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Desvendando Frank Wedekind

artigo por VINICIUS MARQUES PASTORELLI — Nascido em 24 de julho de 1864 na cidade alemã de Hannover, Frank Wedekind atuou em diversas frentes do campo cultural ao longo de sua vida: foi dramaturgo, encenador, ator, recitador, romancista, poeta, jornalista, produtor de uma companhia de circo e publicitário. Em toda sua obra, nota-se a presença de uma personalidade marcada pela inquietação, tendo produzido uma literatura crítica, satírica e antiburguesa. Pertencendo ao mesmo caldo cultural de onde surgiram os trabalhos de Ibsen, Nietzsche, Strindberg e Hauptmann, Wedekind procurou responder, à sua maneira, às necessidades de renovação cultural e teatral de sua época. Ao fazer uso de diversos procedimentos dramáticos, foi capaz de exercer considerável influência sobre a geração seguinte de escritores, com destaque para os trabalhos de Bertolt Brecht, e até mesmo sobre a psicanálise de Sigmund Freud e Jacques Lacan.

Com O despertar da primavera: uma tragédia infantil, o dramaturgo alemão é o mais novo autor a integrar nosso catálogo, ampliando a publicação de obras fundamentais do campo teatral com mais uma coleção: a de teatro moderno. Nesta quinzena, o Blog da Temporal revela mais sobre esta figura excêntrica e fundamental para a dramaturgia.

A seguir, confira o retrato de Frank Wedekind publicado pelo jornalista Maximilian Harden.[i] A entrevista pingue-pongue, como ficou conhecida a prática de perguntas e respostas rápidas entre interlocutores, é uma cortesia do tradutor Vinicius Marques Pastorelli, que nos revelou, traduzindo ao português, este valoroso conteúdo.

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Entrada de Wedekind no livro de visitas do jornalista

(Traducão de Vinicius Marques Pastorelli)

Qualidade favorita em um homem: temperamento, energia

Qualidade favorita em uma mulher: inteligência

Minha ideia de felicidade: ser utilizado em conformidade às próprias disposições

Habilidade em que se destaca positivamente: mentir

Habilidade em que se destaca negativamente: dizer a verdade

Ciência favorita: religião

Movimento artístico: Michelangelo, Ticiano, Rubens, Makart

Atividades sociais favoritas: as inocuamente divertidas

A mais incurável falta de talento: como pianista

Escritor favorito: Schiller

Compositor favorito: Beethoven

Livro favorito: Casanova

Instrumento musical favorito: quarteto de cordas

Herói literário favorito: Ricardo III

Herói histórico favorito: Alexandre, o Grande

Cor favorita: vermelho

Flor favorita: calla

Pratos favoritos: peixes, aves, salada verde

Bebida favorita: vinho leve local

Nome favorito: Tilly[ii]

Esporte favorito: teatro

Jogo favorito: o que se joga com o mundo

Como você vive: com paixão

Seu temperamento: melancólico

Principal traço de caráter: pertinácia, eu espero

Mote: 2 x 2=4 

 

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[i] Maximilian Harden (1861-1927) tem associado ao seu nome o Escândalo Harden-Eulenberg, também chamado a denúncia da Távola Redonda do Palácio de Liebenberg. Entre 1907 e 1909, sob a suposta influência da ala de Bismarck alijada do governo, o jornalista berlinense publica na revista Die Zukunft artigos lançando dúvidas sobre a reputação do kaiser Wilhelm II para exercer o poder e, logo em seguida, revelando a relação homossexual do príncipe Eulenberg-Herzefeld com o general Cuno von Moltke, ambos próximos ao imperador. O escândalo, com consequências legais, já que a homossexualidade era tipificada como crime no parágrafo 175 do Código Criminal, força o governo a reagir, seja dirimindo as suspeitas, seja desestabilizando-o e forçando-o a se aproximar de uma ala política que levará a Alemanha à Primeira Guerra Mundial.

[ii] A atriz Tilly (1886-1970) foi esposa de Wedekind até o ano de sua morte, em 1918, e protagonizou algumas de suas peças, como A caixa de Pandora e Rei Nicolo.

 


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