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Uma cena de “Mãe Coragem e seus filhos”, de Bertolt Brecht

Nesta quinzena, o Blog traz a seus leitores um trecho da peça “Mãe Coragem e seus filhos”, escrita em 1941 pelo poeta, dramaturgo e homem de teatro alemão Bertolt Brecht (1898-1956), com a colaboração de Margarete Seffin (1908-1941). Brecht é uma das personalidades mais comentadas por Jean-Pierre Sarrazac em “Crítica do teatro I: da utopia ao desencanto”, lançado agora pela Temporal

Mãe Coragem e seus filhos tematiza os horrores da Segunda Guerra Mundial e do nazismo, ainda que indiretamente, considerando que a trama se passa durante a série de conflitos europeus conhecida como Guerra dos Trinta Anos (1618-48). A personagem Mãe Coragem é uma vendedora ambulante que acompanha o exército sueco, ofertando produtos de primeira necessidade, e cujo negócio depende da continuidade da mesma guerra que termina, por fim, a levar todos os seus filhos.

Fiel a seu projeto de um teatro crítico e anticapitalista, Brecht lança mão nesta peça, assim como em outros trabalhos, de procedimentos épicos que evitam ou problematizam a catarse dramática. Entre eles, os mais notáveis e presentes neste texto são o uso de placas no início das cenas, que apresentam (às vezes em tom irônico) os acontecimentos seguintes, a utilização de canções, que interrompem a sequência dos fatos para comentá-los, e o interesse menos pelos grandes eventos e ações do que pelas suas consequências para os personagens que dificilmente participariam deles.

Mãe Coragem e seus filhos estreou em 1941 na cidade de Zurique, no teatro Schauspielhaus, sob direção de Leopold Lindtberg e música de Paul Dessau.

No Brasil, a primeira apresentação aconteceu em maio de 1960, no Teatro Cultura Artística, em São Paulo, com tradução de Tatiana Belinky, direção de Alberto D’Aversa e elenco formado por nomes como Lélia Abramo – no papel de Mãe Coragem –, Ruth Escobar, Ubiratan Junior, entre outros.

Leia um trecho da peça a seguir.

 

Cena 6

Diante da cidade de Ingolstadt, na Baviera, Mãe Coragem assiste aos funerais de Tilly, general do império, morto em combate. Fala-se de heróis e da duração da guerra. O capelão lamenta que suas habilidades não sejam aproveitadas, e Kattrin ganha os sapatos vermelhos. Ano: 1632.

(No interior de uma tenda de mascate)

(Vê-se, por trás, um balcão de bebidas. Está chovendo. Ao longe, tambores e música fúnebre.

O Capelão e o Escrevente do Regimento jogam damas. Mãe Coragem e Kattrin fazem um balanço das suas mercadorias)

 

Capelão Já está se pondo a caminho o cortejo fúnebre.

Mãe Coragem Coitado do General!… Vinte e dois pares de meias… Dizem que ele foi morto por azar: caiu um nevoeiro, e foi por isso. O General ainda chamou um Regimento, com ordens de lutar até o último homem; depois voltou atrás, mas, com o nevoeiro, o cavalo perdeu a direção, e ele foi parar bem na linha de frente, no meio da batalha. Levou um tiro… E agora, só quatro lanternas? (Vem do fundo um assobio, e ela vai ao balcão) É uma vergonha, vocês aqui não irem ao enterro do seu General morto! (Serve as bebidas)

Escrevente Não deviam ter pago o pessoal antes do enterro: agora todo mundo está bebendo, em vez de acompanhar o funeral.

Capelão (Ao escrevente) E o senhor também não devia ir?

Escrevente Foi por causa da chuva que eu não fui.

Mãe Coragem O seu caso é bem outro: não queria molhar seu uniforme! Ouvi dizer que iam mandar tocar os sinos, na hora do funeral, mas depois descobriram que as igrejas tinham sido arrasadas por ordens dele; e assim o coitado do General não vai ouvir nenhum sino tocar quando estiver sendo baixado à cova. Em vez dos sinos, estão querendo dar três tiros de canhão, para o enterro não ficar muito sem graça… Só de correias, ele tinha dezessete!

Vozes (Do balcão) Ei, dona, uma pinga!

Mãe Coragem O dinheiro na frente! Também não vão entrar na minha tenda com essas botas cheias de lama! Bebam lá fora, com chuva ou sem chuva! (Ao Escrevente) Aqui só entra gente graduada. Ouvi dizer que o General, ultimamente, andava preocupado; parece que houve motim no Segundo Regimento, porque ele não mandou pagar os soldos, dizendo que esta era uma guerra santa e deviam fazer tudo de graça…

(Marcha fúnebre. Todos olham para o fundo)

Capelão Agora estão desfilando diante do ilustre defunto.

Mãe Coragem Os generais e imperadores me dão pena: esse talvez estivesse pensando que fazia uma coisa extraordinária, que no futuro as pessoas comentariam, e que ele iria ter um monumento: a conquista do mundo, por exemplo, é grande coisa para um general, e ele não deve achar outra melhor. No fim, ele se esfalfa e não dá nada certo, por causa das pessoas ordinárias, que talvez com um copo de cerveja e boa companhia já se deem por muito satisfeitas, sem nenhuma ambição mais elevada. Os mais bonitos planos têm falhado por causa da mesquinharia das pessoas a quem caberia pô-los em prática, e os imperadores não podem fazer nada: ficam na dependência do povo e dos soldados, seja onde for. Tenho razão ou não?

Capelão (Rindo) Mãe Coragem, eu lhe dou toda razão, menos quanto aos soldados: eles fazem o que podem. Nesses dois que estão aí fora, por exemplo, bebendo a sua cachaça na chuva, eu seria capaz de confiar uns cem anos seguidos, fazendo uma guerra depois da outra, e até duas guerras ao mesmo tempo, se necessário fosse: e eu não tenho a formação de um general!

Mãe Coragem O Senhor não estará querendo dizer que a guerra vai acabar?

Capelão Por que o General morreu? Não seja tão infantil! Existem dúzias de outros iguais a ele: herói é o que não falta.

Mãe Coragem Não é à toa que eu estou lhe perguntando: é que eu estou pensando se devo ou não comprar mercadorias, que agora andam baratas… Mas, se essa guerra acabar, talvez eu tenha de pôr tudo fora.

Capelão Sei que a senhora está falando a sério. Há sempre alguns que andam por aí dizendo: “A guerra tem de acabar!”. Mas eu lhe digo: não há nenhum sinal de que essa guerra acabe. Naturalmente é possível que haja uma pequena trégua. Talvez a guerra precise de um descanso, ou talvez possa, por assim dizer, sofrer um acidente: disso não está livre, porque nada é perfeito neste mundo. Uma guerra perfeita, da qual se possa dizer que não há nada mais a acrescentar, talvez não exista nunca: de repente pode ver-se em dificuldades, por algum imprevisto, pois não há homem que possa pensar em tudo. Às vezes é uma coisa insignificante que põe tudo a perder, e depois é preciso fazer tudo para tirar a guerra do atoleiro! Mas os imperadores, reis e papas sempre dão uma ajudazinha à guerra, quando há necessidade; ela, portanto, não deve recear nada de grave, e ainda tem pela frente uma longa vida.

Soldado (Cantando em frente ao balcão)

Aguardente, taberneira,

Que não há tempo a perder:

Um cavaleiro do Imperador

Tem muito que combater!

Um duplo, que hoje é dia de festa!

Mãe Coragem Se eu ao menos pudesse acreditar…

Capelão Pois pense bem: o que é que pode ser contra a guerra?

Soldado (Cantando ao fundo)

Traga as mamas, taberneira,

Que não há tempo a perder:

Na Morávia, um cavaleiro

Tem muito que combater!

Escrevente (De súbito) E a paz, o que vai ser dela? Eu sou lá da Boêmia, e bem que gostaria de voltar para casa.

Capelão Ah, gostaria? Pois é, a paz! Que será dos buracos, depois que o queijo todo for comido?

Soldado (Cantando ao fundo)

Vamos logo, camarada,

Que não há tempo a esbanjar:

Eu sou da cavalaria

É preciso aproveitar!

A bênção, padre, depressa,

Que não há tempo a perder:

Um cavaleiro do Imperador,

Por ele deve morrer!

Escrevente Não se pode viver muito tempo sem paz.

Capelão Eu poderia dizer que na guerra também há paz: a guerra tem os seus pontos pacíficos, e atende a todas as necessidades, inclusive as da paz, para compensar, do contrário ela não se aguentaria. Na guerra a gente pode dar uma cagada, como se fosse na paz mais profunda: e, entre uma batalha e outra, sempre há lugar para uma cervejinha; e, mesmo em plena ofensiva, sempre se pode tirar um cochilo com a cabeça em cima do cotovelo, o que na trincheira não é difícil. Na hora de um assalto não se pode ficar jogando cartas: mas isso ninguém faz também, em plena paz, na hora de trabalhar na lavoura. E, depois da vitória, há uma porção de possibilidades. Você pode ficar sem uma perna e começar a fazer muito escândalo, como se fosse uma coisa extraordinária; depois você se acalma, ou lhe dão um pileque e aí você se vê pulando novamente, e a guerra nada perde, nem antes nem depois. E quem vai impedir você de procriar, no meio da maior carnificina, atrás de um paiol ou em qualquer outro lugar, sem precisar esperar tanto tempo? Depois a guerra pega os seus filhotes e pode começar tudo outra vez. A guerra tem sempre uma solução, não seja por isso! E, sendo assim, por que haveria de acabar?

(Kattrin parou o que estava fazendo, e olha fixamente o Capelão)

Mãe Coragem Então vou comprar as mercadorias. Confio no senhor. (Kattrin atira de repente ao chão um cesto de garrafas e sai correndo) Kattrin! (Ri). Ai, meu Jesus, ela vive esperando pela paz! Eu disse que, quando vier a paz, ela vai ter um homem! (Sai correndo atrás de Kattrin)

Escrevente (Pondo-se de pé) Ganhei, enquanto o senhor conversava: pode ir pagando!

Mãe Coragem (Voltando com Kattrin) Tome juízo! A guerra ainda vai continuar por algum tempo, e nós ainda podemos ganhar algum dinheiro: depois a paz vai ser ainda mais bonita! Você vai à cidade, a menos de dez minutos daqui, e apanha as coisas no Leão de Ouro, só as de mais valor; as outras nós vamos buscar mais tarde com a carroça. Já está tudo combinado: o senhor Escrevente vai com você, fazendo companhia. A maior parte do pessoal está no enterro do General: com você, nada pode acontecer. Vá direitinho, e não se deixe roubar: pense no seu enxoval!

(Kattrin amarra um lenço na cabeça e sai com o Escrevente)

Capelão Entrega a sua filha assim ao Escrevente?

Mãe Coragem Ela não é tão bonita assim para estragar a carreira de um homem.

Capelão O jeito de a senhora tratar dos seus negócios e ir sempre em frente é uma coisa que eu admiro muito: entendo muito bem por que lhe deram o apelido de Coragem.

Mãe Coragem Quem é pobre, precisa ter coragem, senão está perdido. Até para sair da cama cedo, e aguentar o rojão! Para lavrar um alqueire de terra, em plena guerra! E ainda pôr mais crianças no mundo, é prova de coragem: porque não há nenhuma perspectiva. Os pobres têm de ser carrascos uns dos outros, e se matarem reciprocamente, para depois se olharem cara a cara: então precisam ter muita coragem. Suportar um imperador e um papa é sinal de uma coragem tremenda, e isso custa a própria vida deles! (Senta-se, tira do bolso um pequeno cachimbo, e começa a fumar) O senhor bem que podia rachar um pouquinho de lenha…

Capelão (Despe contrafeito a jaqueta e prepara-se para rachar lenha) Eu, na verdade, sou pastor de almas, não sou lenhador.

Mãe Coragem Alma eu não tenho; mas a lenha me faz falta.

 

*

Trecho extraído de Bertolt Brecht, Mãe Coragem e seus filhos. In. Teatro completo: em 12 volumes. Tradução de Geir Campos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.

No banner: frame do longa-metragem Mother Courage and her Children, de 1961, dirigido por Manfred Wekwerth e Peter Palitzsch.


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