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Cia. Bonobo traz para o teatro uma reflexão sobre a democracia no Chile e na América Latina, bem como seus processos de exclusão social

Em entrevista à Temporal, o grupo chileno comenta sobre as contradições da democracia em seu país, tema sempre presente em suas peças, e como esse questionamento se desdobra na forma, nas temáticas e nas reflexões posteriores aos espetáculos

Dando continuidade à seção do Blog da Temporal dedicada aos grupos teatrais contemporâneos, hoje apresentamos aos leitores a entrevista que fizemos com os diretores da companhia teatral chilena Bonobo, que em março deste ano – poucos dias antes do fechamento dos estabelecimentos comerciais, em razão da pandemia –  trouxe aos palcos paulistanos sua última peça, Tú Amarás, como parte da programação da 7ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp). Dirigido por Andreina Olivari e Pablo Manzi, a cia. Bonobo se formou em 2012, no momento em que um grupo de artistas oriundos da Academia de Actuación Fernando González Mardones e da Universidade do Chile decidiram se reunir para a criação da peça Amansadura. Os três trabalhos teatrais que a companhia levou aos palcos até hoje tematizam, de diferentes maneiras, os tipos de violência ao “outro” legitimados pelas democracias liberais, e seus textos foram desenvolvidos inteiramente a partir de um processo coletivo de experimentação e improvisação.

Temporal: Em primeiro lugar, pediríamos que vocês falassem um pouco sobre a trajetória do grupo no campo do teatro desde o início. O que os uniu em torno de um projeto comum?

Companhia Bonobo: A companhia se formou em 2012, com nossa primeira montagem, Amansadura. Antes disso, a maioria de nós tinha se formado no curso de atuação, em 2009. Nós (Andreina Olivari e Pablo Manzi) fomos companheiros de curso na Academia de Actuación Fernando González Mardones, nos conhecíamos muito bem, tínhamos interesses e concepções sobre o teatro muito parecidas e, então, quando nos formamos, queríamos muito começar a trabalhar juntos e fazer nossas próprias criações. Em 2010, decidimos realizar um projeto independente e formar um grupo com pessoas da nossa Academia de Actuación, além de pessoas da nossa geração que admirávamos muito e que tinham estudado na Universidade do Chile. O fato é que todas e todos estávamos começando a trabalhar de maneira profissional no teatro. A obra Amansadura nos permitiu conhecermos a nós mesmos, explorar modos de criação e, acima de tudo, descobrir que o que nos unia era o humor e o desejo de trabalhar coletivamente, assumindo funções dentro da companhia, mas sem hierarquias.

Temporal: Suas três criações – Amansadura (2012), Donde viven los bárbaros (2015) e Tú Amarás (2018) – colocam, de maneiras diferentes, o mesmo tema das relações conflitivas entre a democracia e a alteridade, e entre o discurso de acolhimento e tolerância e a violência real que ele encobre. Esse tema já estava presente nas reflexões anteriores aos experimentos teatrais do grupo ou surgiram desses experimentos? Para além dessa semelhança entre as peças, quais são, nesse aspecto, as diferenças específicas entre elas?

Cia. Bonobo: O tema de que tratamos nas nossas três montagens está presente no teatro chileno desde a chegada da democracia, após a ditadura de Pinochet (1973–90). É difícil não questionar essa democracia na qual crescemos, por isso acreditamos que a temática já nos era presente antes de formarmos a companhia. Contudo, o que emergiu com a companhia foi o ponto de vista sobre essa temática: por meio de discussões e trocas de experiências a respeito da democracia no Chile, pudemos articular um modo de olhar que fizesse sentido para nós, enquanto companhia.
Todas as montagens que fizemos estão atravessadas pela violência implícita que existe em nossa democracia. Porém, elas se diferenciam, porque as reflexões e problematizações em torno do tema vão evoluindo de acordo com o contexto político e histórico do país, e também de acordo com os acontecimentos que vimos na América Latina. Depois das montagens, a companhia naturalmente sentiu que é possível poder voltar e repensar o que pensamos na obra anterior. Isso é muito importante para nós, porque, de alguma maneira, nos submetemos mais uma vez a perguntas feitas por nós mesmos, e à problematização daquilo que construímos em uma obra.
Em Amansadura, a pergunta que nos colocamos foi: o que significa ser cidadão? Quem são os cidadãos? E como essa pergunta, inevitavelmente, nos leva à exclusão e à produção de “bárbaros” que não têm direito a ser cidadãos?! Na obra Donde viven los bárbaros, nos indagamos sobre quem são esses “bárbaros” a partir do olhar do “nós” democrático, que se vê permanentemente cindido pela existência de “outridades” que rompem com seus ideais de cidadão. Em nossa última montagem, Tú Amarás, achamos necessário, com base no contexto social, problematizar o politicamente correto e [a maneira] como aparecem formas de exclusão pelos mecanismos de bonificação e discriminação positiva na produção desses “bárbaros”.

Temporal: Em Tú amarás, vocês usam a parábola. A abstração resultante dela amplia as possibilidades de interpretação sobre quem seria essa “outridade”, vista por diferentes críticos, por exemplo, ora como representação do povo Mapuche, ora dos imigrantes haitianos. Por outro lado, a peça se apoia claramente no solo histórico nacional chileno (e latino-americano). Vocês concordam que há na peça esse duplo direcionamento, no sentido de uma particularização histórica e, ao mesmo tempo, uma abstração e universalização? O que os levou ao uso da parábola na peça?

Cia. Bonobo: Mais do que abstração, nossa intenção era ocupar um mecanismo de estranhamento com o objetivo de ressignificar os mecanismos de exclusão. Vínhamos de um projeto que apontava quem eram os novos bárbaros, e agora nos parecia importante indagar sobre as dinâmicas específicas de violência contra os bárbaros. Quisemos que fossem extraterrestres para infundir a ideia de que o “outro”, que deve ser destruído, controlado ou marginalizado, em certo sentido, já está previamente inventado. Nega-se o acontecimento do encontro. Algo parecido ao fenômeno da colonização, em que o “outro” se encontra previamente configurado como selvagem na mente dos colonizadores. Para nós, é muito importante que as espectadoras e os espectadores possam “voltar a ver”, da mesma forma que percebeu a companhia durante o processo criativo, um problema presente na nossa sociedade. Por isso, tentamos permitir que o fenômeno fosse percebido com certa distância para que não lhe fosse atribuído sumariamente um sentido que já está incutido na nossa percepção, e que pudesse se abrir uma possibilidade de reconfigurar esse sentido.
Entretanto, usar o mecanismo de estranhamento pode ser complexo, considerando a pergunta que vocês nos fazem. Acreditamos que o estranhamento deve ser uma possibilidade de ressignificação para “nos situar” outra vez. Para nós, é fundamental trabalhar de maneira situada, pensarmo-nos a partir deste lugar, a partir de um contexto político e social específico, do qual somos parte [e], nesse sentido, achamos importante que exista uma particularização histórica.

Temporal: Ainda em Tú amarás, o “outro” aparece sempre pelo olhar do “nós”. Como vocês pensam essa relação entre ambos? Quem é esse “nós” que produz “outridades”?

 Cia. Bonobo: Ao criar as obras, percebemos que a construção e a produção de bárbaros são essenciais para compreender a articulação da lógica social de uma comunidade específica. O bárbaro vai tomar a forma de tudo aquilo que se opõe à cidadania ideal. Colocar a pergunta sobre “xs outrxs” é sempre uma pergunta sobre exclusão, violência e antagonismo. Ou seja, não se pode pensar um grupo marginalizado sem a presença do grupo que o está marginalizando. Tomando essa perspectiva, estivemos vários anos decifrando quem são os que vivem fora da polis, fora da cidade democrática, mas também quem são aqueles que estão no centro. Esse “centro”, num contexto de democracia liberal, se articula de maneira muito complexa. É um grupo que perpetua o status quo ocultando antagonismos, controlando os diálogos com os grupos sociais marginalizados e negando qualquer possibilidade de transformação social mais profunda. É por isso que, nas nossas montagens atuais, foi necessário rasgar a ambiguidade, a complexidade da linguagem pacífica e dialogante das democracias liberais, no caso específico do Chile, um diálogo que exclui qualquer grupo que não aceite as condições fundamentais para dialogar; um diálogo para que as coisas, no fundo, não mudem. Em suma, acreditamos que a preocupação das democracias liberais em torno dxs outrxs sempre é uma válvula de escape para não enfrentar uma transformação mais radical da sociedade. Nossa próxima obra fala justamente de uma particularidade disso: o Chile é o caso de um país com uma lógica social que atualmente produz bárbaros. Ou seja, que transforma até mesmo a vida dos seus cidadãos – do “nós” – em vidas precarizadas e sem direitos, e lhes rouba a cidadania numa luta de poder, transformando-os em bárbaros. Vivem dentro da cidade, mas fora dela. Isso problematizaria mais uma vez a pergunta sobre qual é o projeto social que se busca.

Temporal: Em tempos de pandemia, como vocês veem os desafios e os impasses, mas também as possibilidades para o teatro e para a classe teatral?

Cia. Bonobo: É um momento de evidente suspensão. Talvez nossa maior preocupação seja econômica. O que está ocorrendo em termos de precarização econômica no nosso país, mesmo antes da pandemia, é algo que nos marca cotidianamente. É difícil pensar em saídas que não façam parte dessa dinâmica de precarização. Desse ponto de vista, para nós, é difícil ver uma saída. Contudo, sabemos que é necessário buscá-la. Nesse sentido, estamos com muitas perguntas. Cremos que, justamente por essa razão, é uma boa ocasião para falar abundantemente e nos depararmos de novo com perguntas sobre nosso trabalho que dávamos por inabaláveis.

Temporal: Na página da companhia, vocês ressaltam que há no trabalho de vocês uma inseparabilidade entre o texto, de um lado, e o fenômeno cênico, o processo de criação teatral e as improvisações, do outro. Como vocês pensam a relação entre o texto dramatúrgico e a apresentação teatral? Como veem o papel dos textos teatrais? Acreditam que eles sobrevivem para além do contexto cênico? Como veem a publicação em livro de peças teatrais?

Cia. Bonobo: Achamos que é fundamental. O livro não diminui a produção de sentido da obra. Nós o vemos, na verdade, como uma outra possibilidade de sentido, muito diferente, com relação à montagem. Na companhia, a leitura de livros é fundamental, e muitas vezes nos queixamos de não ter à disposição tantos textos teatrais essenciais e importantes, porque são quase impossíveis de se encontrar em livrarias tradicionais. A cultura do livro, na nossa opinião, é uma forma de vida necessária e indispensável. Não acreditamos que o fenômeno teatral “morra” no livro.

 

* No banner Fotografia do espetáculo Tu amarás. © Marcuse Xaverius