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O “teatro da catástrofe” de Howard Barker

artigo por ELTON ULIANA — Para o mês de aniversário do dramaturgo inglês Howard Barker, nascido em 26 de junho de 1946, o tradutor Elton Uliana – que se ocupa de sua obra e mantém colaboração direta com o próprio Barker há alguns anos – preparou uma apresentação do teatro barkeriano. Designado “teatro da catástrofe”, este universo criativo exprime uma brutalidade que, de acordo com Uliana, remete a tempos elisabetanos e jacobinos. Ao tratar da ambição humana e da dimensão sexual dos sujeitos, o dramaturgo dá vida a uma obra pulsante e polêmica, que gera debates acalorados mundo afora, levando seu tradutor a questionar se já existe uma audiência pronta para tal projeto teatral. Com excertos de peças e poemas de Barker, Uliana delineia abaixo esse mundo dramatúrgico, ao trazer à tona sua atmosfera estética e filosófica, sem meias-palavras.

por Elton Uliana*

Clarity
Meaning
Logic
And Consistency
None of it
None

(Howard Barker)[i]  

Clareza
Significado
Lógica
E Consistência
Nada disso
Nada

(tradução minha)

Howard Barker é considerado um dos maiores exponentes da dramaturgia britânica ainda vivo. Sua carreira se estende desde 1969, quando o dramaturgo propôs uma mudança radical nos padrões estéticos convencionais da época ao explorar destemidamente em seu trabalho os extremos da experiência moral humana através de uma distintiva combinação de estilo, linguagem, argumento teórico e mise-en-scène 

Pintor, escritor, poeta, diretor, roteirista e dramaturgo, Barker é o inventor de um teatro violento e cruel, conceptualizado pelo autor como “teatro da catástrofe”, marcado tanto pela releitura de paradigmas bíblicos quanto pela reinterpretação das obras de Shakespeare, uma estética que, imbuída de uma brutalidade, por vezes nos remete às tradições elisabetanas e jacobinas. Dito isto, Barker defende uma tradição de teatro antididática, anti-ilusionista, antirrealista e não ideológica, aberta a múltiplas interpretações do público.   

Barker é autor de mais de cem obras dramáticas (principalmente para teatro, mas também para rádio, televisão e cinema), seis volumes de poesia, duas obras de teoria filosófica e estética – Arguments for a Theatre; Death, The One and The Art of Theatre – e uma reflexão autobiográfica sobre a prática teatral narrada na terceira pessoa e creditada a um de seus vários heterônimos, Eduardo Houth – A Style and its Origins, uma coleção de ensaios verdadeiramente fascinante sobre a natureza do teatro. No plano transnacional, pelo menos duas dezenas de suas peças foram traduzidas e encenadas em mais de cinco idiomas diferentes, em países como França, Alemanha, Canadá, Nova Zelândia e Eslovênia. 

Os textos de Barker são construídos a partir da premissa de que o teatro é uma necessidade na sociedade, um lugar para imaginação e especulação moral, não limitado pelas demandas do realismo ou de qualquer outra ideologia estética, num processo de desestabilização não só do público, como também de todo o time criativo envolvido numa dada produção.  

Seu “teatro da catástrofe” é um modelo de tragédia contemporânea em que não há nenhuma forma de edificação; pelo contrário, o teatro é, segundo Barker, o último lugar para se aprender alguma coisa. Em suas peças, nenhuma tentativa é feita para satisfazer demandas populares por clareza ou nexo, nem sequer para corresponder à simplicidade enganosa de uma única “mensagem”. Cada performance é como um desafio público em que atores e audiência são provocados e instigados a encontrar significado e ressonância numa multiplicidade de interpretações. 

De maneira geral, as peças de Barker retratam forças políticas moldadas e complicadas pelos impulsos de paixão sexual, muitas vezes não exteriorizados, mas sempre eruptivos. Nas palavras do próprio dramaturgo, há uma tentativa de trazer a atenção do público para o palco de uma forma em que qualquer sentimento de compaixão seja erradicado desde o início, sendo substituído obsessivo, abundante e esmagadoramente pelo olhar e pela audição.  

Além disso, Barker é também um artista visual prolífico, cujos desenhos e pinturas foram exibidos internacionalmente. Seu influente conceito do “teatro da catástrofe” tem como princípio a ideia de que a arte não é digerível por meio de um teatro que leva a experiência aos limites do tolerável e a explode na recusa implacável do esperado. Esse excesso de experiências de transformação na essência da forma dramática, característica do teatro pós-dramático, envolve uma perplexidade contínua do público (e de fato, dos tradutores de sua obra) em face do deslocamento, desconforto e ambivalência persistentes, e pode ser resumido de forma bastante concisa pela própria poesia de Barker: 

The Catastrophic Theatre  

We only sometimes agree. Laughter conceals fear.
Art is a problem of understanding. There is no message.
The actor is different in kind.
The audience cannot grasp everything; nor did the author. We quarrel to love.
The critic must suffer like everyone else.
The play is important.
The audience is divided
and goes home
disturbed
or
amazed.  

(Barker, 1993, p. 71)  

O teatro catastrófico 

Só às vezes concordamos. O riso esconde o medo. 
A arte é um problema de compreensão. Não há mensagem. 
O ator é diferente em tipo. 
O público não consegue entender tudo; nem o autor. Nós lutamos para amar. 
O crítico deve sofrer como todo mundo. 
A peça é importante. 
O público fica dividido 
e vai para casa 
perturbado 
ou 
perplexo. 

(tradução minha) 

Neste contexto, o autor privilegia continuamente uma exploração audaciosa e desafiadora das estruturas de poder pessoal e político, das manifestações liberadoras e muitas vezes cruéis da sexualidade, assim como elabora um estudo ritualístico e perturbador sobre motivações, impulsos e ambições humanas. Seus textos desencadeiam transbordantes em poesia, contradição, história, beleza, violência e comédia imaginativa, tudo isso se equilibrando esteticamente nos extremos radicais do comportamento humano, criando uma experiência teatral preponderantemente estranha e sedutora.  

Para Barker, o “velho” anestesiou o teatro, tornando-o um “veículo” da “verdade”. Nesse sentido, o surgimento da companhia teatral The Wrestling School foi inevitavelmente oposicionista, já que a companhia foi criada por Barker para realizar e confrontar sua própria obra, da qual o autor acabou sendo repudiado, por companhias nacionais. 

Como ilustração, veja por exemplo o jogo de erotismo nada convencional e bastante perturbador na cena de abertura de Gertrude – The Cry [Gertrude – o grito], uma das peças mais traduzidas e produzidas de Barker, onde o potente elemento erótico parece mesmerizador em sua capacidade de se instalar, não na nudez apenas, mas também na agonia obcecada das relações amorosas entre as personagens:  

Cena 1 

Um orquidário em Elsinore. Um rei dorme no chão. 

Gertrude (Entrando) Eu deveria 

Com certeza 

Eu deveria 

Eu 

Claudius (Entrando) Não  

Gertrude Eu 

Deixa eu 

Claudius Tem que ser eu quem 

Gertrude E por que não eu 

Claudius Eu quem 

Gertrude ELE É MEU MARIDO POR QUE NÃO EU 

(Pausa) 

Claudius Porque ele é seu marido tem que ser eu 

Gertrude Deixa que eu mato 

Ó deixa que eu mato para você  

(Pausa) 

Claudius Quem mata sou eu 

Eu 

(Pausa) 

Gertrude MATE MEU MARIDO ENTÃO MATE  

POR MIM 

(Uma pausa fracionária 

Claudius Desnude-o 

Gertrude Desnudar? 

Claudius Nu  

Gertrude Desnudar completamente sim 

Claudius Deixe-me ver o motivo pelo qual o estou matando  

Gertrude (Tirando a roupa) Sim 

Sim 

Claudius E se ele se mexer  

Se seus olhos abrirem de agonia  

Mostre a ele a razão pela qual ele está morrendo  

Deixe-o ver o que eu roubei  

O que era dele  

E que agora pertence a mim 

A COISA  

A COISA  

DEIXE OS OLHOS DO CACHORRO AGONIZANTE NADAREM  

SEU 

(Pausa 

Ele não é um cachorro  

(Ele encolhe os ombros) 

Eu o chamei de cachorro 

Gertrude Faça agora 

Claudius Se alguém aqui é um cachorro  

Gertrude FAÇA AGORA  

Claudius Sou eu 

(Gertrude se posiciona sobre a cabeça do homem que dorme, inclinada, provocativa) 

Gertrude Envenena 

(Claudius vai até Gertrude para beijá-la. Ela fecha os olhos e vira o rosto) 

Envenena 

(Claudius tira o frasco do bolso. Se ajoelha ao lado do homem que dorme. Despeja o líquido dentro da orelha do homem. Gertrude parece vomitar de êxtase. Seu grito se confunde com o grito do homem que dorme e que agora estremece) 

Me fode 

Oh me fode 

(Claudius e Gertrude copulam sobre o homem que morre. Os três gemem, a música dos extremos. Uma servente entra segurando uma vestimenta, e a oferece) 

É possível identificarmos nesta cena uma condensação de elementos cruciais que fizeram de Barker uma das figuras mais controversas do teatro inglês. De fato, ele é considerado o enfant terrible do teatro britânico contemporâneo e frequentemente objeto de acalorado debate.  

Em sua repudia ao teatro como entretenimento ou iluminação pedagógica, seja ele amado ou odiado – como parece ser o caso muitas vezes em seu país natal –, suas peças são impossíveis de se ignorar. Também há a possibilidade de que a audiência para seu teatro ainda não exista, como Barker deixou transparecer no passado. Neste sentido, é este o intento deste projeto de apresentação do trabalho de Barker no Blog da Temporal.  

 [i] Howard Barker, The Bite of the Night. Calder, 1987, pp. 86-87. (TC 145).

Leitura adicional 

Barker, Howard e Eduardo Houth. A Style and its Origen. Londres: Oberon, 2007. 

Barker, Howard. The Ecstatic Bible: A New Testament. Londres: Oberon, 2004.   

_____________. Arguments for a Theatre. Manchester: Manchester University Press, 1993. 

 

Links disponíveis 

Trecho da peça Hurts Given and Received [Dores dadas e recebidas] (2010) 

Trecho da peça Slowly [Devagar] (2010) 

Trecho da peça Blok/Eko (2011) 

 * 

Elton Uliana é tradutor brasileiro radicado em Londres. Uliana tem mestrado em Estudos de Tradução pela University College London (UCL) e bacharelado em Literatura Inglesa pelo Birkbeck College, University of London. É afiliado à Associação dos Tradutores de Português-Inglês (PELTA) e membro do Out of the Wings Collective, um projeto de pesquisa em tradução teatral no King’s College London. Ele é coeditor do Brazilian Translation Club na UCL. Suas publicações incluem textos de Carla Bessa (Asymptote e Oxford Anthology of Translation), Ana Maria Machado (Alchemy), Sérgio Tavares (Bengaluru) e Jacques Fux (Tablet e 128Lit), assim como contos de Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo (coletânea Mujeres Machete, HarperCollins, 2023). Sua última publicação é um volume da revista Art in Translation sobre arte afro-brasileira com ensaios de Manuel Querino, Mário Barata e Odorico Tavares pela Taylor and Francis.

 

No banner: Howard Barker. Fotografia de Eduardo Houth. 


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