- dramaturgia brasileira

A atualidade de Augusto Boal: uma cena de "Revolução na América do Sul"

Dando continuidade à seção dedicada aos trechos de peças teatrais, que iniciamos há um mês com uma passagem de “A gaivota”, de Tchékhov, hoje trazemos aos leitores uma cena da peça "Revolução na América do Sul", de Augusto Boal (1931–2009)

Augusto Boal foi um dramaturgo com grande protagonismo na cena teatral paulista e carioca, entre os anos 1960 e 1970, e, posteriormente, um autor conhecido também na Argentina e na Europa. Depois de ter completado seus estudos na Universidade de Columbia, em Nova York, ele retornou ao Brasil, em 1956, trazendo em sua bagagem novos referenciais teatrais, adquiridos no contato com críticos do porte de John Gassner (1903–1967) e com os trabalhos interpretativos do Actors Studio, importante centro estadunidense de preparação de atores, baseado em grande medida em uma assimilação peculiar de técnicas do diretor russo Stanislavski.  É nesse contexto, em sua volta ao Brasil, que Boal contribuiu de maneira decisiva para o Teatro de Arena e para os Seminários de Dramaturgia – laboratório de escrita teatral desenvolvido pelo grupo do Arena.

Revolução na América do Sul, estreada em 1960, é uma das primeiras peças brasileiras a colocar a classe trabalhadora em cena sob o prisma da luta de classes. O caminho fora aberto anos antes, em 1958, pelo grande sucesso de público da peça Eles não usam black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri (1934–2006). Mas, se a peça de Guarnieri é claramente um drama, a de Boal emprega uma forma diferente, que contempla elementos do circo e do teatro épico, além da figura do compère, do teatro de revista[1], assumida pelo personagem José da Silva.

Há cinco anos, Revolução na América do Sul foi novamente trazida à tona pela peça Os que ficam, escrita por Sérgio de Carvalho em colaboração com a Companhia do Latão, e concebida, segundo nos diz seu subtítulo, como “um diálogo teatral com Augusto Boal”. Ao retratar um grupo de atores que se depara com uma série de questões e impasses estéticos, políticos e materiais durante a montagem da peça de Boal – em pleno período ditatorial brasileiro pós-AI-5 –, Os que ficam reapresenta, em novo contexto, alguns dos elementos originais do texto, como o Anjo do Imperialismo e a figura de José da Silva, que também comparecem na cena que agora trazemos.

 

Confira a seguir um trecho selecionado do Segundo ato de Revolução na América do Sul:

Cena 8: A revolução da honestidade também coliga, ou a união acaba com a revolução

Estão em cena o jornalista e o milionário

Jornalista Estou com um drama de consciência. Eu estava do lado de lá, agora estou do lado de cá. Eu de um lado e você do outro, nós dois metíamos o pau no Zequinha Tapioca. Agora que estamos do mesmo lado, elogiamos o Zequinha Tapioca. O Zequinha Tapioca, que nunca ninguém soube de que lado estava, queria fazer revolução contra você, que estava do lado de cá, e contra mim, que estava do lado de lá. Agora já não sei mais de que lado é o lado de lá, de que lado é o lado de cá.

Milionário Nós estamos do lado do povo.

Jornalista Então está todo mundo do mesmo lado.

Milionário Os nossos inimigos estão sempre contra o povo, e o povo está sempre do nosso lado.

Jornalista Como eu sou Jornalista, quero simplificar as coisas: quem é que eu tenho que elogiar, e quem é que eu tenho que meter o pau? Tem que elogiar o Zequinha. Ele é revolucionário!

Milionário Jesus Cristo também foi, meu filho.

Jornalista Revolução pra quê? Está tudo indo tão bem. Aumentaram o salário mínimo, meu jornal está cada vez mais rico, minha filha casa amanhã... Revolução pra quê?

Milionário Foi ele que descobriu a honestidade.

Jornalista Isso já existia. Lá na Suíça, onde eles passam a vida fazendo relógio, lá eles são honestos até em política.

Milionário Que absurdo (morre de rir). Parece piada...

Jornalista Você acha mesmo que o Zequinha serve pra nosso candidato?

Milionário Sabe o que o meu Anjo da Guarda disse?

Jornalista Não.

Milionário Que esse negócio de plataforma, programa programático, isso tudo é besteira. O que resolve mesmo é o personalismo, o eleitor vota na cara. E quem vê cara não vê programa.

Jornalista Você acha ele bonito?

Milionário Já viu candidato bonito? Precisa ser feio como a fome. Dá a impressão de que o povo está votando em si mesmo (toca a campainha). É ele. Dá o fora (saem os dois apressados; entra Zequinha. Logo atrás entram José e a Mulher).

José [da Silva] O Zequinha vai falar com o Patrão. Vai ver se ele quer financiar urna revoluçãozinha.

Mulher Revolução pra que?

José Então você não sabe que o país está cada vez mais pobre, que nós estamos cada vez mais pobres, que os pobres estão cada vez mais pobres?

Mulher E dai?

José Daí vamos fazer a Revolução da Honestidade.

Mulher Honestidade? Que é isso?

José Num sei. Só sei que eu sou pobre, pobre, pobre de marré, marré de sim (sai. Voltam Zequinha e o Milionário).

Milionário Política não é diversão de pobre.

Zequinha Eu sou pobre.

Milionário Fuma estora peito, anda todo sujo, cheira mal...

Zequinha Em casa não tem chuveiro.

Milionário É assim mesmo que você me serve.

Zequinha Por que?

Milionário Primeiro: você é feio. Segundo: inventou a honestidade.

Zequinha (feliz) Já ganhei. Já ganhei.

Milionário Mas quem é que vai financiar a sua campanha?

Zequinha É mesmo, eu nem pensei nisso... É muito cara?

Milionário Pensa bem: cartazes na rua, faixas, pixe, comícios, rádio, viagens... Quem é que vai pagar tudo isso?

Zequinha Tem razão. Quem é que vai pagar tudo isso?

Milionário Eu. Eu pago a sua campanha.

Zequinha Mas você é do lado de lá.

Milionário Então vem pro lado de cá.

Zequinha How?

Milionário Qual é a sua bandeira?

Zequinha Honestidade.

Milionário E a minha?

Zequinha Verde e amarela com uma garrafa de Coca-Cola no centro.

Milionário Certo. Mas, concretamente?

Zequinha O dinheiro!

Milionário E qual é a solução? Honestidade e dinheiro?

Zequinha Juntar a honestidade com o dinheiro.

Milionário Juntemos as nossas bandeiras.

José (entrando) Você está louco, chefe. Nós vamos fazer uma revolução.

Milionário Manda ele embora que isto é uma conferência de cúpula.

Zequinha Isto é cúpula!

José Até você está entrando nessa marmelada? Você que passou fome comigo?

Zequinha Parece carrapato, fica grudado na gente. Cúpula sou eu e ele, você não tem que resolver nada. Tem que votar em mim, depois.

Milionário Toma dez cruzeiros e vai comprar um Bauru.

José Custa doze.

Milionário Toma vinte e traz o troco.

José Posso comer sanduiche americano com ovo?

Milionário Vai, vai (ele sai). É assim que se deve tratar essa gente: panen et circus.

Zequinha Tradução: feijão com arroz e filme da Metro com a Grace Kelly.

Milionário Vamos fazer um só partido.

Zequinha Mas não pode. A revolução, como o nome indica, é da Oposição, e vocês, com perdão da palavra, são a Situação. Eu sou Oposição.

Milionário Exatamente: você! Quando se fala em político honesto em quem é que se fala?

Zequinha Em mim.

Milionário Quando se fala em dinheiro, em que é que se fala?

Zequinha Você.

Milionário Vamos nos unir?

Zequinha Vamos.

Milionário Você topa?

Zequinha Topo.

Milionário Como é o nome disso?

Zequinha Hipnotismo.

Milionário Co-li-ga-ção. A honestidade e o dinheiro, juntos numa só bandeira.

Zequinha E você paga a festa?

Milionário Eu não.

Zequinha Então quem? (entra o Anjo da Guarda).

Milionário Hello, Angel, take a seat (explicativo). É o meu Anjo da Guarda. Veio fazer uma visita de cortesia (para o Anjo). It’s all set (entra o jornalista. O Anjo traz uma casaca que veste em Zequinha, que põe também uma cartola).

Jornalista Acertaram tudo?

Milionário Põe em manchete: Zequinha Tapioca aderiu.

Jornalista Vamos começar a distribuição?

Milionário Distribuir o quê?

Jornalista Quero o Banco, a Caixa e a Secretaria da Fazenda.

Milionário Que falta de compostura, na frente de estranhos...

Jornalista É pra facilitar o serviço...

Zequinha Vamos todos mudar de nome.

Milionário Por que?

Zequinha É uma grande jogada. Todo mundo vai ter nome de coisa que limpa. Somos honestos e vamos lavar a podridão do país. Vote em Zequinha Tapioca, o Sabonete da Alma.

Jornalista Eu sou o criolina.

Milionário Eu sou o palha-de-aço.

Anjo Good, good, that's my boy.

Zequinha E nós três juntos, somos o Comando Sanitário: Sabonete, criolina e palha-de-aço (cantam a Canção da Limpíssima Trindade).

Nos três que bela trinca

Trinca que lava, trinca que limpa

Somos três mosqueteiros do bem

Irmanados pela honestidade

Somos limpíssima trindade

Somos higiênica trindade

Um por todos

Todos por um

 Fim da Cena 8

 

[1] O teatro de revista é um gênero popular de teatro que ganhou notoriedade no Brasil a partir do final do século XIX. Ele valia-se de elementos cômicos, do uso de cenários e figurinos extravagantes, da dança e da música, para retratar a sociedade vigente, seus costumes, tipos e modos. Personagem ficcional cômico, o compère era uma figura essencial em textos deste gênero, pois realizava a interação com o público e fornecia o fio condutor entre os diferentes números e esquetes, de cuja sequência esses espetáculos eram constituídos.

Trecho extraído de Revolução na América do Sul (São Paulo: Massao Ohno Editora, Coleção dos Novíssimos v. 7, 1960, pp. 61-65).

No banner Detalhe do programa da peça na publicação Teatro de Arena em revista (n. 1, setembro de 1960)