, o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC), e o grupo Opinião, do Rio de Janeiro. No CPC seu trabalho teve crucial importância para a criação de um teatro político de rua, de que ele participou como dramaturgo e como ator.

Em 1964, com o golpe e a implantação do regime autoritário, a perseguição política tornou impossível a continuidade do projeto cultural que ali se desenvolvia, e a prioridade artística e política de Vianna, dentro dessa nova e difícil conjuntura, passa a ser a resistência ao golpe, entendida como primeiro passo para a luta contra o autoritarismo.

Em 1968, com o Ato Institucional número 5, é implantada a censura prévia aos meios de comunicação, e acirra-se a repressão a todos os que se ligassem à militância e à arte de esquerda. A necessidade de trabalhar e o desejo de atingir outras faixas de público levam Vianna a estreitar seus laços com a televisão, já que todas as suas peças haviam passado a ser sumariamente proibidas pela censura. Escrevendo inicialmente para o programa de teleteatro de Bibi Ferreira (Bibi – Série Especial), na Tupi do Rio de Janeiro, Vianna (juntamente com seu ex-companheiro do CPC, Armando Costa) passa, em 1973, a criar, na TV Globo, os roteiros de A Grande Família, programa em que o talento de comediógrafo herdado de seu pai, Oduvaldo Vianna, se fez sentir.

A censura impediu que a grande maioria das peças que Vianna escrevera após o golpe fossem encenadas, mesmo que tivessem sido premiadas pelo concurso de dramaturgia do Serviço Nacional de Teatro, como Papa Highirte (1968) e Rasga coração (1974), seu último trabalho.

Última foto do passaporte de Oduvaldo Vianna Filho, 1974. © Funarte/Centro de Documentação