- dramaturgia internacional, teatro

Trecho de "O presidente", obra de Thomas Bernhard

Fevereiro é mês de celebrar Thomas Bernhard, nascido há mais de nove décadas, no ano de 1931. Crítico ávido de seu país, da cultura e da política austríacas, Bernhard tornou-se um autor fundamental para pensar tanto o século XX quanto o presente. Em sua obra, que inclui contos, romances e dramaturgias, Bernhard abordou temas como nacionalismo e antissemitismo na Áustria moderna. Para o autor, as críticas e o olhar reflexivo deveriam ser mantidos vivos também nos palcos e na literatura

No catálogo da Temporal, Bernhard assina Praça dos Heróis, peça de 1988, escrita um ano antes de sua morte, e lançada pela editora em 2020. No mesmo ano, a Editora da UFPR presenteou o público com mais uma peça inédita do autor em português brasileiro: O presidente, de 1975.

Nesta sátira sobre a sociedade e os jogos de poder, o dramaturgo insere os leitores nos bastidores da vida oficial de um presidente, de sua amante, de uma primeira-dama altiva e de seu capelão conselheiro. Nas palavras da tradutora e prefaciadora da edição, Ruth Bohunovsky, “Embora Bernhard nunca tenha sido um autor politicamente engajado no sentido mais estrito, esta é considerada a sua peça teatral mais política. O presidente trata do mundo dos poderosos, dos políticos e seu cinismo em relação ao povo, e do abismo social que marca a relação entre o governo e os governados”.

 A seguir, confira um trecho da peça selecionado por nossa equipe e descubra mais sobre a obra de Thomas Bernhard.

*

Cena 1

[...]

 

Presidente

A política

é a arte mais alta minha filha

ela é mais alta que todas as outras artes juntas

as pessoas não veem

mas elas não para de mudar o mundo

Logo depois vem a arte da encenação

 

Atriz

E depois

 

Presidente

Depois vem a pintura

Rembrandt

Rubens

Delacroix

 

Atriz

E depois

 

Presidente

A poesia minha filha

a poesia

E a música

a música minha filha

Mas eu não tenho

competência nenhuma

para as artes

No meu caso

a melhor e maior arte

é a arte política

César

Napoleão

Metternich minha filha

(levanta o copo)

Metternich

a Metternich

(a atriz levanta o copo)

A Matternich

(bebem)

É preciso

ser prático e teórico minha filha

sempre e ao mesmo tempo

No meu caso

eu sem nenhuma dúvida deveria pertencer

a outra época

a um tempo

em que eu pudesse ter realizado

aquilo ao qual eu era destinado

no nosso tempo eu não consigo realizar

o que está na minha cabeça

 

Atriz

Você é um ditador

 

Presidente

Um ditador

um ditador

O país é muito pequeno pra mim

a nação é muito pequena pra mim

tudo é muito estreito e pequeno pra mim

e assim um potencial como o meu não sai do lugar

Tudo na minha cabeça

se atrofia

 

Atriz

Ditador

 

Presidente

Esse país não merece alguém como meu marido

minha esposa disse

para o embaixador mexicano

Eu gostaria de ter

nascido em outro país

e ter me tornado presidente de outro país

(bebe)

Mas agora

de repente

Os anarquistas minha filha

Ficar alerta

Eu corro risco de vida

todos correm risco de vida

 

Atriz

Risco de vida

 

Presidente

Porque eu soltei

as rédeas

A igreja

Os padres

A ralé

A gentalha minha filha

Por pouco o coronel não se salva

e eu sou a vítima

Muitas tentativas minha filha

de me eliminar

Mas antes de me eliminarem

muitos dos anarquistas também serão eliminados

Eliminados

eliminados

(seca o copo, se serve novamente)

A sociedade está literalmente gritando

para que um homem assim

ponha ordem

Ordem minha filha ordem

isso é tudo

nada além de ordem minha filha

dessa desordem descomunal

que está se propagando

e envenenando tudo

envenenando tudo

Pôr ordem

Por outro lado

Somos felizes

(beija-a no rosto)

de termos sossego agora

Aqui temos sossego

A costa atlântica

e a brisa da costa atlântica

(de repente)

Eles ainda não pegaram os terroristas

Que tipo de polícia é essa

 

Atriz

Cada vez mais atos terroristas

 

Presidente (em tom de pergunta)

Você está entendendo minha filha

isso é uma fatalidade

Que tipo de ministro do Interior é esse

E se os terroristas não forem presos até amanhã de manhã

presos minha filha presos

vou mandar trocar o ministro do Interior e o comandante da polícia

mandar trocar

trocar

 

Atriz

Trocar

 

Presidente

Trocar

trocar o governo inteiro

Outro governo

um governo novo

levanta o copo

(sugere que a Atriz levante o copo

ambos levantam o copo)

Por um fio minha filha

e eu não estaria agora em Estoril

O atentado é o motivo

pelo qual estou aqui

Você entrou em estado de choque

minha esposa disse

vá para Estoril

ela disse

E ela só disse isso

para que eu fosse embora

para que ela própria pudesse ir pras montanhas

com o açougueiro dela

Ou ela vai com o Capelão pras montanhas

Com o açougueiro

ou com o Capelão

mas pra mim tanto faz com quem ela vai pras montanhas

o importante é que estou com você em Estoril minha filha

(bebe)

Dois mil policiais apenas para proteger

a minha pessoa

E você minha filha

minha filha atriz

com o passaporte diplomático

e com a proteção explícita do Presidente

Depois de amanhã vamos para Sintra

com todas as pompas

vamos nos maravilhar

O jeito como eu dei um sermão

no garçom em Sintra no ano passado

um sermão

primeiro em francês

o que ele não entendeu

então em inglês

o que ele também não entendeu

por fim em português

De noite dormimos

minha mulher e eu

separados

há vinte anos

não deitamos juntos na mesma cama

ela pensa no açougueiro dela

às vezes no açougueiro

às vezes no Capelão

os dois passam pela cabeça dela de noite

e não se deixam fundir na cabeça dela

mas ela não pode ficar louca

nessas condições

E se alguma vez ela está comigo

na verdade está com o açougueiro

ou com o Capelão

Isso explica por que ela está cada vez mais nervosa

E os maus modos

com a criadagem

Ambição

Ódio

Medo

mais nada

Nos últimos tempos o cachorro também

estava alterado

então quando não suportava mais pensar

no açougueiro e no Capelão

ela fugia para o cachorro

então ela dizia dos dois amantes

do amante espiritual e do amante físico

o cachorro era tudo pra ela

Nessa idade minha filha

é um jogo perigoso com a perversão

mais ainda numa pessoa como a minha mulher

Agora tiraram o cachorro dela

Eu sempre

odiei aquele animal inútil

eu odeio vida inútil

Também não sou um entusiasta de animais

nem entusiasta de pessoas nem entusiasta de animais

Esses corpos animais

que já desaprenderam a latir

e ficam espalhados por aí apenas como objetos decorativos

que precisam ser alimentados

para nada

(grita)

O cachorro teve um ataque

Um ataque cardíaco

quando o primeiro tiro contra mim

acertou o coronel

que morreu na hora

e ele teve um ataque cardíaco

Duas vítimas inocentes

o coronel e o cachorro

(grita)

Ela correu para o Instituto Médico Legal

por causa do cachorro

nem notou o coronel

que estava do lado do cachorro

na mesa de dissecação

Aquele cheiro nojento

que sempre vinha do cachorro

O quarto está empestado de cheiro de cachorro

o palácio inteiro

do cheiro do cachorro

Esse mau cheiro

Pequeno e inútil

sem pedigree

essa raça nojenta

Tirada do canil

e levada ao palácio no carro presidencial

e durante dias durante semanas durante meses só o cachorro

O pessoal da cozinha foi importunado

para aprender a fazer a ração do cachorro

Um cachorro achado na rua minha filha

um cachorro achado na rua

reinando no palácio presidencial

Infernizando a vida do marido

mas mimando o cachorro

Não se abalou

com a morte do coronel

que todos nós vamos morrer é claro

mas o cachorro

Ela foi para o enterro do coronel a contragosto

na cabeça dela só estava a solenidade

do enterro do cachorro

cremar

ou enterrar

problema dela

Consciente

de ser deixada sozinha sob qualquer circunstância

com o tempo

ela foi se entregando totalmente

ao cachorro e ao dinheiro

E o Capelão ajudou

com uma filosofia absurda

Ele sempre sente necessidade

de falar dos seres vivos inocentes

da grandeza da mente e da tragédia

e ela fica repetindo o que ele fala

não entende nada do que ele diz

mas fica repetindo

o Capelão diz que o cachorro é uma vida inocente

ela repete

o Capelão diz que todos os homens são iguais

ela repete

o Capelão diz o termo grandeza da mente

ela repete

tudo que ele diz sobre o socialismo

ela repete

o que ele diz sobre religião

sobre filosofia

ciência

[...]

*

Trecho extraído de Thomas Bernhard, O presidente. Tradução de Ruth Bohunovski, Gisele Pacheco Eberspacher e Paulo Rogério Junior. Curitiba: Editora da UFPR, 2021, pp. 140-50.

 

No banner: Thomas Bernhard e Claus Peymann na polêmica estreia de Praça dos Heróis em 1988.


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