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"Por que ler dramaturgia?", por Pedro Henrique Müller

Pedimos a pesquisadores(as), dramaturgos(as), tradutores(as) e demais envolvidos(as) no universo teatral responderem a uma pergunta que tanto nos inquieta desde o nascimento da Temporal e que tem espaço especial aqui, no Blog da editora: afinal, por que ler dramaturgia? Se o gênero não figura entre os frequentes do público brasileiro, não consta entre as categorias da maioria dos prêmios literários, ou é destaque nas livrarias e na imprensa, além de, com frequência, se distinguir da literatura, por que se interessar por ele? Em mais um texto da série, quem nos responde é Pedro Henrique Müller, que realiza um sobrevoo pela história do teatro e da dramaturgia, entrelaçando-a aos sentimentos e sentidos de sua experiência e de sua prática no campo. Pedro recentemente atuou e assinou a dramaturgia no espetáculo-exposição "Como devo chorá-los?" (2021), adaptação online e multimídia da tragédia de Antígona de Sófocles.

por Pedro Henrique Müller

Uma pergunta importante que convida a uma reflexão difícil. Acho curioso responder a esta questão em tempos tão obscuros. Quando comecei a fazer teatro, me lembro de ir às livrarias do Rio e passar horas em frente às estantes da seção de dramaturgia – àquela época, bem mais fartas do que as de hoje – e me recordo de pensar que ali, de algum modo, parecia haver uma espécie de “súmula do mundo”. Era extraordinário imaginar que em mais ou menos cinco prateleiras pudesse haver uma estranha condensação de vozes da história; vozes que cantam desde a Grécia Antiga, e que seguem ressoando até os dias de hoje. Imaginar que essas vozes do mundo estavam ali, disponíveis para a leitura, ou quem sabe para uma futura encenação, parecia a revelação de um complexo segredo, como se aquela fosse a parte mais viva de toda a biblioteca (o fato de, já naquela época, não ser a parte “mais famosa” das livrarias, só fazia aumentar este fascínio), justamente por serem vozes que clamavam por mais vida, que pediam corpo, emissão, geometria, tempo, silêncio, espaço.

Escrever teatro já foi considerada a prática mais nobre do mundo dos escritores – poesia e teatro; isso num mundo antes dos romances, dos contos, muito antes do cinema, da TV, das redes sociais e dos serviços de streaming. Antes de tudo, o teatro. Apesar de tudo, o teatro. Acho muito curioso vivermos numa época de tão baixa popularidade do gênero. Me parece ainda mais curioso que sua voltagem seja inversamente proporcional à sua baixa popularidade como gênero literário, justamente quando vemos uma enxurrada de performances diárias, que vão de dancinhas para o TikTok a blogueiras que se filmam de hora em hora, além das lives, dos youtubers, podcasters e filtros. Em um mundo saturado de representações diárias, de um acúmulo de vidas-espetáculos que nos atingem em velocidade acachapante, como não pensar no teatro? Como não pensar nas máscaras gregas, no teatro japonês, no Katakhali indiano, em Brecht, Shakespeare, Sófocles, Ibsen, Tchekhov, Nelson Rodrigues? Como não pensar nos gestos que atravessam a história, como cristais de tempo, e que se encontram nestes incontornáveis textos da humanidade; nas ruínas de vozes que seguem nos assombrando desde o século V a.C. – dos escombros de Tebas aos poemas de bronze e ferro de Brecht, das dores dos espectros sociais de Ibsen ao vazio da existência e da rarefação do ar no mundo pós-apocalíptico e desprovido de qualquer sentido de Beckett?

Diante dos demônios do teatro – de suas representações de barro e vento, dessas frases soltas, do embate intersubjetivo entre personagens e figuras –, atravessamos as perguntas mais fundamentais da existência humana. Hannah Arendt disse certa vez que só o teatro é político, pois ele se responsabiliza por figurar a existência mais uma vez diante de nós; isto é, o ser humano agindo diante dos seres humanos – para que duvidemos inclusive de nossa existência, e percebamos quão absurdo e intrigante, violento e insano é viver. Seja tomando chás em grandes samovares de prata, com a esperança de um dia retornarmos a uma época de maior alegria, seja na tentativa de realizar as libações e rituais fúnebres de um parente que perdemos, seja ao percebermos a contradição de querer tomar um banho quente numa noite de verão intenso, seja à espera de alguém que jamais saberemos se virá, num baile de máscaras, numa masmorra, num castelo ou diante dos soldados da SS, num salão francês do século XVIII ou presos num bunker em meio a uma Terceira Guerra Mundial, ler textos de teatro é complexificar nossa forma de experimentar o tempo. As temporalidades se imiscuem, se contaminam, assim como a própria ideia de existirmos como indivíduos torna-se embaralhada, confusa. Presentificamos o ontem, vivemos hoje o amanhã.

Lembro dos versos de T. S. Eliot: “Se todo o tempo é eternamente presente, todo o tempo é irredimível”. Quando lemos textos teatrais, nos deparamos com a implacabilidade do presente, tempo que contém em si todos os outros tempos. Não obtemos nenhuma resposta para absolutamente nada, mas somos estimulados com imagens, texturas, ações e gestos, movimentos, cor, luz e palavras. Nos tornamos instantaneamente encenadores, atores, atrizes, virtuoses, bailarinos, bobos da corte, reis e rainhas, vagabundos, idiotas, canalhas fundamentais. Virtualizamos a possível encenação daquele texto em nossas mentes (o que muitas vezes é mais prazeroso do que assistir encenações duvidosas levadas à cabo). Entendemos que a forma como “escolhemos” viver é absurdamente pobre e banal. Somos minúsculos, e vivemos comprimidos numa estrutura frágil, apertadíssima. Sufocados cotidianamente num modo de vida tacanho, repetitivo, esquálido. Quando lemos textos teatrais, abrimos as portas de ventilação e a vida parece se renovar de algum modo doloroso e prazeroso dentro dela mesma. Vemos que apesar de nós, sempre podemos ser outra coisa – outros modos de agir, refletir, dialogar, conviver e de se relacionar tomam lugar; temos acesso a uma espécie de verdadeira vida-outra, que nos acompanha sob esta versão piorada que escolhemos (ou ao qual nos obrigam) viver. Sob, sobre, ao lado, ou transversal a essa versão da vida, numa outra margem, correm essas outras vidas – talvez mais vivas do que a nossa – esperando para serem cantadas e dançadas em coro. 

O teatro continua a pertencer a este outro universo, o dos fantasmas, move-se dentro de um círculo encantado, local de sortilégios, onde tudo se parece e não se parece com as coisas do nosso cotidiano. A linguagem teatral se dá neste limiar, na linguagem dos sonhos, entre a vida e o imaginável, entre o que é e o que poderíamos ser, e nós, como espectadores, sabemos, compactuamos com este acordo de acreditar num sonho, confiamos com fervor e desconfiança no que vemos, pairamos ao lado do real. O teatro não é totalmente verdadeiro, como sabemos que os sonhos também não o são, mas nessa zona intermediária reencontramos aquilo que talvez Aristóteles tenha chamado de catarse. Esse enigma que até hoje tentamos decifrar, sem muito sucesso. Somente com o teatro somos levados a experimentar algo que talvez possamos reconhecer como este mistério, essa purificação tão necessária de nossas almas, que pode libertar as paixões e os desejos mais sombrios, insanos, grotescos, desfigurantes, aterradores, e que só temos chance de conhecer e tomar consciência por meio do teatro. 

Para mim, o que há de mais valioso em ler dramaturgia, é fazer ressoar o coro dos espectros.

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Pedro Henrique Müller é ator formado pela Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) e tem bacharelado em artes cênicas – teoria do teatro pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Participou como ator em diversas peças de teatro como A Prova de Fogo (2012); O Tempo e os Conways (2013), Uma Odisseia (2013), O Processo (2014-15), Domínio do Escuro (2015), O Figurante (2016-17), Como os Peixes Chegaram Ali? (2016), Microteatro: Dependências (2017) e As Mil e Uma Noites (2018-19). Estreou na televisão em 2018 na novela Orgulho e Paixão da Rede Globo. Trabalhou com Bia Lessa no espetáculo Macunaíma – Uma Rapsódia Musical (2019) e como ator e dramaturgo no espetáculo-exposição Como Devo Chorá-los? (2021), adaptação online e multimídia da tragédia de Antígona de Sófocles. É ator integrante da Cia. Teatro Voador Não Identificado.


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