- arte, teatro, dramaturgia brasileira

Teatro na pandemia: o eterno retorno

artigo por DIONE CARLOS — Para encerrar o ano de 2021 em grande estilo, e nos preparar para o ano vindouro com coragem, convidamos para o Blog alguém que muito admiramos, parceira de outros projetos da Temporal: a atriz, dramaturga, roteirista e professora de teatro Dione Carlos. A autora divide conosco e com nossos(as) leitores(as) um breve relato de sua trajetória pelo campo artístico dos últimos dois anos, e comenta seus processos de enfrentamento à realidade política e sanitária brasileira. A partir da prática que realiza, o texto apresenta seu processo de criação frente ao exercício teatral – de que maneira ele se dá e se desdobra; suas reflexões sobre a dramaturgia e o texto em si mesmo – suas referências e elaborações; além de pincelar algumas considerações sobre a cena brasileira no que diz respeito ao protagonismo das narrativas negras.

por Dione Carlos

 

Há dois anos vivemos encarcerados em pensamentos conflitantes que envolvem uma pandemia mundial e um país desgovernado. Ser artista em um período do mais declarado autoritarismo no Brasil é um desafio diário que nos custa, muitas vezes, a saúde mental.

Sou dramaturga há mais de uma década. Atuo com companhias de teatro, a maioria residente em São Paulo – cidade que já foi lotada de teatros, os mesmos que hoje tentam voltar à ativa. Escrever durante a pandemia foi como manter uma chama acesa em um período glacial. Por um lado, as companhias tiveram que rever seus projetos, adiamentos e reformulações radicais das propostas artísticas tiveram que ser realizados; um enorme temor de como seguir tomou conta de tudo. Por outro, fomos obrigadas a pensar sob um estado de emergência, e nisso temos experiência. Vivemos sob ameaça constante, afinal a cultura é a maior inimiga de qualquer pensamento autoritário.

Estabeleci parcerias artísticas em projetos previamente desenvolvidos, mas somente na pandemia me coloquei como proponente – finalmente tive tempo para fazê-lo. Assim, nasceu Maria d’Apparecida – Luz Negra, que no mesmo período passou por mudanças, deixando de ser uma peça de teatro para virar uma “peça-filme”. Viver um regime de necropolítica obriga você a se posicionar com mais força, e acredito que a melhor resposta que nós, artistas, podemos oferecer, é seguir criando textos, músicas, pinturas, fotografias… Aliás, para quem pôde fazer isolamento social ao longo da pandemia, ficou provada a importância dessas artes para a sociedade. Acredito que é possível conhecer um povo pelo modo como ele trata seus mortos e pelo modo como escreve dramaturgia, por exemplo.

Toda dramaturgia é civilizadora; basta refletir sobre o papel do teatro na catequização dos povos originários, que já eram exímios artistas. Por meio de autos religiosos implementou-se um idioma e uma religião. Isso é bastante, e segue acontecendo. Daí a imensa responsabilidade que recai sobre os ombros de quem escreve, porque a narrativa cria imaginários. E se esta corrobora com uma política de morte e/ou de criação ou manutenção de subalternidade, então estamos diante de um sistema de escritura de exclusão, sem escuta, que atua na chave da história única, de um “homem universal”. No Brasil, ignora-se as centenas de anos de contribuição artística indígena e negra no teatro, enquanto muitos artistas se colocam como porta-vozes de “classes minorizadas” (não concordo com o uso da palavra “minoria” para classificar esse batalhão de pessoas), sendo que as pessoas sabem falar. A diferença é que elas não são ouvidas.

A artista visual Rosana Paulino costuma dizer que “o Brasil precisa olhar para dentro”. Penso da mesma forma. Recuperar a história de Maria d’Apparecida Marques, por exemplo, primeira mulher negra a cantar na Ópera de Paris, foi uma das missões que eu abracei na pandemia. Maria morreu brasileira, mesmo tendo recebido convites para se naturalizar francesa, mesmo depois de ter ouvido em nosso país que ela “não podia cantar ópera aqui, porque negra não cantava ópera no Brasil”. Morreu em busca de uma pátria que nunca a reconheceu. E ainda assim nos representou lá fora, primeiro cantando música lírica, depois popular, com letras de Waldemar Henrique e Baden Powell. O melhor do Brasil na voz de uma suburbana carioca, filha de uma mãe adolescente solo, empregada de uma casa de classe média da Tijuca. Maria, uma heroína trágica brasileira, como muitas. Musa de versos de Carlos Drummond de Andrade e dos quadros de Félix Labisse, pintor francês do movimento surrealista que a pedido de sua modelo a retratou com a pele azul, para que não pensassem que ela era branca. Essa foi Maria, nossa Maria. Vejo esse trabalho como um processo de repatriação dessa cidadã. Voltei a atuar e a cantar por causa dela, e assino também a dramaturgia da “peça-filme”, que ganhou encenação do diretor Luiz Fernando Marques, além de contar com a presença do ator Rodrigo Mercadante como ator e diretor musical.

Outro projeto fruto da pandemia foi Matriarquia, um poema cênico performático que escrevi para Camila Pitanga a partir de uma autoficção proposta pela própria atriz. O texto tratava de sua mãe e de sua linhagem, e mesclava à narrativa alguns materiais literários de Clarice Lispector, Machado de Assis e Emanuele Coccia. Passamos juntas o projeto – eu, ela e Lucia Helena Gayotto – durante quase um ano nos reunindo semanalmente, com uma entrega artística total, que resultou em outra “peça-filme” dirigida pela diretora Cris Moura. Acredito que retomaremos o projeto com a intenção de realizar um trabalho presencial no próximo ano (2022), assim como aconteceu com Maria d’Apparecida – Luz Negra, que teve uma apresentação presencial recentemente, em novembro.

Na pandemia, também me dediquei à escrita de roteiros para a televisão – algo que eu vinha adiando, porém não o fiz sem antes me preparar. Tem sido uma experiência muito instigante transitar entre linguagens. O roteiro implica construir uma paisagem visual e sonora para contar uma história a ser filmada, vista e ouvida. Já o texto cênico foca no que será presenciado, corporificado, e igualmente visto e ouvido. Ambos, porém, atuam como “cartografias, mapas” para uma equipe de criadores. E em tudo há a presença de uma dramaturga ou roteirista que cria histórias vivas.

Tem sido, por fim, uma época de publicação de livros. Escrevi alguns prefácios, o que fez com que eu lesse bastante no período. Acredito que a pandemia tem nos obrigado a olhar para dentro. E não falo, obviamente, só do Brasil, mas de nosso interior. Diante de uma convocação de morte perpetrada por uma política genocida e da própria morte enquanto condição inequívoca, nos resta dar forma ao modo como estamos no mundo neste tempo. O teatro já viveu guerras, cataclismas e pandemias; é muito mais antigo do que “nós, os vivos que aqui estamos”, que ainda estamos. E ele já se reinventou muitas vezes como resposta aos tempos. Não tem sido diferente, e nem será agora. Como escrevi em Matriarquia: “Enquanto houver ser humano tem teatro. Enquanto estivermos por aqui o teatro segue”.

 

 *

 

Dione Carlos é autora de 24 peças encenadas por diversas companhias de teatro e ministra oficinas de dramaturgia. Teve textos lidos e encenados em países como Portugal, Colômbia, México e Bélgica. Em 2020, foi selecionada para o Laboratório de Narrativas Negras da FLUP/GLOBO, passando a dedicar-se, também, à escrita de roteiros para o audiovisual. Tem seis livros publicados, entre eles Dramaturgias do Front (Primata, 2017) e Black Brecht – E se Brecht fosse negro? (GLAC Edições, 2020).

 

No banner: Camila Pitanga em Matriarquia. Foto: Rodrigo Pinheiro e Gal Cipreste Marinelli.


Últimos posts