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"Por que ler dramaturgia?", por Stephan A. Baumgärtel

Pedimos a pesquisadores(as), dramaturgos(as), tradutores(as) e demais envolvidos(as) no universo teatral responderem a uma pergunta que tanto nos inquieta desde o nascimento da Temporal e que tem espaço especial aqui, no Blog da editora: afinal, por que ler dramaturgia? Se o gênero não figura entre os frequentes do público brasileiro, não consta entre as categorias da maioria dos prêmios literários, ou é destaque nas livrarias e na imprensa, além de, com frequência, se distinguir da literatura, por que se interessar por ele? Em abril, para o quarto depoimento da série, convidamos um parceiro já conhecido da Temporal. Autor do Prefácio à edição de “Trilogia do reencontro”, de Botho Strauss, publicada pela editora em 2020, Stephan A. Baumgärtel compartilha conosco um relato sobre as especificidades da dramaturgia – seus desenhos, prazeres e atravessamentos – e sobre as possibilidades que provêm do encontro entre texto teatral e cena, ao qual o autor nomeia “jogo cênico”.

por Stephan A. Baumgärtel

Quando se coloca a pergunta sobre por que ler dramaturgia a um professor universitário, dificilmente vai-se receber uma resposta puramente pessoal, apaixonada, de um leitor ávido por textos teatrais. Às vezes, vivencio essa profissão como a amputação de um encanto afetivo, mas não raro ela também aprofunda esse encanto.

Vou começar com um comentário acadêmico, portanto: a pergunta acerca do motivo de ler dramaturgia pressupõe que haja alguma especificidade na configuração daquilo que chamamos de texto teatral ou de dramaturgia, e que os leitores, devido às particularidades formais do gênero, obtenham alguma experiência particular que não seria possível a partir da leitura de outros textos predominantemente narrativos ou líricos. Mas quem pode definir de antemão o que é dramaturgia, num momento histórico em que as fronteiras entre os gêneros literários são debilitadas na teoria e quase pulverizadas na prática de escrita de muitos autores que se consideram dramaturgos? Mesmo que boa parte dos textos teatrais escritos na atualidade ainda possam ser formalmente compreendidos como variações da tríade dramática tradicional – uma história em forma dialogada por meio de figuras que se assemelham a personagens de cunho mais ou menos psicológico –, há inúmeros exemplos cujas forças propulsoras não seguem mais essas linhas estruturais, mas antes apresentam características não só líricas ou épicas, mas discursivas ou ensaísticas. São textos que estabelecem seu próprio universo imaginário, por meio de uma retórica singular, sem que fique evidente como seriam levados ao palco enquanto propulsores de uma experiência cênica. Talvez sejam esses os textos atuais mais potentes, instigantes ou perturbadores, do ponto de vista tanto acadêmico quanto afetivo e subjetivo, porque subvertem um passado histórico por meio da subversão formal e, assim, provocam a busca por um futuro formal e histórico indefinido. Nesses casos, me parece que o prazer e o ganho específicos de ler dramaturgias estão numa experiência de leitura quase de paralaxe no que diz respeito à relação entre texto e cena, sem que isso anule necessariamente a possível intensificação da experiência conflituosa ficcional que um texto dramático pode oferecer.

De fato, são textos que se colocam formal e tematicamente numa espécie de soleira ou fogueira histórica, que me encantam mais. Autores como Michel Vinaver, Bernard-Marie Koltés, Valère Novarina, Jean-Luc Lagarce, Heiner Müller, Elfriede Jelinek, René Pollesch, Rainald Goetz, Mac Wellman, ou entre os textos de autores brasileiros trabalhos de Pedro Kosovski, de Juão Nyn e de muitos representantes da chamada dramaturgia negra, como Grace Passô, Jhonny Salaberg, Dione Carlos, entre tantos outros que desde já me desculpo por não nomear aqui.

Para que a soleira também seja fogueira (e que possa apresentar o custo de atravessar essa linha liminar que nos leva a configurar uma imaginação outra, um mundo outro, a partir de uma imaginação nova), me mobiliza ainda o que desde sempre foi uma característica da dramaturgia: a condensação dos acontecimentos num momento chave que expressa de modo sintético o que está em jogo na ficção, ou seja, o bom e velho conflito. Levar os leitores a uma experiência aguda das contradições de uma posição discursiva, de um modo de estar no mundo, bem como da formação histórica desse mundo, certamente foi um dos atrativos mais fortes desse tipo de texto. E continua sendo, seja com ou sem personagens psicologizados. Busco uma experiência intensa do conflito, dolorosa, às vezes trágica, às vezes risível, e quase banal, que aguça meu próprio olhar para as contradições do mundo! E claro, posso detectar essa fogueira histórica também em textos canônicos, formalmente dramáticos. Mas hoje, ela também se articula em outros lugares, que não sejam configurados pelo embate entre protagonista e antagonista no andamento da ficção.

Nesse contexto, me encanta (e incita a minha imaginação e vontade de análise) quando percebo como essa fogueira adentra a configuração da linguagem do texto, sua retórica, as diferentes máscaras de fala, as formações discursivas da escrita. Dessa maneira, o texto encena para mim uma espécie de teatro de perspectivas na e da linguagem. Expõe em seu funcionamento retórico a construção e a desconstrução de imaginações humanas, modos de olhar para o mundo e de inventar mundos. Me oferece um prazer com a linguagem como ferramenta de criar imagens do mundo que se relacionam criticamente com minha/nossa percepção do mundo em que vivo/vivemos hoje. Nem tudo nessa lacuna precisa estar transparente. Melhor que seja dado formalmente como algo que eu como leitor possa descobrir, ao refletir sobre a opacidade inicial da proposta textual.

Mas o encanto mais forte da dramaturgia talvez resida na lacuna que necessariamente existe entre texto e cena. A pergunta que todo texto carrega para que eu a responda, num primeiro momento, na minha imaginação e, posteriormente, na prática de uma encenação: como reagir cenicamente a essa proposta textual? Como “montar” não o texto, mas um universo cênico que se relaciona com o ele de determinada maneira? O ato de jogar com várias proposições cênicas para a mesma cena pode oferecer não só um prazer teatral enorme, mas, às vezes, frustrações e angústias das quais podem brotar novas ideias cênicas; é preciso apenas aguentar essa pressão interna. Definitivamente, prefiro ler textos que provocam em mim esse jogo cênico; que me estimulam a imaginar procedimentos para colocar essa instabilidade criativa (e não destrutiva) em cena. Na minha prática como docente universitário, sempre me entusiasmo com as diferenças de impacto cênico que surgem, quando os grupos de alunos respondem à tarefa de realizar determinada cena por meio de diferentes pessoas que atuam: um ator/uma atriz para um diálogo, outro grupo com dois, três, quatro para o mesmo diálogo, e o último grupo com todas as demais pessoas; isto é, por meio de uma proposta que se assemelha seja a um trabalho de coro, seja a um trabalho com a coralidade. Relacionar a imaginação ficcional como leitores com nossa imaginação cênica é, para mim, um dos desafios mais estimulantes ao ler textos escritos para serem encenados. Textos que buscam atravessar a imaginação e o corpo de um ser humano, seu aparelho vocal e afetivo, para intensificar a capacidade humana de carregar seu corpo com algumas das energias desse texto e entregar essa junção para o público.

Portanto, uma dramaturgia no papel me permite direcionar minha atenção para diferentes focos: à narrativa ficcional e à construção dos encadeamentos das ações ficcionais, à composição retórica da própria linguagem como universo que abriga e dá forma às forças que atravessam a história ficcional e empírica, ou às diversas possibilidades de responder ao texto de maneira não ilustrativa por meio da encenação. Hoje, mais do que nunca, a dramaturgia busca esse leitor ativo, de um imaginário versátil, precisa dele e o convida a ativar essa versatilidade intelectual e sensível na escuta dos impulsos textuais. Que ambos, textos e leitores, se encontrem à altura de suas potencialidades!

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Stephan A. Baumgärtel possui mestrado em letras com habilitação em inglês pela Universidade Ludwig-Maximilians, em Munique, doutorado em literatura em língua inglesa pela Universidade Federal de Santa Catarina e pós-doutorado em estudos sobre a dramaturgia brasileira contemporânea na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Sua tese de doutoramento recebeu o prêmio Capes de 2005. Atualmente, é professor associado da Universidade do Estado de Santa Catarina nas áreas de história do teatro, estética teatral e dramaturgia. Como pesquisador, investiga, em especial, as modalidades poéticas de políticas teatrais na contemporaneidade e as modalidades não miméticas de encenar textos teatrais não dramáticos.


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