- história do teatro

Dramaturgia em foco: por que ler dramaturgia?

No cenário da leitura no Brasil, o gênero teatral muitas vezes figura como coadjuvante. Quais são suas características? Seus principais expoentes? Por que começar a ler dramaturgia? Convidando-nos ao universo da literatura teatral, este texto ensaia algumas respostas a essas perguntas.

Literatura, teatro e dramaturgia

Para ler literatura, precisamos somente ter acesso a um livro, pois não há nada que limite ou condicione a hora, o lugar e o ritmo que se escolhe para a atividade da leitura. Isso não acontece ao apreciarmos o teatro, já que esta arte só pode existir quando um grupo de atores e espectadores se reúne para viver uma experiência em comum. Um livro ficcional estimula a imaginação e, consequentemente, a introspecção e o isolamento, ao passo que uma peça de teatro nos coloca em proximidade física, corporal, com outras pessoas, com quem compartilhamos afetos. Enquanto a literatura nos lança a universos longínquos, às vezes no passado ou no futuro, convidando-nos a nos transportar para outros tempos – e outros lugares –, o teatro nos chama ao presente, ao aqui e ao agora.

Apesar dessas distinções, a literatura e o teatro se reencontram na dramaturgia. A dramaturgia é a parte do teatro que é também literatura e que, como essa, convida ao recolhimento individual. Ela pode ser apreciada independentemente de qualquer apresentação teatral e, ao mesmo tempo, abre um feixe de possibilidades interpretativas em relação à direção, à atuação, à cenografia, à sonoplastia etc. As chamadas rubricas são, geralmente, os marcadores desses procedimentos ao longo do texto, mas a interpretação teatral não se limita a elas, levando também em conta outros conhecimentos e intuições. Paralelamente a isso também figuram, sobretudo nos últimos quarenta anos, outros tipos de teatro não dramatúrgicos, isto é, que carecem de textos literários ou, ainda, não lhe conferem peso maior do que o dos elementos sonoros, visuais e gestuais.

Dramaturgia e drama

O drama possui um sentido ao mesmo tempo mais amplo e mais restrito do que a dramaturgia. Mais amplo, porque determina não apenas aspectos literários, mas também visuais, gestuais e sonoros, ainda que estes se subordinem àqueles; e mais restrito, por designar apenas um dentre os diversos tipos de teatro: aquele que dispõe personagens em conflito, que agem diretamente e interpelam-se mutuamente em torno de um acontecimento importante, de tal modo que o destino dessas figuras dependa exclusivamente do conjunto de seus atos. É raro encontrarmos na literatura teatral peças que apresentam rigorosamente essas características. No entanto, houve um período em que muitos dramaturgos, como é o caso do inglês George Lillo (1691-1739) e do alemão Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781), se aproximavam bastante delas. Baseado na ideia de indivíduos livres, capazes de intervir no próprio destino, esse teatro aflorava, não por acaso, no século XVIII, período marcado pela ascensão da burguesia europeia e por sua emancipação econômica e política frente à nobreza.

Entretanto, com o posterior desenvolvimento do capitalismo monopolista, a urbanização, o crescimento da burocracia estatal e os demais processos sociais de modernização, os atos e acontecimentos que determinavam a vida desses indivíduos e definiam seu destino estavam cada vez mais distantes e inacessíveis a eles, levando-os a perder quase completamente o poder de intervenção que antes tinham sobre o mundo à sua volta, ainda que esse poder fosse bastante limitado. Devido a essas transformações, o drama tornou-se insuficiente para as necessidades artísticas e expressivas dos tempos que se anunciavam.

Dramaturgias no século XX e XXI

A partir do final do século XIX e início do século XX, diante do contexto da segunda Revolução Industrial, da Primeira Guerra Mundial e do surgimento das vanguardas europeias, grande parte dos dramaturgos passou a adotar temáticas e procedimentos formais não dramáticos, muitos dos quais tomados de empréstimo aos gêneros narrativos e com isso, baixaram a temperatura do conflito dramático em suas peças. Essa tendência se verificou em autores como Henrik Ibsen (1828-1906), August Strindberg (1849-1912), Anton Tchekhov (1860-1904) Gerhart Hauptmann (1862-1946), Ernst Toller (1893-1939), entre outros. Isso não quer dizer que o drama foi abandonado pela dramaturgia dos séculos XX e XXI, mas que esta passou a incorporar também elementos não dramáticos. Vários foram, então, os caminhos seguidos pelos dramaturgos nesse sentido, que ora harmonizavam esses enunciados divergentes, ora colocavam-nos em conflito. A dramaturgia do autor norueguês Henrik Ibsen (1828-1906), por exemplo, manteve a forma dialógica do drama, bem como sua continuidade temporal e espacial, mas introduziu narrações semelhantes à dos romances oitocentistas nas falas de seus personagens, deslocando o seu núcleo de sentido para o passado. Já no século xx, o escritor e dramaturgo austríaco Thomas Bernhard (1931-1989) lançou mão de procedimentos semelhantes em suas peças. A exemplo disso, Praça dos Heróis (Temporal, 2020), de 1988, narra um episódio do presente – o funeral de um professor universitário que se suicidou –, tratando-o, porém, como ocasião para os personagens rememorarem o passado da família e do país.

Outros dramaturgos se interessaram em explorar o psiquismo humano em detrimento das ações objetivas, aproximando-se de uma dramaturgia do eu. Nesses casos, o mundo objetivo não desaparece; antes, surge moldado pelo olhar subjetivo. Em determinados autores, essa dramaturgia assume um forte viés político, como acontece com o alemão Toller; em outros, como o sueco Strindberg, ela incorpora o sentido de uma manifestação do inconsciente humano. Porém, em ambos os casos, percebemos a verossimilhança e a linearidade temporal do drama suspensas, o que abriu diversos horizontes formais. O estadunidense Arthur Miller (1915-2005), por exemplo, estruturou uma de suas peças mais conhecidas, A morte de um caixeiro viajante (1949), a partir dos fluxos de consciência de seu protagonista, intercalando continuamente presente e passado. Um procedimento muito semelhante foi empregado pelo dramaturgo brasileiro Jorge Andrade (1922-1984) em um de seus primeiros textos, A moratória (1954). Esta peça representa a ruína de uma família de proprietários rurais ligada à atividade do café, por meio da narração alternada entre dois tempos distintos de suas vidas: um deles ainda ambientado na antiga fazenda da família e o outro na cidade, depois de perde-la por dívidas.

Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974), outro dramaturgo e homem de teatro brasileiro, se utilizou igualmente dessas alternâncias, não apenas associando-as à esfera subjetiva da memória e do flashback, como também estabelecendo, por meio delas, relações objetivas, fosse por analogia, fosse por contraste. Sua última peça, Rasga coração (Temporal, 2018), tem como eixo o conflito de um ex-militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) com seu filho hippie, que desqualifica a luta do pai. Este núcleo temático, entretanto, é interceptado por outros conflitos, como aquele do pai comunista com o seu próprio pai, cerca de trinta anos antes. Aqui, essas constantes alternâncias apresentam o conflito de gerações em perspectiva histórica, equilibrando emoção dramática e reflexão crítica, o que a aproximaria da dramaturgia de Bertolt Brecht (1898-1956), de acordo com quem o teatro deveria propiciar a atitude analítica e reflexiva diante da realidade, e não apenas imitá-la, para que o espectador tivesse um comportamento crítico e uma posição diante do espetáculo, em vez de simplesmente contemplá-lo.

Esses são apenas alguns exemplos dos inumeráveis caminhos seguidos pela dramaturgia dos últimos 150 anos. A imensa variedade desta arte decorre não somente das opções individuais dos autores, como das necessidades que se impõem pelas transformações sociais e culturais, sempre exigentes de novos temas e reflexões formais. Sejam quais forem os caminhos adotados por seus criadores, a dramaturgia continua uma arte viva e, ainda que haja vertentes de teatro sem texto – performáticas, por exemplo –, ela segue em paralelo com suas próprias contribuições, expondo novas maneiras de leitura do mundo contemporâneo e de suas subjetividades.

Neste blog, procuraremos explorar esses caminhos, dispondo aos leitores uma variedade de textos de críticos, dramaturgos, diretores, atores, pesquisadores e outros profissionais do campo teatral, bem como de autores ligados a outros campos que possam aportar reflexões interessantes sobre dramaturgia e o teatro.

No banner, Clara Carvalho e Natália Beukers em O jardim das cerejeiras, de Anton Tchekhov. Realização: Grupo Tapa. Direção: Eduardo Tolentino. Fotografia: Ronaldo Gutierrez.