- dramaturgia internacional, história do teatro

Da utopia ao desencanto, e vice-versa

Nossa convidada do mês de novembro é a professora e pesquisadora da UFMG Elen de Medeiros, que nos dá um panorama sobre o mais novo livro de ensaios do crítico Jean-Pierre Sarrazac, “Crítica do teatro I: da utopia ao desencanto”. A seguir, Elen expõe a atualidade dos textos reunidos na edição, que passeiam pela defesa de um fazer teatral crítico e do conceito de público no teatro, além de destacar a relevância e a proximidade com o contexto brasileiro

por Elen de Medeiros

 

“O teatro é o lugar da invenção dos possíveis.”

 

Publicado na França em 2000, pela coleção Penser le théâtre da Circé, Crítica do teatro I: da utopia ao desencanto ganha finalmente publicação no Brasil, pela Temporal (tradução de Letícia Mei, apresentação inédita do autor e prefácio de Sérgio de Carvalho). Jean-Pierre Sarrazac, que há décadas estuda as formas dramatúrgicas modernas e contemporâneas – tornando-se um dos maiores expoentes na França de uma teoria do drama contemporâneo –, dedica-se, neste livro, escrito em uma circunstância bastante peculiar,[1] às reflexões sobre o teatro da segunda metade do século XX, mas que não deixam de se articular a uma prática intelectual mais ampla.[2] Segundo o próprio autor o descreve na apresentação, este é um volume que “reúne ensaios curtos, a maior parte escrita na última década do século XX” (p. 7). Ou seja, trata-se de uma obra que demorou mais de duas décadas para chegar ao mercado editorial brasileiro, a despeito da envergadura intelectual de Sarrazac.

Embora boa parte dos textos faça uma abordagem do teatro francês da segunda metade do século XX, e busque um entendimento da condição e da necessidade de um teatro crítico, a exemplo do que ansiavam Jean Vilar e Bertolt Brecht, a solidez do pensamento e as questões levantadas por Sarrazac são ainda hoje pertinentes, em especial em um Brasil que sofre um violento desgaste com relação a financiamentos públicos e que se vê diante do dilema constante de como se manter crítico. Detendo-se no contexto de sua escrita, a obra de Sarrazac assume o desejo contínuo de “colocar, lado a lado, cara a cara, o desencanto atual e o impulso propriamente utópico do teatro-serviço público ou do teatro crítico da sociedade do pós-guerra” (p. 31). Parece-nos que este campo de desassossego entre a utopia e o desencanto, guardadas as especificidades contextuais tão diversas, pode encontrar ecos no cenário teatral brasileiro atual, nos seus modos de sobrevivência e de produção.

Crítica do teatro I é composto de sete ensaios independentes,[3] mas interligados em torno do debate sobre um teatro público, inicialmente almejado por Jean Vilar no Théâtre National Populaire [Teatro Nacional Popular] (TNP),[4] e para onde esse vai. Nesse sentido, os textos se alinham a uma inquietude que perseguia o autor naqueles derradeiros anos do século XX, a continuidade de um fazer teatral crítico, que se voltasse sobretudo às questões internas do teatro. Por isso, os ensaios não são especificamente sobre a história do teatro francês, embora façam uma retomada histórica; tampouco se trata de um estudo estético, mesmo que as reflexões de cunho estético estejam presentes em vários momentos. Mais uma vez, citando o autor:

Esta não é uma obra de história (embora estude a evolução do teatro francês durante meio século), nem de sociologia (ainda que se interesse pelas condições econômicas e, sobretudo, políticas nas quais os artistas produziram seus espetáculos), tampouco é uma obra de estética propriamente dita (já que tal abordagem é, aqui, imediatamente encadeada por outras, histórica ou sociopolítica) (p. 29).

Trata-se de observar, em certa medida, as reflexões internas e externas do teatro. Por reflexões internas nos referimos a um teatro que busca uma observação crítica sobre seus modos contemporâneos de produção, financiamento e consumo, diante do avanço irrefreável de (poucas) políticas públicas neoliberais. Ou seja, como se manter crítico diante das situações deveras paradoxais com que o teatro se debatia naquele momento, como refazer a conexão do espaço criativo com a vida cotidiana do público. As perguntas que Sarrazac lança no primeiro ensaio do livro (“Por que o teatro?”), ainda que sobre o contexto francês, decerto já passaram pelas incertezas dos grupos e artistas brasileiros. E nele é possível reconhecer o que está no bojo de muitos textos do crítico: que nenhum modelo prévio se sobreponha ao outro, mas que os diálogos sejam possíveis para uma melhor amplitude de ação do próprio teatro.

Os questionamentos e provocações sobre esse teatro público e ao mesmo tempo crítico perpassam não apenas a subvenção ou a ideia (e o lugar) do teatro-serviço público, elas enveredam pela complexidade dessa arte, buscando os paradoxos e os impasses, seja pela perspectiva interna (da encenação, da subvenção, do espaço teatral, mas também da consolidação da revista Théâtre populaire), seja pela perspectiva externa, isto é, a do espectador, o público a quem se destina esse tipo de produção e reflexão.

Roland Barthes e Bernard Dort foram o eixo fundamental das reflexões de Sarrazac em vários dos ensaios aqui agrupados, na condição de pensadores do teatro francês e editores da revista Théâtre populaire nos anos 1950 e 1960. O desdobramento do pensamento de ambos se insere na prática teatral desse período, e do posterior, e se projeta não só sobre a produção artística – exigindo dela que fosse crítica –, mas também para o incentivo e sustentação dos espaços teatrais, seus lugares políticos, a base estética sobre a cena etc. Ao perscrutar o que esses dois intelectuais produziram, Sarrazac traça o percurso do que foi o teatro na segunda metade do século XX na França que tanto influenciou sua própria geração.

Quanto à segunda perspectiva, isto é, uma discussão do que seria o papel do espectador crítico, tal como o desejava Brecht e alimentava Barthes, Sarrazac, dentre outros aspectos, chama a atenção à ação do esvaziamento dos sentidos ou mesmo da extrema explicação da cena e os perigos que isso representa, particularmente naquilo que é conhecido como o teatro pós-moderno. Por sua postura para com o espectador e por sua forte presença no ideário teatral francês do pós-guerra, Brecht é trazido ao debate em vários dos ensaios e baliza suas ponderações mais contundentes sobre a posição política que se vê em desencanto no final do século XX. Sem compreender a obra do fundador do Berliner Ensemble como estagnada ou ultrapassada, Sarrazac a chama a um reexame, à luz do que o próprio autor alemão elaborou: a produção de um teatro de dimensão cívica e política.

Dort e Barthes foram, explicitamente, os dois mestres do autor, que se debruça profunda e intimamente sobre os meandros teóricos, críticos e estéticos dos editores da Théâtre populaire, inclusive trazendo a lume um rico e complexo debate sobre teatralidade, termo quase inextricável que divide teóricos. Por tão tributário desses teóricos, mas também crítico, para Sarrazac é fundamental voltar-se para o percurso dos mestres, já que é de Dort que Sarrazac apreende a ideia de “crítica do teatro”, e não uma “crítica de teatro”, como ele reitera algumas vezes. Trata-se, sob tal prisma, de olhar o teatro na sua perspectiva autorreflexiva e questionadora.

Por fim, reiterando nossa observação inicial, Crítica do teatro I compõe uma vasta obra crítica, estética e teórica que se articula, e que se faz necessária para não incorrer em injustiças com seu autor. O último ensaio é um convite para esse debate estético, a que ele denomina de “o jogo dos possíveis”, e que está presente em boa parte de seus textos: a possível aproximação, sem prejuízo da postura crítica, entre a objetividade de um realismo crítico e a introspecção de autores como Strindberg, que realçam o jogo de sonho e o universo psíquico dos personagens. Ou seja, trata-se de fomentar um teatro “em que são colocados lado a lado – e em tensão – o teatro do eu e o teatro do mundo” (p. 9). Ao finalizar com essa reflexão, afirmando que “o teatro é o lugar dos possíveis” (p. 160), Sarrazac convida seu público leitor a novas utopias do e no teatro, aos possíveis que alimentam e representam um horizonte utópico com o retorno de um teatro crítico. Ele encerra esse conjunto voltando-se para o “onde vai” aquele teatro crítico, e alerta, cautelosamente, para a pós-modernidade vigente, que “parece cansada de si mesma e atingida pela obsolescência” (p. 165).

O leitor que tiver interesse em acompanhar tais debates encontrará, em Critique du Théâtre II: du moderne au contemporain, et retour,[5] ecos e desdobramentos desses ensaios de Crítica do teatro I, em um novo contexto. Ao deter-se nos dispositivos estéticos do teatro mais inovador da atualidade em relação àquele produzido na virada para o século XX, o autor dá relevo a uma trajetória que já se alimentou bastante da imagem do rapsódico, explorada em vários de seus textos. Mas isso é livro para uma outra tradução...

 

[1] O pano de fundo importante para ter como ponto de partida, e que é bastante esmiuçado por Sérgio de Carvalho no prefácio do livro, é o contexto desse teatro da segunda metade do XX: da utopia do pós-guerra e das ideologias do socialismo, muito em voga na França, até o fim do século, em que se vê a queda do bloco soviético e certo desencanto com as questões políticas debatidas nos anos precedentes.

[2] Mereceriam atenção maior também as outras obras do mesmo autor, que esperam tradução de volumes que, em conjunto, sustentam a rede teórica formulada por ele. Desde O futuro do drama (Tradução de Alexandra Moreira da Silva. Porto: Campo das Letras, 2002), Théâtres Intimes (Paris: Actes Sud, 1989), passando pelos números da Révue d’Études Théâtrales e pela Poética do drama moderno (Tradução de Newton Cunha, J Guinsburg e Sonia Azevedo. São Paulo: Perspectiva, 2017), até sua última publicação – Strindberg, l’impersonnel (Paris: L’Arche, 2018) –, Sarrazac possui um fio de reflexão que escapa a traços simplificadores. Ele se mantém fiel à hipótese do teatro rapsódico forjada em sua tese de doutorado e que sustenta sua produção intelectual seguinte.

[3] Tanto que o terceiro ensaio do livro, “A invenção da teatralidade”, foi publicado em 2013 na revista Sala Preta, com tradução de Silvia Fernandes.

[4] Jean Vilar foi uma das figuras teatrais mais importantes na França da segunda metade do século XX, diretor do TNP, a partir de 1951, e criador do Festival de Avignon. Não nos cabe aqui destrinchar o que foi o TNP sob a direção de Jean Vilar, mas cabe ressaltar que a ideia de teatro público que Sarrazac debate no livro está intrinsecamente ligada à história deste encenador, bem como à presença de Brecht na França após a encenação de Mãe Coragem e seus filhos, pelo Berliner Ensemble, em 1954 em Paris.

[5] Jean-Pierre Sarrazac, Critique du Théâtre II: do moderne au contemporain, e retour. Col. Penser le théâtre. Paris: Circé, 2015.

 

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Elen de Medeiros é professora de literatura e teatro da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), doutora em teoria e história literária pela Unicamp, pesquisadora do drama moderno e contemporâneo brasileiro, realiza atualmente pós-doutorado na Universidade Sorbonne Nouvelle – Paris 3, sob supervisão da profa. Alexandra Moreira da Silva, com bolsa CAPES/PrInt.

 No banner: cena da montagem de Mademoiselle Julie, de August Strindberg, realizada em 2012 no Théâtre National Populaire, com direção de Christian Schiaretti.


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