- dramaturgia internacional

A ebulição do rio Ota de Hiroshima sob o olhar do dramaturgo Jean-Paul Alègre

Em entrevista ao site francês Theatre-contemporain, o autor apresenta o curioso fato que o motivou a escrever “Eu, Ota, o rio de Hiroshima” e conta suas principais inspirações para a criação dos personagens e dos ambientes da peça

PARTE I: “A origem”

J.P.A: Este foi um dos milagres de minha carreira. Há milagres parecidos numa carreira. Eu estava em Tóquio [no ano de 2012], para assistir à peça Dois ingressos para o paraíso, encenada em língua japonesa, quando me propuseram: “Você aceitaria conduzir as cerimônias do aniversário do Centro Cultural Francês de Hiroshima?”. Muito bem, sem problemas, seria uma honra.

Bom, para mim, Hiroshima era até então o que eu tinha visto nos livros de história, isto é, uma grande planície de cor acinzentada, com cinzas espalhadas por toda a parte. Eu sabia que houve ali a primeira explosão nuclear da história, que foram mais ou menos 80, 100, 200 mil mortos, além daqueles que morreram em decorrência da leucemia, vinda depois etc.  

Na sequência, eu e Annick [companheira de Alègre] partimos, pegamos o Shinkansen [rede ferroviária japonesa de alta velocidade], que é o “TGV” [Train à Grande Vitesse – Trem de Alta Velocidade] japonês, e chegamos a Hiroshima, que fica aproximadamente a 800 quilômetros de Tóquio, ao sul do Japão. E lá, eu descubro o paraíso na terra: localizado bem no início da selva, um lugar montanhoso (eu não sabia que Hiroshima era uma cidade montanhosa!); há lá o mar de Seto, de cor azul, onde as crianças se banham, e há ainda um rio soberbo, que atravessa a cidade, o rio Ota [Otagawa]. Visitei então o memorial [Memorial da Paz de Hiroshima]. Ao visitar esse memorial – que é de uma grande simplicidade: um campo, com um lago e um gramado –, o guia que nos conduzia me disse: “Você sabe, senhor Alègre, que este rio, durante alguns minutos, entrou em ebulição?”. Fiquei estático na mesma hora, atordoado, assim como Annick.

O rio Ota parece um pouco com o rio Sena. Eu não consigo imaginar que um rio como o Sena, ou como o Adour, na região de Landes [departamento francês localizado ao sudoeste da França, quase divisa com a Espanha], possa entrar em ebulição em qualquer hipótese; isso é inconcebível para um ser humano imaginar!

E o nosso guia continuou: “Ah, sim, sim, o rio entrou em ebulição porque a temperatura no ponto zero [epicentro, ponto exato sobre o qual a bomba explodiu] atingiu mais de 6 mil graus Celsius”. Os raros sobreviventes – aqueles que não se transformaram no mesmo instante em energia, em luz – já que, em Hiroshima, além de tudo, caiu uma chuva nuclear imediatamente depois da explosão da bomba (e é por isso que minha peça tem o subtítulo “o dia que virou noite”) –, os raros sobreviventes que estavam perto do ponto zero (de fato muito raros) se jogaram no rio e, com ele, também ferveram, como nos contou o guia, dizendo: “Desculpem-me, talvez seja banal dizer assim, mas eles cozinharam como lagostas!”.

Na sequência, segui o protocolo: conduzi as cerimônias em comemoração ao aniversário do Centro Cultural em companhia do prefeito de Hiroshima, um homem jovem, magnífico, que falava um inglês impecável. Ele então me disse: “Senhor Alègre, estão todos cuidando bem de você?”. “Sim, senhor prefeito.” “E o que você fez?” “Eu visitei o Memorial.” E, na verdade, teríamos parado por aí, seguiríamos o protocolo para dar sequência à cerimônia. Logo em seguida, no entanto, eu perguntei a ele: “Então é verdade que o rio entrou em ebulição?”. Ao que ele me respondeu: “Escreva uma peça sobre isto!”. Eu reagi: “Não, senhor prefeito, tudo já foi escrito sobre Hiroshima”. “Não, não, teremos em breve o septuagésimo aniversário de lançamento da bomba e, decerto, tudo já foi escrito sobre isso, mas ninguém concedeu, ainda, a palavra ao meu rio.”

A partir daí, eu aceitei a proposta e as coisas começaram a caminhar. A peça se inicia, e o rio anuncia as primeiras frases: “Eu me chamo Ota. O rio de Hiroshima”. Ela [a personagem feminina que interpreta o rio Otagawa na peça de Alègre] vai nos explicar então por que foi o primeiro rio, e, esperamos, o último da história da humanidade, a entrar em ebulição.

 

PARTE II: “Apresentação”

J.P.A: Fiquei verdadeiramente chocado com a frase proferida pelo prefeito, um homem que, além de tudo, é magnífico (pode ser até um pouco bobo dizer isso, mas ele é, de fato, um homem impressionante, carismático). Eu disse a mim mesmo que fazer este rio falar era mesmo uma ideia formidável.

Lancei-me então aos estudos: li um grande número de livros e descobri duas coisas que são verdadeiramente instigantes, e que foram muito bem retratadas na montagem japonesa. Em primeiro lugar, [destaca-se] a posição de dois presidentes estadunidenses, Roosevelt e Truman. Roosevelt morre antes de poder lançar a bomba, e é Truman quem vai retomar o projeto, o “Projeto Manhattan”, autorizando o seu lançamento. Temos, portanto, esses dois personagens em minha peça. Temos, ainda, a representação dos minutos que antecedem a decisão [do lançamento atômico], e, neles, há o personagem de um conselheiro, que se chama Vannevar Bush, que nada tem a ver com o Bush que seria eleito presidente mais tarde (Bush é um sobrenome muito comum nos Estados Unidos), figura que será o verdadeiro gatilho da peça: é ele quem vai explicar [o que significava o lançamento das bombas nucleares] aos dois presidentes, que estão, por sua vez, reticentes. (Ambos não eram exatamente “aficionados pela guerra”, como foram descritos mais tarde; Truman era um “homem de esquerda”, alinhado especialmente às correntes de esquerda, à moda estadunidense, ou seja, um presidente democrata, e que hesitou em lançar a bomba.)

Logo na sequência, temos um momento mágico, em que o autor dramático não é mais do que um mero transmissor: eu apenas tento representar o que se passou de verdade no Salão Oval, onde Truman assinou, com uma caneta Waterman, a ordem do lançamento da primeira bomba [atômica] da história da humanidade. Hoje, para que um presidente de uma das potências nucleares faça o lançamento de uma bomba, é preciso um reconhecimento de retina, um reconhecimento de digitais, que ele esteja dentro de um silo nuclear [instalação subterrânea], que o primeiro-ministro esteja em outro, e o chefe do Estado Maior num terceiro... Mas, naquele momento [em 1945], [havia] um homem, sozinho em seu escritório, com apenas uma única testemunha, o conselheiro, que também assina a ordem de lançamento.

Temos ainda dois outros personagens, criados por mim, pois eu disse a mim mesmo: é preciso materializar a população japonesa. Assim, escolhi que essa população fosse representada por duas crianças: uma irmã, Akimitsu, que se refugiou em Hiroshima, ou seja, ela foi enviada de Tóquio a Hiroshima, e que vive na casa de sua tia e de seu tio; ela incita o seu irmão mais novo, Yoshi, [a vir ao seu encontro,] orientando-o a pegar o trem de Tóquio. [Akimitsu] escreve cartas a ele – cartas essas que vêm, por assim dizer, pontuar o espetáculo –, pedindo: “Venha a Hiroshima! É ao Sul do Japão, jamais foi bombardeada, nós nunca vimos sobrevoar um avião aqui”. Isso era, de fato, verdade: a cidade de Hiroshima era inteiramente virgem, digamos assim, em relação aos ataques feitos durante toda a guerra, e foi precisamente por isso que ela foi eleita [para ser alvo da bomba atômica]. Não havia, por exemplo, prisioneiros estadunidenses em Hiroshima. E [, nas cartas,] ela continua dirigindo-se ao irmão: “Venha a Hiroshima! Venha a Hiroshima!”. Finalmente, numa das últimas cenas, é justamente o irmão mais novo, Yoshi, que diz: “Por fim, querida irmã, consegui reunir modestas economias. Vou pegar o trem noturno, que custa mais barato. Ele chegará a Hiroshima na manhã de 6 de agosto, às 8h10. Venha me buscar”. Neste ponto, observamos Akimitsu e seu irmão caçula indo ao encontro um do outro. Ao mesmo tempo em que os dois caminham para se encontrar, contornando as margens do rio Ota, acima deles, vemos a Little Boy, a “dita-cuja”, que desce em direção a eles e...  Enfim...

O que foi incrível ao escrever esta peça, o que verdadeiramente me entusiasmou, é que conhecemos o fim da história, como [termina], de fato, sabemos. Espero – na verdade, isso não sou eu que devo dizer, mas antes os espectadores que forem assistir à peça –, desejo que o espectador pense muito ao ponto de dizer ao pequeno Yoshi: “Não pegue esse trem, não pegue esse trem!”. Mas ele acaba por pegá-lo, evidentemente.

Temos aí, em linhas gerais, a estrutura da peça. 

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Jean-Paul Alègre é autor de Eu, Ota, rio de Hiroshima, título lançado pela Temporal em agosto de 2020.

 

No banner: Natacha Astuto interpreta Ota na estreia suíça em 2015 [Théâtre de Colombier].