- teatro

TV no palco

Publicado originalmente no jornal Fato novo, em 1970, o texto a seguir de Anatol Rosenfeld comenta a peça 'A longa noite de Cristal", de Oduvaldo Vianna Filho, e a montagem dirigida por Celso Nunes no mesmo ano

O tema de A longa noite de Cristal, de Oduvaldo Vianna Filho, não é propriamente novo no teatro. A engrenagem da indústria cultural foi abordada, por exemplo, em Roda Viva e em Dez para sete. Esta última peça, que analisa criticamente a TV, foi escrita por um homem da TV, Walter Georg Durst. Recorrendo ao teatro para questionar o seu próprio ambiente profissional, certamente esperava que a linguagem e a organização cênicas, embora talvez atrasadas em relação aos veículos industriais, lhe garantissem, precisamente por serem artesanais, maior grau de integridade criativa.

Todavia, o ângulo de Oduvaldo Vianna Filho é outro e deve-se reconhecer que a sua crítica à TV e, em extensão, às indústrias culturais em geral, é particularmente penetrante e abrangedora. Sugere os mecanismos de pressão internacionais que, em muitos casos, resultam ou tendem a resultar na corrupção dos que vivem enredados na engrenagem. No caso em foco, levam ao naufrágio humano e à destruição de um telejornalista.

Não surpreende que a crítica à indústria cultural ou de consciência – tal como, moldando consciências e série, é atualmente manipulada em amplas partes do mundo – possa ser feita com franqueza tão virulenta precisamente pelo teatro. Como meio de comunicação artesanal, o teatro é capaz de manter certa independência, bem mais ampla, de qualquer modo, que a de empresas sujeitas à pressão de anunciantes ou de um complexo sistema de produção, distribuição e exibição. Esta afirmação, evidentemente, não se dirige contra a indústria cultural como tal, cuja importância crescente é ponto pacífico.

No caso da encenação de Celso Nunes, no estúdio São Pedro, a relativa independência do teatro se afirma contra o próprio autor – o que não deixa de ser um traço característico do teatro atual. Vianinha, como se sabe, protestou contra a encenação, que não corresponderia às intenções inerentes à peça. O protesto e a defesa do Studio constam do programa (aliás, bem feito), numa atitude de honestidade exemplar. O autor certamente tem razões ponderáveis para protestar. Aparentemente, visou a uma encenação realista, direta e singela. No entanto, o próprio texto sugere um desenvolvimento cênico livre e exige amplos recursos inventivos, para tornar nítido o jogo que se desenrola, em ritmo extremamente rápido, em planos múltiplos.

Deve-se reconhecer que Celso Nunes se desincumbiu da difícil tarefa com grande habilidade, com verve, humor e mordacidade, muito feliz também na paródia das telenovelas. O espetáculo destaca-se como um dos melhores entre os que atualmente estão em cartaz em São Paulo. Para isto, contribuem os excelentes desempenhos de Fernando Torres (no papel do protagonista Cristal) e de Beatriz Segall. Em papéis menores merecem menção Regina Braga, Abrahão Farc, Lafayette Galvão, Sílvio Zilber e, particularmente, numa interpretação deliciosa, a locutora Jandira Martini.

Texto extraído de: Anatol Rosenfeld. Teatro em Crise. 1ª edição. São Paulo: Editora Perspectiva, 2014, pp. 228-229.

*A imagem que ilustra esta postagem é o fac-símile do documento da censura referente à montagem dirigida por Gracindo Jr., em 1976, quando foram impostos cortes no texto para que a peça continuasse a ser encenada.