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Sempre às margens

Nesta quinzena, publicamos no Blog da Temporal um texto do jornalista Christian Eger que traça encontros entre a literatura e a trajetória de Botho Strauss, autor de “Trilogia do reencontro”. Em sua obra, o dramaturgo alemão pensa as relações humanas de forma provocadora e compõe um aguçado diagnóstico do seu tempo. Solitário e vivendo longe dos holofotes, Strauss vem do teatro e do jornalismo sobre teatro, que, juntos, ajudaram a formar um escritor da sociedade. Filho de um consultor de alimentos que foi levado à prisão de Naumburg por suposto crime contra a economia, Strauss usou essa e outras experiências de sua vida como matéria-prima literária. Autor autêntico, Strauss é, segundo o colega Peter Handke, merecedor de um Nobel de Literatura.

por Christian Eger
(tradução de Alice do Vale)

Ele sempre viveu cerca dos rios. Na adolescência, cerca do Lahn, na infância do Saale, no centro da Saxônia-Anhalt, região considerada hoje patrimônio mundial, entre Nietzsche, Unstrut e Uta. Em Naumburg, há 75 anos, nasceu Botho Strauss, o escritor da sociedade, o dramaturgo bastante encenado outrora, o observador que traça o diagnóstico do seu tempo e um provocador. Não somente um dos mais importantes escritores alemães contemporâneos, mas também um autor citado pelo ganhador do prêmio Nobel de Literatura Peter Handke, quando disse publicamente que teria lidado bem com a decisão de entregarem o prêmio a Botho Strauss.

Um candidato ao prêmio Nobel do centro da Alemanha, isso não é uma notícia frequente. Depois do falecimento de Wolfgang Hilbig, em 2007, é de fato Strauss que hoje escreve uma literatura universal com raízes no centro da Alemanha. Marcado pela “Origem” alemã oriental, como o título do livro publicado em 2014 sobre o pai, um consultor de alimentos que antes de ir para a Alemanha Ocidental com mulher e filho, em 1950 – foi colocado pelos comunistas na prisão de Naumburg por suposto crime contra a economia.

Garrafas partidas de Naumburg
Para o filho foi uma experiência também literária com consequências. “O que me vinha à mente desde sempre, vem ainda hoje: são os cacos de prosa, iguais às garrafas partidas, às gargantas e barrigas cortadas no cimo do muro da prisão em Naumburg, atrás do qual eu visitava meu pai quando criança”, diz Botho Strauss em “Herkunft” (Origem). “Sob o regime comunista na Zona de Ocupação Soviética, ali estava ele, em prisão preventiva. Como sócio de uma fábrica de produtos farmacêuticos, ele estava sob suspeita de ter participado do contrabando de açúcar de Berlim Ocidental. Esse foi o único pretexto exposto para expropriar a fábrica.”

Cacos de prosa, garrafas partidas: aqui se desenha a poética que Strauss segue até hoje. Não é uma prosa de longo percurso, mas de curto, discurso de personagens sem o desenho das personagens, literatura de pensamentos compartilhada em pequenas e rápidas unidades, mais próximas ao aforismo do que à narrativa. “Paare, Passanten” (Pares, passantes) é o nome do volume com o qual o estudante que largou a faculdade de Germanística conquistou a fama, em 1981, um estudo com vozes variadas sobre a fragilidade das relações humanas. Seu estilo, seu som e o interesse pelo conhecimento constituem o escritor que, vindo do teatro e do jornalismo sobre teatro, chegou em definitivo à literatura em 1975 e permanece fiel a ela até hoje. A influência teatral se fez sentir também no seu ensaio “Anschwellender Bockgesang” (O crescente canto do bode), publicado no começo dos anos 90, que teve como alvo a crise de um liberalismo estabelecido no poder, presunçoso, longe da crítica; ter pleiteado o direito a uma direita não radical e não nazista rendeu a ele o desprezo das mídias e do setor da cultura, o que, em si, seria parte da temática.

Mas este ensaio, que perdeu seu potencial para escandalizar, mas que continua capaz de estimular, começa com um olhar sobre o autor e a sociedade, que ele observa como se estivessem em um palco: a “grande surpresa por conta do transcorrer dos acontecimentos e de seus encaixes, tão enormemente complexos para o grandioso e sensível organismo do estar com o outro”, literalmente “conseguir lidar com o outro”. Uma arte que “parece ser para qualquer pessoa de fora, que não esteja acometida por uma doença política, uma arte inacessível”.

Strauss está no encalço das pequenas partes desta arte. E assim como em “Paare, Passanten” (Pares, passantes) agora, novamente nas coisas do amor e da parceria. Esta última, uma palavra que Strauss riscaria imediatamente. Ele escreve em seu recente “zu oft um sonst gelächelt” (sorriu tantas vezes em vão), chamado de livro das formas de amor: “Homens e mulheres jamais são parceiros. Uma mulher ou é venerada ou desejada, ou tolerante ou intolerante, mentirosa ou uma alma confiável, no melhor dos casos combatente, tanto a favor como contra, valor e tratamento equivalente...– mas nunca um parceiro. Empréstimos ordinários da vida em sociedade. Não se subestima a magia da banalidade que, com essa denominação, chega e mina todo o amor.” O que não significa que Strauss seja um sentimental. É possível encontrar esta frase também: “O amor nunca é mais do que a alusão ao amor.”

Arte e não salã
Strauss, que mora em Uckermark e em Berlim, é um dos escritores mais estimulantes, livres, bem formados que cresceram na sociedade do pós-guerra e para os quais, entre as fortes ideologias, no final, nada mais era óbvio –o antagonista alemão ocidental de autores como Christoph Hein e Volker Braun. Com este último Strauss não compartilhava da visão de mundo, mas da inclinação para a poética prosa de pensamentos.

Ser solitário faz parte. Em Strauss não é pose, mas constituição. Aquele que foi trazido do centro da Alemanha é o homem sem centro. Já algumas vezes cogitaram homenageá-lo na Saxônia-Anhalt. Em vão. “Jamais se deixar fotografar, filmar, ouvir, homenagear ou ser pego de surpresa como quer que seja”, ele escreveu em “Paare, Passanten” (Pares, passantes). E permaneceu assim. Sem leituras públicas, sem talkshows. Em seu novo livro, o narrador sobe a gola do sobretudo. O seu palco não é o ramo da literatura, mas a Literatura em si. Arte e não salão. Não o centro, mas a margem de onde pode ser visto o todo.

Christian Eger é um jornalista alemão.


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