- dramaturgia brasileira

Vianinha no CPC: um trecho da primeira experiência teatral para o povo

Com esta cena de "A mais valia vai acabar, seu Edgar", o blog da Temporal traz um trecho do trabalho de Vianna no CPC, desenvolvido anteriormente às peças "Rasga coração", "Papa Highirte" e "A longa noite de Cristal"

Criada por um processo coletivo, A mais valia vai acabar, seu Edgar, de Oduvaldo Vianna Filho, marcou o início da produção teatral do Centro Popular de Cultura, o CPC, e trouxe consigo esperanças: a peça estreou em 1960, permanecendo em cartaz por oito meses, com grandes audiências. Idealizado como uma obra didática, e incorporando elementos da estética brechtiana, bem como do teatro popular urbano nacional, o texto de Vianna traça um caminho de aprendizagem sobre as causas da desigualdade a partir do ponto de vista do trabalhador. O trecho apresentado a seguir poderá aproximar os leitores do trabalho teatral do autor no período anterior ao golpe de 1964, isto é, desenvolvido em um contexto histórico diferente daquele de suas peças já publicadas pela Temporal.

Confira o trecho:

... Desgraçado 4 aparece no palco. Triste. Atrás dele aparece um sujeito. Cobrador. Uma banqueta e um cartaz do lado: “Taxa de suicídio 1º andar ao 5º — Cr$ 50,00; 5º ao 10º andar — Cr$ 100,00; 10º ao 15º andar — Cr$ 500,00; 16º ao 20º andar — Cr$ 1.000,00 — Gorjeta inclusa”. A fila dos figurantes se forma e vai indo. Pagando e saindo voltam outra vez. O movimento é permanente.

D4 Já que não há o que fazer
Se não há onde trabalhar
Se meu braço tem de parar
O melhor, mais bonito é morrer
Fotografia no jornal
Isso é que é!
Discussão no Congresso Nacional
Sensacional!
Muita gente morre, é anormal
Será que a vida faz mal?
O melhor, mais bonito, é morrer...
Dou trabalho pro vigário
Pro agente funerário
Dou trabalho pro coveiro
Dou trabalho pro carpideiro
Fotografia no jornal
Isso é que é! (Entra na fila atrás de uma moça grávida. Atrás dele um sujeito e uma mulher)

Moça (Chora) Ele disse que não tinha nenhum perigo... Que não precisava ter vergonha que criança nasce mesmo com a cegonha... Que só ia dar um beijinho no meu cangote cheiroso. Quero um andar que seja bem seguro.

Cobrador Nunca é muito seguro, seguro, no duro senhora. Às vezes um sujeito, sem peito, desfeito, pula bem bonito – lá de cima... Chega no chão. Fraquinho – ainda sobra um punhadinho – e o cara sai vivinho! Acontece. Do 25º andar, porém, até agora não reclamou ninguém.

Moça Mas eu só posso pagar do 5º...

Cobrador Como a senhora quiser. Nós não podemos fazer por menos com esta morte pela hora da vida como está. (Dá o talão) Boa sorte, madame. Terceira janela da esquerda pra direita.

(Moça sai)

D4 Eu só tenho vinte cruzeiros.

Cobrador Vinte e pulo bem... Pra assustar a família. Se quiser...

D4 Não.

Cobrador Sinto muito mas não há outro jeito... o senhor tem que continuar vivendo. (D4 sai abatido)

Sujeito 13º andar, por favor. Uma janelinha que não bata muito sol. (Cobrador dá o talão. Sujeito abraça a mulher)

Mulher Cuide-se, hein, Pancrácio Acácio.

Sujeito Não se esqueça de ir buscar o seguro, Pancrácia Acácia.

Mulher Se agasalhe bem, Pancrácio Acácio. (A fila acaba. Só o cobrador fica sentado no fundo. De vez em quando faz um anúncio)

Cobrador Aproveite agora – liquidação total pra demolição do prédio! Olha a janela aberta para o céu! (D4 fica na frente. Na rua. Muito triste. Aparece um sujeito. Avental de barbeiro e navalha na mão. Ri muito. Olha o desgraçado 4 e ri mais ainda)

Barbeiro 1 Você é pobre? (D4 faz que sim. Ele ri mais ainda) Já nem usa cueca? (D4 faz que sim. Ele ri mais) Eu vou ficar rico. Rico da Silva! Sabe quanto me custa fazer uma barba? Cincão. Sabe quanto eu cobro? Dezão. (Ri. Barbeiro dois entra. Com uma barba enorme, amarrada no ouvido. A barba sai inteira. Senta. Barbeiro faz a barba cantando)
Fígaro lá dinheiro aqui.
Dinheiro no bolso, sorriso na cara.
Fígaro lá, de qualitá! (Termina a barba)
Dezão!

Barbeiro 2 Isso é um assalto! (Barbeiro 1 começa a amarrar a barba outra vez na cara do Barbeiro 2) Não... eu pago. (Paga. Barbeiro 1 sai rindo. Ao Desgraçado)

Barbeiro 1 Já ganhei cincão. Você é pobre? Você é burro. (Sai. O barbeiro 2 começa a rir. Olha o desgraçado. Ri mais ainda)

Barbeiro 2 Você é pobre? (D4 faz que sim) Peru só viu no cinema? (D4 idem) Eu vou ficar rico! Rico de Souza! Sabe quanto me custa fazer uma barba? Cincão. Sabe quanto eu cobro? Dezão. (Ri. Barbeiro 1 entra com a mesma barba enorme. Senta. Barbeiro 2 faz a barba e canta a mesma canção. A barba é feita com uma navalha enorme. Termina) Dezão!

Barbeiro 1 Isso é um assalto! (Barbeiro 2 começa a colocar a barba na cara do barbeiro 1 de novo) Não... eu pago! (Paga. Barbeiro 2 sai rindo do Desgraçado)

Barbeiro 2 Já ganhei cincão hoje... Você ganhou mais amarelão! (Barbeiro 1 ri de novo. Barbeiro 2 volta com a barba. O mesmo processo. Vai se tornando cada vez mais rápido. Já nem saem de cena. Nem fazem mais comentários. Levantam. Trocam a barba. Cantam. Cada vez mais rápido. Levantam, riem do desgraçado, cantam, tiram a barba, pagam. Terminam só resmungando tudo numa velocidade incrível. Termina) Dezão! (Barbeiro 1 faz a barba)

Barbeiro 1 Dezão! (Barbeiro 2 faz a barba)

Barbeiro 2 Dezão! (Barbeiro 1 faz a barba)

Barbeiro 1 Dezão! (Barbeiro 1 põe a barba, Barbeiro 2 faz)

Barbeiro 2 Dezão! (Cansados. Os dois olham o desgraçado e morrem de rir. Barbeiro 2 tem a barba na cara)

Coro Você pega maleita e a gente conta a receita! (Cansados)

Barbeiro 2 Dezão... mais, mais... só dezão! Mais nenhum tostão!

Barbeiro 1 Eu não tenho um tostão e trabalhei como leão!

Barbeiro 2 Eu tenho dezão, mas preciso fazer a barba, dona Bárbara! (Os dois olham o desgraçado)

Coro Você é o ladrão.

D4 Não.

Coro Devolve o dezão!

D4 Não. (Começam a brigar. Tira a barba. Põe barba)

Coro Quem faz a barba sou eu! Quem faz a barba sou eu! Você é quem está barbudo! Ora, vê-se bem que o barbudo é você! (Cansados. Cantam)
Somos pobres, pobres, pobres,
Nossa vida tem dodói.
Vamos todos nos matar
E ver se no céu não dói.

Uma fila se formou outra vez diante do cobrador. Eles vão para a fila chorando. Desgraçado 4 começou a rir.

D4 Vocês são pobres? Vocês são burros!

Coro Está rindo! É ele o ladrão! Quem ri neste mundo é bobo, está dormindo, se enganou, é criança, rico ou ladrão, pão, pão!

D4 Estou rindo porque descobri uma coisa sozinho da Silva aqui na minha cabeça. Sujo, rasgado, sem cueca, sem ver peru, descobri uma coisa. No começo dessa peça sem graça de desgraça, um homem muito rico, de muito bom bico, disse que ele tinha lucro porque vendia um pouco mais caro o que ele fazia trabalhando como burro chucro! E era mentira. E é mentira. Ele mentiu e fingiu e fugiu. Se ele vendesse um pouquinho mais caro do que é, comprava dos outros um pouquinho mais caro do que é — e tudo acontecia sempre como aconteceu com vocês ganhava vendendo, perdia comprando, ganhava vendendo, perdia comprando, ganhava vendendo, perdia comprando, ganhava vendendo... (Barbeiro 1 dá-lhe um tapa nas costas)

Barbeiro 1 Enguiçou. Obrigado. Mas tem gente que ganha e não perde e tem cueca, peru, não come angu e não tem vontade de descobrir! Eu vou descobrir mais só com a minha cabeça, meus olhos, minha vidinha amarela... Eu descobri, bibi! A gente pode descobrir as coisas atrás do jeitão mentiroso que elas têm, belém bem, bem.

Coro (Compadecidos) Olha, nós damos o nosso dezão... O senhor arranja um andar baixinho mesmo... e arrisca!

D4 Eu não estou louco... só fiquei rouco! Eu não quero me matar – eu descobri! Quem descobre não morre! Vocês me salvaram... eu volto pra salvar vocês. Vou descobrir onde está o lucro. Não é quem trabalha quem tem lucro! Não é quem trabalha quem tem lucro! (Sai correndo. Os barbeiros se entreolham. Não entendem. Começam de novo o mesmo processo. Faz a barba, dezão. Faz a barba, dezão. A fila se desfaz. Cantam)

Coro Não é hora de morrer
Agora é hora de querer.
Não é hora de chorar!
Todos nós vamos pensar.
Não é hora de gritar.
Chegou a hora de lutar.

(Todos saem. Os barbeiros ainda não entenderam. Saem fazendo a barba)

Cobrador (Sozinho) Aquele desgraçado estragou meu negócio... Logo agora que preciso pagar o aluguel de casa, o quinto filho vem aí, ia botar dentadura... Ah mundo, mundo! Como tão pouca gente quer se matar... (Escurece)

 

Trecho extraído de A mais valia vai acabar, seu Edgar e Mundo enterrado (São Paulo: Expressão Popular, 2016)

No banner Montagem da Oficina de Teatro de Rua – Arte e Política, da Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, realizada em março de 2017 em Porto Alegre. Foto de Paula Carvalho.