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Um trecho do humor de Albee: conheça "Três mulheres altas"

Para encerrar o ano, nosso blog traz aos leitores e leitoras uma passagem da peça “Três mulheres altas” escrita no início dos anos 1990 pelo dramaturgo estadunidense Edward Albee (1928–2016) e lançada em 1994

Desde a escrita de sua primeira obra, A história do jardim zoológico (1959), a dramaturgia de Albee procurou tematizar de diversas maneiras, e sempre em chave crítica, a ideologia do puritanismo e do já célebre “sonho americano”, em referência à sociedade estadunidense. Numa tônica parecida, a peça a que o trecho selecionado a seguir pertence é, ademais, autobiográfica, pois sua única personagem – que se desdobra em três mulheres de idades distintas, nomeadas pelo dramaturgo apenas A, B e C – é baseada na mãe adotiva do autor, com quem mantinha relações bastante hostis.

Três mulheres altas recebeu o Pulitzer de Melhor Drama no ano de sua estreia (1994), assim como foi aclamada pela crítica quando teve o espetáculo montado pela primeira vez no Brasil, em 1995, com atuações de Beatriz Segall, Natália Thimberg e Marisa Orth, recebendo os prêmios APCA e Mambembe. De volta às prateleiras do país desde abril de 2020, a dramaturgia deste importante autor vale a pena ser conhecida por seu humor ácido e desconcertante.

 

C Você usa toda a sua renda, tanto quanto eu posso ver.

A Bem, por que não? É minha.

C Bem, então não reclame. Se você quer um aumento nos seus investimentos, você precisaria…

A Eu não reclamo, eu nunca reclamei. Eu tenho você, e eu tenho ela (Aponta para B), e eu tenho o motorista, e eu tenho este lugar aqui, e eu tenho que parecer bonita, e às vezes eu tenho as enfermeiras — embora sejam negras. Por que isso? — e eu tenho todas essas coisas… eu tenho a cozinheira, eu tenho a…

C Eu sei, eu sei.

A Todos roubam; todos eles.

B (Depois de uma pausa; um suspiro) Tudo bem.

A Ela não ficava de olho; não como eu ficava. Eu me casei com ele. Ele era baixo; ele tinha um olho; um olho de vidro; uma bola de golfe o acertou; eles tiraram o olho; ele tinha um olho de vidro.

C Que olho?

B (Para C, em tom de reprimenda) Ora, por favor!

C (Divertindo-se) Não, eu quero saber. (Para A) Que olho? Que olho era o de vidro?

A Que olho…? Bem, eu não… (Fica chorosa) … não consigo me lembrar! Não sei qual era o olho de vidro! (Chora) Eu... não... consigo... me lembrar... Não consigo!

B (Aproxima-se de A, para confortá-la) Calma, calma, calma, calma…

A Não consigo me lembrar! (Súbito veneno) Tire suas mãos de mim! Como ousa?

B (Recuando) Desculpe, desculpe.

A (Para B mais uma vez chorosa) Por que não me lembro de nada?

B Acho que você se lembra de tudo; acho apenas que você não consegue recobrar essas coisas o tempo todo.

A (Acalmando-se) É? É isso?

B É claro!

A Eu me lembro de tudo?

B Em algum lugar aí dentro.

A (Ri) Minha linda! (Para C) Eu me lembro de tudo!

C Minha linda. Deve ser um peso.

B Seja gentil.

C A salvação não está no esquecimento? Lete, essas coisas?

A Quem?

B Ninguém.

C Lete.

A Não a conheço. Bom, talvez a conheça, apenas agora não me recordo. (Para B) Não é isso?

B É isso.

A Eu amava meu marido. (Boba, sorriso de lembrança)

B Aposto que sim.

A Ele me dava coisas lindas; ele me dava joias.

B Lindas, as joias.

A “Meu Deus”, ele dizia, “você é tão grande, tão alta, você vai me custar uma fortuna! Não posso lhe dar coisinhas.” E ele não podia. Gostava mais de pérolas e diamantes.

C Não brinca!

B (Divertindo-se) Xiu!

A Eu tinha minhas pérolas, e tinha alguns braceletes, e ele queria me dar outro — ele tinha comprado outro sem me dizer. Usávamos braceletes grandes naquela época — grandes, deste tamanho. (Ela demonstra: aproximadamente duas polegadas) Achatados e grandes, as pedras lapidadas, muito… o quê? Muito o quê?

B Ornados.

A Sim, ornados… e grandes. Tínhamos saído — eu nunca vou me esquecer disso, nunca vou me esquecer—, tínhamos ido a uma festa, e havia champanhe, e nós estávamos... o quê? Bêbados? Um pouco, eu suponho. E nós fomos para casa e estávamos indo para a cama. Tínhamos aquele quarto imenso, e ele tinha closets separados e — sabe? — os banheiros separados —, e nós tínhamos nos despido; e estávamos nos preparando para dormir. Eu estava no meu toucador, e tinha tirado minhas roupas — meus sapatos, meu vestido, minhas roupas de baixo — e estava sentada no meu toucador... (Ela realmente gosta de contar isso: dá risadinhas e risadas etc.) ... e eu estava... bem, eu estava nua. Não tinha uma peça de roupa, apenas as joias todas. Eu não tinha tirado as joias.

B Que lindo!

A Sim! E lá eu estava, nua com as minhas pérolas — meu colar — e meus braceletes, meus braceletes de diamantes... dois, não; três! Três! E ele entrou, nu como um passarinho — ele era engraçado quando queria ser —, nós ficamos muito nus, mais cedo, bem mais cedo. Tudo isso parou. (Pausa) Onde eu estou?

B Na sua história?

A O quê?

B Na sua história. Onde você estava na sua história?

A Sim; é claro.

C Você está nua no toucador, e ele entra, e ele está nu também.

A … como um passarinho, sim! Ah, eu não devia contar isso!

B Não, continue!

C Sim, continue!

A Continuo? Ah... bem, lá eu estava, e tinha uma almofadinha de talco enorme, e estava me polvilhando, e estava prestando atenção nisso. Eu sabia que ele estava lá, mas eu não estava dando atenção. “Tenho uma coisa para você”, ele disse, “tenho uma coisa para você”. Eu estava sentada lá, e tinha erguido meus olhos e olhado para o espelho e... não, não posso contar isso!

B & C (Como adolescentes) Conte, conte! (Ad lib.)

A Eu olhei e lá ele estava, e o... piu-piu dele estava duro e... balançando nele estava o meu bracelete novo.

C (Espanto) Ai, meu Deus!

(B sorri)

A E ele estava no piu-piu dele, e ele se aproximou e era o bracelete mais lindo que eu já tinha visto; de diamantes, enorme, tão grande e… “Achei que você ia gostar”, ele disse. “Oh, meu Deus, mas é tão lindo”, eu disse. “Você quer?”, ele perguntou. “Sim, sim!”, eu disse, “Oh, meu Deus, sim!”. (O humor varia um pouco ao sombrio) E ele se aproximou, e o piu-piu dele tocou meu ombro — ele era baixo, e eu era alta, ou coisa que o valha. “Você quer?”, ele perguntou, e ele me cutucou com ele, com o piu-piu, e eu me virei, e o piu-piu dele era pequeno, ai, não devia dizer isso, que coisa terrível de dizer, mas eu sei. Ele tinha um... vocês sabem... pequeno, e o bracelete estava nele, e ele se aproximava do meu rosto, e “Você quer? Achei que talvez você quisesse”. E eu disse, “Não! Não posso fazer isso! Você sabe que eu não posso fazer isso!”. E eu não podia; nunca fui capaz, e eu disse, “Não, não posso fazer isso!”. E ele ficou ali por... bem, eu não sei... e o piu-piu dele ficou... bem, começou a ficar mole, e o bracelete caiu, e caiu no meu colo. Eu estava nua; bem no meu colo. “Fique com ele”, ele disse, e ele se virou e saiu do meu closet.

(Longo silêncio; finalmente ela dorme, lenta e conclusivamente)

 

Fonte Edward Albee, Três mulheres altas. 1ª ed. Tradução de Bruno Gambarotto. São Paulo: Grua Livros, 2020, pp. 66-74

No banner ilustração de Sara Andreasson publicada na revista The New Yorker em 9 de abril de 2018 por ocasião da estreia da peça nos Estados Unidos