Oduvaldo Vianna Filho

Corpo a corpo


Escrita em 1970, esta peça lança luz sobre um homem dividido entre a solidariedade e a ambição, a liberdade e a monogamia, a escolha de seu próprio país ou a vida fora dele

R$ 52,00

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O livro

FICHA TÉCNICA

Gênero Teatro
Formato 14 X 19 cm
Páginas 104 pp.
Peso 130 g
ISBN 978-85-53092-13-0
Ano de lançamento 2021

Luiz Vivacqua é sociólogo, mas trabalha em uma agência de publicidade dirigindo filmes dos mais diversos produtos cotidianos. Certa madrugada, transtornado pela substituição de seu colega de trabalho na agência, bem como pelas condições de sua vida pessoal – casamento iminente, frustração como criador de propagandas e pouca credibilidade em seu ofício –, ele passa a proferir um longo monólogo em torno da crise sobre seus próximos passos. Regado a álcool e cocaína, faz diversos telefonemas para seus conhecidos e suas ex-amantes, tenta se conectar com outras pessoas via radioamador, grita da janela, canta e se debate com questões do contexto político-econômico brasileiro da época e com suas escolhas pequeno-burguesas.

A edição da Temporal contém Apresentação da professora e pesquisadora Maria Sílvia Betti (org.), Posfácio de Rosangela Patriota, docente da Universidade Presbitariana Mackenzie, fichas técnicas da apresentações profissionais da peça, fotografias da montagem de 1995 realizada pelo grupo TAPA, em São Paulo, além de sugestões de leitura a respeito da obra do autor.

Por que ler Corpo a corpo?

Passados mais de cinquenta anos de sua escrita, o enredo criado por Vianna certamente ressoa nos dias atuais, sobretudo por meio de seu protagonista: um sujeito dividido entre ideais éticos e políticos e a pressão (ou tentação) de seguir valores burgueses, como o casamento ideal e a estabilidade profissional e financeira. Confinado em seu apartamento, Vivacqua aos poucos carrega o espectador-leitor pela vertigem de seus pensamentos e atitudes, revelando uma natureza cada vez mais individualista, machista e mesquinha, apesar de seu alinhamento à esquerda. Trata-se de uma obra necessária para fazer refletir sobre o comportamento do sujeito contemporâneo diante dos impasses entre as responsabilidades coletivas e individuais, além de outras dicotomias sociais.

Sobre sua estreia nos palcos

Em 1971, Juca de Oliveira protagonizou nos palcos do Teatro Itália, em São Paulo, o primeiro Vivacqua, sob direção de Antunes Filho. A montagem foi vencedora na categoria de Melhor Produção daquele ano no Prêmio Governador Estado de São Paulo. Embora tenha havido outras montagens no intervalo, foi em 1995, no Teatro da Aliança Francesa de São Paulo, com o Grupo TAPA, que Zécarlos Machado eternizou o personagem de Vianna sob direção de Eduardo Tolentino. Sobre essa encenação, a pesquisadora e professora Rosangela Patriota faz um comentário em seu posfácio.

Corpo a corpo não é uma experiência formal nova. É tradicional. Mas a sensação de ir descamando a realidade, de ir tirando pedaços e pedaços de sua superfície para chegar mais e mais até a sua intimidade, seus núcleos, foi o meu propósito. A tonteira da razão. O nunca acabar de relações que dão ao indivíduo, tiram-lhe a razão, formam novas sínteses, desbordam de novo. Uma sanfona de Luiz Gonzaga, esticando, tocando, tocando sempre.

— Oduvaldo Vianna Filho

O autor

Oduvaldo Vianna Filho nasceu no Rio de Janeiro em 1936, filho de um dramaturgo (Oduvaldo Vianna) e de uma radialista (Deocélia Vianna). Ligado à militância política comunista por influência de seus pais, cresceu em contato com quadros históricos do PCB (Partido Comunista Brasileiro). Ao ingressar no movimento estudantil, ainda na adolescência, organizou, juntamente com Gianfrancesco Guarnieri e outros companheiros, o Teatro Paulista do Estudante. Ao longo de sua carreira Vianna participou de frentes de trabalho fundamentais para a renovação da dramaturgia e do teatro como veículos de reflexões estéticas e políticas: o Teatro de Arena de São Paulo, o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC), e o grupo Opinião, do Rio de Janeiro. No CPC seu trabalho teve crucial importância para a criação de um teatro político de rua, de que ele participou como dramaturgo e como ator.

Em 1964, com o golpe e a implantação do regime autoritário, a perseguição política tornou impossível a continuidade do projeto cultural que ali se desenvolvia, e a prioridade artística e política de Vianna, dentro dessa nova e difícil conjuntura, passa a ser a resistência ao golpe, entendida como primeiro passo para a luta contra o autoritarismo.

Em 1968, com o Ato Institucional número 5, é implantada a censura prévia aos meios de comunicação, e acirra-se a repressão a todos os que se ligassem à militância e à arte de esquerda. A necessidade de trabalhar e o desejo de atingir outras faixas de público levam Vianna a estreitar seus laços com a televisão, já que todas as suas peças haviam passado a ser sumariamente proibidas pela censura. Escrevendo inicialmente para o programa de teleteatro de Bibi Ferreira (Bibi – Série Especial), na Tupi do Rio de Janeiro, Vianna (juntamente com seu ex-companheiro do CPC, Armando Costa) passa, em 1973, a criar, na TV Globo, os roteiros de A Grande Família, programa em que o talento de comediógrafo herdado de seu pai, Oduvaldo Vianna, se fez sentir.

A censura impediu que a grande maioria das peças que Vianna escrevera após o golpe fossem encenadas, mesmo que tivessem sido premiadas pelo concurso de dramaturgia do Serviço Nacional de Teatro, como Papa Highirte (1968) e Rasga coração (1974), seu último trabalho.

Última foto do passaporte de Oduvaldo Vianna Filho, 1974. © Funarte/Centro de Documentação