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"Por que ler dramaturgia?", por Gustavo Colombini

Pedimos a pesquisadores(as), dramaturgos(as), tradutores(as) e demais envolvidos(as) no universo teatral responderem a uma pergunta que tanto nos inquieta desde o nascimento da Temporal e que tem espaço especial aqui, no Blog da editora: afinal, por que ler dramaturgia? Se o gênero não figura entre os frequentes do público brasileiro, não consta entre as categorias da maioria dos prêmios literários, ou é destaque nas livrarias e na imprensa, além de, com frequência, se distinguir da literatura, por que se interessar por ele? Nesta quinzena, recebemos o diretor e dramaturgo Gustavo Colombini, autor de peças como Colônia e O silêncio depois da chuva, tendo esta última lhe rendido uma indicação ao prêmio APCA de São Paulo na categoria de Melhor Dramaturgia. No texto abaixo, Colombini reflete sobre a importância da leitura dramatúrgica na sua trajetória e destaca a forma pela qual o texto teatral pode nos auxiliar na imersão em um outro tempo, longe da aceleração dos dias atuais. E que, para compreendermos o futuro da dramaturgia e, portanto, do teatro ele mesmo, precisamos reaprender o ato de leitura dramatúrgica.

por Gustavo Colombini*

Meu primeiro contato com teatro foi pela leitura. Nas coleções de dramaturgias clássicas, com ares de enciclopédia, imensos espantos e outras variadas sensações em relação àquele outro mundo, o dos dramaturgos mortos. Um mundo diferente das documentações, a tentarem dar conta do percurso da história, que lemos e das quais não fazemos parte. A sensação corporal que tinha naquelas leituras era a de um caótico pertencimento.

Aos poucos, aquelas parcerias me incentivaram a tentar, eu mesmo, dar corpo a esses universos autônomos – estímulos para falar, escrever, escutar. Lembro que o que mais me chamava a atenção na dramaturgia, naquelas primeiras leituras, era a construção do mundo pelo diálogo – a dramaturgia como uma heterotopia por excelência. Olhando para trás, percebo que aqueles foram meus primeiros exercícios de invenção, de descoberta das subjetividades (sobretudo das minhas), da compreensão existencial e política dos outros. São matérias que acompanham qualquer criação e, exatamente por isso, são aprendizados inseparáveis.

Em uma sucessão de causa e consequência, depois das leituras veio a vontade de um próximo passo. Nisso, a prática teatral me foi acolhedora. Era o jeito mais certo de seguir adiante com aquelas sensações que nasciam da leitura e que não se bastavam em ser sensações apenas. Há, claro, nesse falso menosprezo a beleza da insatisfação, uma procura pelo caminho seguinte, pois é a insatisfação, quem sabe, que garante essa inacabável transformação que sofrem as matérias artísticas. Talvez por isso, sempre quis que todas as peças assistidas por mim fossem também livros. Era um jeito possível de ter o incapturável, o indefinível, o inominável mais acessíveis às mãos.

É inquestionável que ter entrado em contato pela primeira vez com as artes cênicas a partir da leitura foi crucial na construção do olhar que inventei para o teatro. A dramaturgia sempre foi esse foco e esse filtro instalado em mim pela leitura – nas mãos, nos olhos, nos gestos que faço, quaisquer que sejam –, em direção às artes performativas. Sempre achei que não havia ato teatral mais completo do que o tempo de vida gasto na leitura de uma peça. E é por isso que acreditava e ainda acredito que ler uma dramaturgia é criá-la de novo, encená-la, reencená-la, recriá-la uma vez mais. A leitura, nesse caso, é a imagem de um texto palimpséstico, sendo eternamente reescrito.

Sinto que nesse tipo de pergunta (“por que ler dramaturgia?”) há qualquer dos enigmas da humanidade ou do futuro das teorias. Qualquer uma dessas coisas imaginárias que funcionam melhor pelas imagens do que pelas palavras. Assim também me parece ser com o ato dramatúrgico, toda vez que alguém se arrisca a definir ou a esboçar seus limites, encaixá-los nos espaços dos gêneros, dos tipos, das categorias. Imagino, então, sempre esse território de encruzilhadas, um lugar entre a linguagem e o mundo, entre o sujeito e a comunidade, entre variações de tempo impossíveis de condensar. Não é a própria dramaturgia que pode responder a esta pergunta, mas é só ela que deve fazê-la.

Ler os porquês alheios (nos depoimentos disponibilizados no blog da editora)[1] talvez seja a melhor forma de prolongar essa pergunta até que, um dia, no futuro, ela se autorresponda. Há nesse prolongamento uma natureza de sobrevoo constante: não podemos experimentar a totalidade das respostas e de trocas, mas passamos sobre eles de tal forma que, quanto mais perto chegamos, mais esses campos se expandem e nos escapam. Somos esse novo tipo de espectadores (e também leitores) de um fluxo cada vez mais rápido de mundo e, por isso, temos sempre alguma impressão do atraso, fadados a uma busca pela novidade. A dramaturgia estaria na contramão dessa aceleração básica: aprofunda o mundo em vez de empurrá-lo para frente. Ler (boa) dramaturgia nos lança a uma condição de permanente dessincronia. Algo se parte e, então, há outro corpo. Outra dança. Algumas novas perguntas. Outra condição de ritmo.

É provável pensar que o mundo da linguagem é um mundo de experiências do próprio corpo. Ele se cansa, descansa, percorre uma distância a uma velocidade lenta, depois aumenta a velocidade, depois para: este pode ser o relato de uma leitura, uma escrita, uma fala. São ritmos de existência física, corporal. A leitura é provavelmente o meio que dá mais espaço para a criação interior de imagens.

E, desse ângulo, acredito que a dramaturgia impulsiona o presente em direção ao futuro, tornando possível a chegada do impossível, não em nome da realidade, mas da invenção; não só pela incessante reelaboração do mundo, mas pela experiência de tantos outros. Há constante irregularidade na leitura de uma dramaturgia, assim como há nas aventuras. Ler dramaturgia é fazer parte da sua construção. Tenho certeza de que, para tentarmos compreender o futuro da dramaturgia, será preciso reaprendermos o seu ato de leitura.

O ato de ler dramaturgia está relacionado à reinvenção de uma gama de novos documentos históricos, que reescrevemos, criamos e do qual fazemos parte. Ou melhor, que não existem sem nós. É preciso ler dramaturgia para que ela mesma exista; para que uma outra e uma nova dramaturgia sempre surja.

*

Gustavo Colombini é dramaturgo e diretor teatral formado pela Universidade de São Paulo (ECA-USP). A relação com a investigação e a dramaturgia surgiu cedo no seu percurso acadêmico, somando várias publicações e distinções profissionais, como em Colônia, publicado pela GLAC Edições e indicado ao prêmio APCA na categoria de Melhor Dramaturgia, e O silêncio depois da chuva, publicado pela SESI-SP Editora e indicado ao prêmio Shell de São Paulo na categoria de Melhor Autor. É responsável junto ao dramaturgo João Turchi pelo grupo cinza, coletivo multiartístico que já se apresentou em diversos festivais, como Atos de Fala (Rio de Janeiro), EnArtes (Sucre e La Paz, Bolívia) e MEXE (Lisboa e Porto, Portugal). Foi artista residente do laboratório Perphoto, acolhido pelo Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (CET-FLUL). Já ministrou oficinas e cursos sobre dramaturgia e escrita experimental em diversos espaços culturais do Brasil, além de Argentina, Bolívia, Chile e Portugal. Frequenta, atualmente, o mestrado de Estudos de Teatro na Universidade de Lisboa e dedica-se à investigação do texto e da fala, interessando-se principalmente pelo que chama de “práticas de conferência”.

 

[1] Ver os demais depoimentos da série “Por que ler dramaturgia?” aqui.


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