Jean-Pierre Sarrazac, trad. Letícia Mei

Crítica do teatro I: da utopia ao desencanto


Neste livro, que inaugura a coleção de ensaios da Temporal, Sarrazac rejeita a “crítica de teatro” – entendida como uma crítica estritamente jornalística – e propõe uma “crítica do teatro”. Isto é, um debate mais profundo a respeito da própria ideia do teatro, cujo propósito maior não é o de julgar, mas o de avaliar. Para o autor, tal estado se mantém no exame, na observação e na análise de seu objeto, que, aqui, trata-se do teatro propriamente dito.

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O livro

FICHA TÉCNICA

Gênero Ensaio
Formato 14 x 21 cm
Páginas 184 pp.
ISBN 978-65-87243-16-0
Ano de lançamento 2021

Crítica do teatro I: da utopia ao desencanto é uma reunião de ensaios que se inscrevem nos debates artísticos da virada do século XX para o XXI, período marcado pelo ressurgimento da ideia de “teatro público” em meio a um contexto, sobretudo na França, de amplas greves de trabalhadores e intensa movimentação social. Ao reconsiderar tal noção e conferir-lhe perspectiva histórica, Jean-Pierre Sarrazac persegue um objetivo maior: o de refletir sobre os caminhos de um teatro crítico e ativo em um momento no qual antigas utopias tendem a ser vistas com ceticismo. Durante o percurso desta reflexão, o autor busca entender as diferentes formas de pensar e expressar “teatralidade” – que, nas palavras de Roland Barthes, significa “o teatro menos o texto”. Ao buscar a função organizadora da teatralidade, sua capacidade de gerar prazer e imaginação utópica, e de proporcionar comunidade crítica e ativa, Sarrazac oferece-nos um panorama do teatro em sua dimensão mais política e coletiva.

As origens do “teatro público” e alguns de seus expoentes

O “teatro público” remete aos tempos do Teatro Nacional Popular (TNP), movimento subvencionado pelo Estado francês no pós-guerra que visava uma intensa democratização do teatro por meio de apresentações para grandes audiências. Nesse período, o teatro foi encarado como um serviço público que, por essa razão, deveria ser acessível e estar amplamente presente, dos grandes centros às periferias, formando uma rede descentralizada e diversificada de cultura e arte popular. Ao tratar dessa iniciativa de difusão do teatro, o autor amplia a discussão e considera, de um lado, um circuito paralelo que se desenvolvia em torno de pequenos espaços e com novos autores – entre eles Beckett, Ionesco e Adamov –, e, de outro, a trajetória de Barthes e Bernard Dort, figuras que se empenharam em resgatar o potencial crítico do teatro brechtiano, colocando-se, porém, à altura dos desafios de um novo momento histórico.

Os revezes sobre a noção do “público” a partir da década de 1970

Ao fim do projeto do teatro popular na França, nos anos 1970, a noção de um diálogo mais amplo com a coletividade fica ameaçada e acaba, aos poucos, para trás, enquanto se observa um interesse cada vez maior por questões da linguagem que, no cenário teatral, viriam a ser enaltecidas nas décadas subsequentes. Assim, no manejo entre utopia e desencanto, entre os ideais e os percalços ligados ao teatro público francês, resgatando-o na atualidade em meio a agitações sociais do presente, o livro ganha contornos históricos, sociológicos, estéticos e culturais. Recuperando certo senso do político no teatro, Sarrazac traça uma aposta poética que visa não o passado, mas olhar o futuro de outra maneira, a partir dos múltiplos instrumentos e reflexões que apresenta ao leitor.

Mobilizando temáticas diversas

Ao abordar temas como teatro crítico, espectador ideal, espectador-cliente e público ativo, entre outras categorias, Sarrazac rejeita a “crítica de teatro” – entendida como uma crítica estritamente jornalística – e propõe uma “crítica do teatro”. Isto é, um debate mais profundo a respeito da própria ideia do teatro, cujo propósito maior não é o de julgar, mas o de avaliar, examinar, ponderar e manter “o estado de crise”, segundo o autor. Para Sarrazac, tal estado se mantém no exame, na observação e na análise de seu objeto, que, aqui, trata-se do teatro propriamente dito. Seu objetivo, contudo, é menos o de fazer ele próprio a crítica do teatro do que buscar seguir os passos daqueles que fizeram dessa crítica o núcleo de sua arte, evocando a “lição” de outros mestres. Segundo a expressão de Sérgio de Carvalho em prefácio à edição, este livro, inédito no Brasil, chega para propor uma postura ativa diante do desencantamento do mundo.

O autor

Nascido em 1946, Jean-Pierre Sarrazac é um dos nomes fundamentais para se pensar o teatro hoje. Diretor, dramaturgo, ensaísta e professor universitário, desde 1974 esteve à frente de inúmeras encenações não só das peças de sua autoria, que somam mais de vinte, mas de dramaturgos que vão de Strindberg a Valère Novarina. Entre 1976 e 1981 atuou como formador de atores no Teatro Nacional de Estrasburgo, e, nos anos seguintes, como conselheiro artístico e literário na Comédie de Caen e de Reims, as mais importantes instituições teatrais das duas cidades. 

É professor emérito na Université Sorbonne Nouvelle – Paris III e professor convidado da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, com um percurso acadêmico marcado pela colaboração em diversas publicações coletivas, colóquios e conferências na França e no exterior. Entre suas obras críticas, traduzidas para mais de quinze línguas em todo o mundo, dois clássicos dos estudos teatrais contam com edições brasileiras, Léxico do drama moderno e contemporâneo (Cosac Naify, 2013) e Poética do drama moderno: de Ibsen a Koltés (Perspectiva, 2017), além desta Crítica do teatro que agora se apresenta. Outros nove títulos do autor permanecem inéditos no país. 

Aluno de Bernard Dort e Roland Barthes, e fortemente influenciado por ambos, Sarrazac é responsável por desenvolver conceitos que se tornaram chave para a compreensão do drama: a teatralidade, o teatro rapsódico e a arte do “desvio” são alguns deles. Em contínua atividade crítica, este homem do teatro tem se debruçado sobre os trabalhos de Strindberg, Brecht, Beckett, Koltès, Lagarce e Ibsen.

© João Tuna