Kossi Efoui, tradução e prefácio João Vicente, Juliana Estanislau de Ataíde Mantovani e Maria da Glória Magalhães dos Reis, quarta capa Geni Núñez

A encruzilhada


Escrita pelo togolês Kossi Efoui no início da década de 1990, esta peça verte em poesia vidas ressecadas pelo autoritarismo, vidas daqueles que, nas palavras de um dos personagens, precisaram aprender a se confundir com o cenário para poderem se manter vivos

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O livro

FICHA TÉCNICA

Gênero Teatro
Formato 14 x 19 cm
Páginas 80
Peso 100 g
ISBN 978-65-87243-24-5
Ano de lançamento 2023

Escrita pelo togolês Kossi Efoui no início da década de 1990, A encruzilhada verte em poesia vidas ressecadas pelo autoritarismo, vidas daqueles que, nas palavras de um dos personagens, precisaram aprender a se confundir com o cenário para poderem se manter vivos. Uma Mulher e um Poeta estão à procura de um caminho, de um futuro, onde seja possível ser alguém, não apenas sobreviver. Acontece que, na encruzilhada em que eles se encontram, não se vê nenhuma saída. Se é verdade que o Poeta vislumbrou no exílio uma nova existência, tal afastamento não lhe trouxe mais do que a possibilidade de, outra vez, se confundir com o cenário, o que já não era mais possível em seu país natal, onde era perseguido pelas autoridades. Esses personagens – por vezes semelhantes a bonecos inanimados – ganham vida pelo sopro de um Ponto, que lhes traz a fala como quem carrega e transmite uma memória há muito silenciada. Nesse microcosmo, une-se a eles um Cana, personagem vazio de memória, que não procura caminhos pois tem “o medo no lugar da alma”. A encruzilhada que pesa sobre esses personagens é também aquela à qual o autor esteve condenado enquanto vivia sob o regime togolês, que, com nova roupagem, perdura até os dias atuais. Porém, ao ser ambientada em um espaço onírico, habitado por personagens arquetípicos – Mulher, Poeta, Ponto e Cana –, a peça transcende em muito seu contexto de origem, e seu sentido se universaliza.

Por que ler A encruzilhada?

A obra incita o leitor a refletir sobre a essencialidade da arte, sobretudo quando ela procura ressignificar e traduzir uma questão sensível – neste caso, as consequências do autoritarismo e da violência de Estado. Kossi Efoui coloca em cena uma pluralidade de linguagens artísticas ao dar vida a seus personagens arquetípicos: além dos elementos tradicionais do teatro, no palco vemos movimentos de dança, poesia e recursos sonoros que enriquecem o drama. É através dessa construção cênica que A encruzilhada expurga não apenas os sentimentos do dramaturgo, mas também de todo o povo togolês que, por anos, foi, e continua a ser, flagelado pela opressão. 
 

Além da conquistadora poeticidade de A encruzilhada, nota-se que o autor não especifica o contexto histórico a que se refere, entregando ao leitor apenas o que há de essencial: o autoritarismo e os sentimentos despertados por ele. Com essa intencional omissão, Kossi Efoui abre margem para que a reflexão política não paire apenas sobre o Togo, mas se multiplique para todas as culturas mutiladas pelo colonialismo. Ainda que denuncie atos truculentos, o dramaturgo narra a história daqueles que resistem à desintegração.

A encruzilhada nos palcos

Primeira obra teatral de Kossi Efoui, A encruzilhada estreou nos palcos de Limoges durante o Festival da Francofonia de 1990, ano em que foi também publicada na revista francesa Théâtre Sud (L’Harmattan e Radio France Internationale – RFI). No Brasil, foi montada quase três décadas mais tarde pelo coletivo de teatro amador En Classe et en Scène ligado à Universidade de Brasília (UnB), apresentando-se pela primeira vez no dia 3 de julho de 2019, e ganha agora sua primeira edição em livro. A tradução que o leitor tem em mãos, assinada pela coordenadora do coletivo, Maria da Glória Magalhães dos Reis, e pelos dois participantes regulares do grupo, João Vicente e Juliana Estanislau de Ataíde Mantovani, foi realizada ao longo do processo de montagem – as fotografias que estampam a capa e o miolo deste volume são registros dessa encenação. 

Sobre a edição da Temporal

A presente edição vem acompanhada de prefácio, em que os tradutores ressaltam a dimensão autobiográfica da peça de Kossi Efoui e indicam seus principais procedimentos criativos, além de tecerem considerações sobre os processos de tradução e montagem. No volume, há ainda sugestões de leitura que permitem um aprofundamento na obra do autor, bem como um olhar mais amplo sobre o teatro africano de língua francesa, diaspórico ou não.

Um dos presentes mais lindos deste livro é o abraço, o acolhimento que ele nos dá em resposta às angústias impostas pela colonização.

— a psicóloga guarani Geni Núñez em comentário sobre o livro

Eu acho que "A encruzilhada" foi um ato de exorcismo da violência que eu sofria enquanto crescia, entrava na adolescência. Fui submetido a algo que eu considerava violento e medíocre, realmente violento e medíocre. Não entendia o que estava fazendo. E acredito que foi um ato, um ato da vida, de vitalidade e, portanto, de exorcismo, ou seja, que eu estava proibindo esse sistema de me desvitalizar. E essa peça foi isso, ela ataca um tipo de opressão que convoca o corpo, a respiração, a liberdade de pensar.

— o autor sobre a escrita de "A encruzilhada"

Sobre o autor

Nascido em 30 de dezembro de 1962, na cidade de Anfouin, no Togo, Kossi Efoui dedica-se ao campo das artes desde jovem: é escritor de romances e crônicas, ensaísta e dramaturgo, além de ator e diretor. Em meados da década de 1980, como estudante de filosofia na Universidade de Lomé, instituição onde também desenvolveu mestrado na área, o autor integrou o movimento de oposição ao regime instaurado em 1967 pelo militar Gnassingbé Eyadéma em seu país natal. Por causa dessa atuação, precisou exilar-se na França, onde vive até hoje.

Já radicado no país europeu, em 1990, Kossi Efoui escreve sua primeira peça,  A encruzilhada, vencedora do 16º Concours Théâtral Interafricain. A partir daí, o autor se insere de vez no circuito cultural francês: seu texto de estreia não somente é encenado no Festival da Francofonia de Limoges como também é publicado pela revista Théâtre Sud. Suas peças seguintes, Récupérations [Recuperações], de 1992, e La Malaventure [A desventura], de 1993, compõem uma trilogia com A encruzilhada. Ao todo, Kossi Efoui é autor de nove textos teatrais. 

Nesse jogo de combinações, o autor costuma trabalhar em conjunto com artistas visuais e profissionais do palco (diretores, atores, figurinistas, compositores e responsáveis técnicos de diversas categorias) no decorrer de seu processo criativo, que culmina em textos cuja preocupação central é o corpo e suas representações na sociedade pós-moderna. De maneira constante, colabora com a companhia teatral francesa Théâtre Inutile. Além da atuação no campo do teatro, a experiência de Kossi Efoui como cronista se dá especialmente no jornal pan-africano Jeune Afrique. Como romancista, somam-se cinco obras publicadas, todas pelas Éditions du Seuil: La Polka [A polca] (1998); La Fabrique de cérémonies [A fábrica de cerimônias] (2001) – vencedora do Grand Prix Littéraire d’Afrique noire; Solo d’un revenant [Solo de uma assombração] (2009) – reconhecida pelas premiações Tropiques, Ahmadou-Kourouma e Prix des Cinq continents de la Francophonie; L’Ombre des choses à venir [A sombra das coisas por vir] (2011); e Cantique de l’acacia [Cantiga da acácia] (2017). Suas atividades de escrita dividem-se entre a criação e a condução de oficinas na França e fora dela, não somente em ambientes acadêmicos, mas em espaços como associações culturais, hospitais e unidades penitenciárias.

A obra do autor também é bem recebida no âmbito universitário, sobretudo por estudiosos na França. Entre os trabalhos realizados sobre Efoui, destacam-se os de duas docentes da Universidade Sorbonne Nouvelle – Paris 3: Sylvie Chalaye, que organizou um número especial da revista Africultures (Le Théâtre de Kossi Efoui, une poétique du marronnage, n. 86. Paris: L’Harmattan, 2011), e Pénélope Dechaufour, autora de tese de doutorado sobre o autor pela mesma instituição.

© Gaëtan Noussouglo