- teatro, dramaturgia internacional

O teatro documental de Peter Weiss em um trecho de Marat/Sade

Nesta quinzena, trazemos para o Blog um trecho da peça "Perseguição e assassinato de Jean-Paul Marat representados pelo grupo teatral do hospício de Charenton sob a direção do senhor de Sade", escrita a partir de 1963 pelo dramaturgo alemão Peter Weiss e estreada no ano seguinte em Berlim Ocidental

A peça, que ficou mais conhecida como Marat/Sade, foi concebida como um teatro dentro do teatro, e narra uma apresentação teatral sobre a vida do líder jacobino Jean-Paul Marat dirigida pelo marquês de Sade durante seu tempo de internação no hospício de Charenton, no auge do Império Napoleônico.

Em meio a outros personagens que compõem, no conjunto, um microcosmo da sociedade legada pela Revolução Francesa, os dois personagens principais travam, nas palavras do autor, um “conflito entre o individualismo levado ao extremo e o pensamento de uma revolta política e social”. Trata-se de um teatro documental em que a objetividade do “documento” é, porém, desmontada por meio de procedimentos oriundos do teatro épico de Brecht, entretecida de elementos ficcionais e menos interessada na “fidelidade histórica” do que na intervenção social.

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A liturgia de Marat

(A cortina diante do estrado é aberta rapidamente pelas Irmãs. Os Pacientes aparecem dispostos como para um coral)

Marat Muito tempo se disse
que os monarcas eram bons pais
sob cuja guarda vivíamos pacíficos
E seus feitos nos foram pintados
pelos poetas subornados
Devotos os inocentes pais de família
ensinavam a lição a seus filhos 

Coro (Acompanhando o monólogo de Marat.)
Os monarcas são bons pais
sob cuja guarda vivemos pacíficos
Os monarcas são bons pais
sob cuja guarda vivemos pacíficos...

Marat E as crianças repetiam a lição e acreditavam
assim como acreditamos em tudo
que nos é sempre repetido
E assim ouvíamos dizer também os padres 

(Acompanhado pelo Coro)

Em nossa compaixão acolhemos a toda gente
do mesmo modo
não somos submissos nem a países nem a governos
somos todos unidos num povo de irmãos

(Torna a falar só)

E os padres contemplavam as injustiças
e a elas silenciavam dizendo

(Acompanhado pelo Coro)

Nosso reino não é deste mundo
esta terra é apenas o local da peregrinação
e nosso é o espírito da paz e da paciência

(Torna a falar só)

E assim forçaram os sem recursos
a doarem seu último vintém
e se arrumavam confortáveis entre os seus tesouros
e se banqueteavam e bebiam com os príncipes
dizendo aos famintos

(Acompanhado pelo Coro)

Sofrei
Sofrei como aquele que está na cruz
pois é esse o desejo de Deus

(Aparece um grupo de mimos. Os Pacientes e os Quatro Cantores avançam para a frente. Pelas vestimentas são indicados dignitários da Igreja. Cucurucu carrega uma cruz feita de vassouras e puxa Polpoch atrás de si, com uma corda amarrada em volta do pescoço deste. Kokol balança um balde como se fosse um incensório. Rossignol maneja as contas de um rosário. Continuando a falar só)

E aquilo que nos é sempre repetido
é nisso que nós acreditamos
Assim os necessitados satisfaziam-se com o quadro
do sangrento do martirizado do pregado
e rezavam junto ao quadro de sua inocuidade
e os sacerdotes diziam

(Acompanhado pelo Coro. As litanias das Irmãs começam a seguir)

Elevai as mãos para o céu
E suportai silenciosos o sofrimento
E rezai por vossos perseguidores
pois que as rezas e as bênçãos são vossas únicas armas
pelas quais conquistareis o paraíso

(Torna a falar só)

E assim os conservaram à distância em sua ingenuidade
para que não se rebelassem contra seus senhores
que os regiam sob a aparência de emissários divinos 

Coro Amém

Coulmier (Levantando-se e falando antes que termine o “Amém”)
Senhor de Sade
devo protestar contra essa atitude
Nós combinamos alguma moderação
A peça é intolerável se considerarmos
que nosso Imperador cerca-se de magistrados da Igreja
Sempre e sempre ficou demonstrado
quanto o povo necessita do consolo sacerdotal
É inteiramente errado falar de uma sujeição
Pelo contrário tudo que se faz para minorar a necessidade
com coletas de roupas amparo aos doentes e distribuição de sopas
e todos nós aqui não estamos sujeitos apenas à piedade
do governo temporal
necessitamos antes da benevolência e da compreensão
de nossos pais espirituais

Anunciador (Ergue o bastão)
Se alguém no público sentir-se atingido
pedimos que retenha a sua cólera
com o amável pensamento de que
estamos lançando um olhar sobre o passado
no qual tudo era diferente de hoje
Naturalmente hoje somos tementes de Deus

(Faz o sinal-da-cruz)

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Incidente lamentável

(Nos fundos, um Paciente com capucho sacerdotal sofre um ataque e pula para a frente, sobre os joelhos)

Paciente (Possesso e gaguejando)
Rezai rezai
rezai diante dele
Satã tu que estás no inferno
venha a nós o vosso reino
seja feita a vossa vontade
assim na terra como no inferno
e perdoai a inocência
e livrai-nos do bem
e deixai
deixai-nos cair em tentação
pela eternidade
Amém

(Coulmier levantou-se de um salto. Enfermeiros lançam-se sobre o Paciente, amarram-no e carregam-no para os fundos, onde o colocam sob uma ducha)

Anunciador (Gira o reco-reco)
Tais incidentes são impossíveis de evitar
entre nós pertencem ao quadro dos sofrimentos
Pensai piedosamente no fato de ter sido aquele
a quem vistes levado para recobrar os sentidos
outrora conhecido pregador
e dirigente de famoso convento
Que isso vos sirva de exemplo
da imprevisibilidade dos mundos celestial e terreno

(Gira o reco-reco terminando a fala. Coulmier senta-se. Os Pacientes voltam para trás e esticam-se sobre os bancos, sob a vigilância de Irmãs e Enfermeiros.)

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Continuação da conversa entre Marat e Sade

Sade E para determinar o que é certo e errado
devemos conhecer-nos
Eu
não me conheço
Quando penso ter encontrado alguma coisa
já duvido dela
e tenho de destruí-1a
o que fazemos é um sonho
daquilo que queremos fazer
e nunca se encontrarão outras verdades
senão as mutáveis verdades da própria experiência
Eu não sei
sou o carrasco ou o martirizado
Imagino as mais terríveis torturas
e quando as descrevo a mim mesmo
sofro-as eu mesmo
Sou capaz de tudo e tudo enche-me de temor

(Marat tenta lembrar sua réplica

Anunciador (Como se fosse ponto de teatro)
Oh esse coçar

Marat Oh esse coçar esse coçar

(Hesita)

Anunciador (Sussurra)
A febre 

Marat A febre deixa-me a cabeça tonta
Minha pele queima e se rasga
Simonne
Simonne mergulha o pano na água com vinagre
resfria minha cabeça 

(Simonne, rapidamente, movimenta-se e desempenha suas funções)

Sade Eu sei
que agora tu darias toda a tua fama e todo o amor do povo
por alguns dias de saúde
Deitas-te em tua banheira
como na água rósea das parteiras
Encolhido nadas só com o pensamento
do mundo como o enxergas
que já não se adapta aos acontecimentos lá fora
Querias imprensar-te na verdade
e foi ela quem te imprensou a um canto
Eu
já deixei de preocupar-me com ela
minha vida é a imaginação
A Revolução
já não me interessa

Marat É falso Sade é falso
com a imobilidade do pensamento
nenhum muro pode ser rompido
Com a pena não poderás derrubar a ordem
Por mais que nos esforcemos a entender o que é novo
o que é novo só aparece
entre as manipulações desajeitadas
Tão envenenados estamos com o curso do pensamento
transmitido de geração a geração
que até mesmo os melhores de nós
ainda não sabem como proceder
Somos os inventores da Revolução
mas ainda não podemos manejá-la
Nos conventos ainda estão solitários
cada um possuído por sua cobiça
e cada um querendo herdar alguma coisa do passado
Este quer um belo quadro
e aquele a sua amante
este quer seus moinhos
aquele seus estaleiros
este quer seu exército
aquele seu rei
E eis-nos ai de novo
dependurados nos direitos humanos burgueses
no direito sagrado do enriquecimento
já ouvimos o que advirá de tudo isso
Agora cada um deve lutar na liberdade e na igualdade
irmamente e com armas semelhantes
cada um como se fosse seu próprio Creso
O homem contra o homem o grupo contra o grupo
num saque mutuamente cambiante

(Pacientes vão erguendo-se, um atrás do outro. Alguns adiantam-se. Os Quatro Cantores preparam-se para intervir na ação)

E veem um florescer diante de si
um florescer do comércio um florescer da indústria
um progresso singular
Enquanto estamos mais longe do que nunca
distanciados de nossa meta
aos olhos dos outros

(Aponta a plateia, num gesto circular)

 a Revolução já está ganha

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Reação do povo

Os quatro cantores (Com um acompanhamento musical.)
E onde conseguem o cascalho
onde conseguem as travessas
onde conseguem as relações
onde conseguem a iniciativa
se nós só conseguimos buracos

Kokol Para morar

Polpoch Na barriga

Rossignol E nas roupas

Os quatro cantores e o Coro Marat
o que aconteceu com nossa Revolução
Marat
não queremos mais esperar até amanhã
Marat
continuamos sempre gente pobre
e queremos hoje as mudanças prometidas

Anunciador (Adianta-se, balançando o bastão; fim da música; os Quatro Cantores e o Coro voltam para trás)
Respeitável público a vós solicitamos
pensar que o povo sempre torna à desgraça
de modo tolo e sem pensar
já que nada entende da situação
Ao invés de demonstrar impaciência tão irrefletida
nesses tempos difíceis seria melhor que calasse
trabalhando e confiando naqueles
que reconstroem com seu próprio esforço
Assim como vós senhoras e senhores
gostamos de semear a união
que facilmente tornar-se-á realidade
e que hoje estamos quase alcançando

(Duperret e as Irmãs ocupam-se com Corday, que não quer acordar. Alçam-na, amparam-na e tentam colocá-la em movimento)

No banner Cena da montagem brasileira de 2014 dirigida por Simoni Boer. Foto: Osmar Lucas.

Trecho extraído de Perseguição e assassinato de Jean-Paul Marat representados pelo grupo teatral do hospício de Charenton sob a direção do senhor de Sade. Tradução de João Marschner. São Paulo: Peixoto Neto, 2004.


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