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Subprime na ribalta

Ao construir um panorama sobre a obra teatral de David Hare, John Milton, tradutor e professor da USP, destrincha os temas do autor, que, se a princípio parecem inaptos à dramaturgia, são matérias profícuas e dignas de tragédias shakesperianas nas cenas de Hare

por John Milton 

Uma peça sobre a privatização da rede ferroviária britânica, The Permanent Way (2003); outra sobre a guerra no Iraque, Stuff Happens (2004); uma terceira sobre a revolução chinesa, Fanshen (1975); e ainda outra sobre uma favela na Índia, Behind the Beautiful Forevers (2014). Há também a trilogia de dramaturgias que criticam a decadência de algumas instituições britânicas tradicionais sustentadas apenas pela dedicação individual: Racing Demon (1990), sobre a igreja anglicana; Murmuring Judges (1991), sobre o sistema jurídico; e The Absence of War (1993), sobre o Labour Party, o Partido Trabalhista britânico. Por fim, temos O poder do sim (The Power of Yes, 2009; Temporal, 2020), sobre o crash financeiro global de 2008. Alguns trabalhos de David Hare já foram encenados no Brasil. Em 2001, José Possi Neto dirigiu o drama Ponto de vista [Amy’s View, 1997], com Beatriz Segall (1926–2018), Adriana Esteves e Marcello Antony. Em 2003, Possi comandou Cristiane Torloni em The Blue Room (1998). Sopros de vida [The Breath of Life, 2002], dirigido por Naum Alves de Sousa (1942–2016), foi estrelada em 2010 por Nathalia Timberg e Rosamaria Murtinho.

À primeira vista, a obra de Hare não parece ter um apelo dramático imediato e, de fato, não tem as características de uma peça tradicional, parecendo mais uma aula sobre o acontecimento contado. No decorrer de O poder do sim, o Autor, personagem central do enredo, questiona pessoas ligadas à crise, enquanto sua “professora”, Masa Serdarevic, uma jovem de 23 anos que acabou de perder o emprego na recém-falida Lehman Brothers, lhe esclarece termos financeiros como subprime, hedge fund, opções, credit default swaps, e outros termos chaves para o contexto do crash. Como o Autor admite: “Isto não é uma peça. É uma história. Ou melhor, é uma peça, apenas em partes. É mais propriamente uma história. E que história!” (Temporal, 2020, p. 27).

Deveras, o diretor da produção australiana de O poder do sim, acontecida no teatro Belvoir em Sydney em 2010, Sam Strong, pedia que os atores fizessem apresentações sobre termos financeiros específicos, tais como “securitized credit arrangements” [acordos de crédito securitizado] e “credit default swaps” [Swaps de Inadimplência de Crédito]. De fato, Amber McMahon, atriz que interpretou o papel de Masa Serdarevic, admitiu que antes da peça não sabia absolutamente nada sobre o mercado financeiro!

No entanto, Hare é o dramaturgo britânico mais celebrado e famoso da atualidade. Além de ter sido reconhecido por vários prêmios, suas peças também são encenadas na Broadway e lhe foi outorgado o título de Sir pela rainha Elizabeth em 1998.

Boa parte da força de suas peças vem dos ataques incisivos que ele faz às instituições públicas britânicas, geralmente controladas pelos membros do establishment, além de suas falhas para o Reino Unido contemporâneo.

Os top civil servants, isto é, os “altos funcionários de Estado”, mentem, escondem e encobrem a verdade. Em outra peça de Hare, The Permanent Way (2003), o dramaturgo investiga se a privatização das ferrovias teve alguma coisa a ver com o aumento do número de acidentes fatais. Entre os personagens estão sobreviventes dos acidentes e membros das famílias dos falecidos, e ambos os grupos foram entrevistados durante a pesquisa de elaboração da peça. Mas, na cultura corporativista, uns protegem os outros, e ninguém admite a responsabilidade. Em uma entrevista dada nos Estados Unidos para divulgar seu livro autobiográfico, The Blue Touch Paper (2015), Hare descreveu um evento dedicado aos mortos dos ataques às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001 com a presença de seus familiares. A secretária de Estado estadunidense à época, Condoleezza Rice, parecia um tanto embaraçada e ignorou os familiares ali presentes. Porém, o especialista contra terrorismo do Conselho de Segurança Nacional do governo, Richard Clarke, falou com as famílias, oferecendo seus pêsames, e admitiu que o governo dos Estados Unidos devia ter feito muito mais para antecipar e impedir os ataques. Essa admissão, tão rara por parte de um político que detinha um cargo público importante, fez David Hare chorar.

Nessa mesma entrevista, Hare fala de seu contato com as famílias das vítimas e com os sobreviventes dos acidentes ferroviários que usou de matéria em The Permanent Way. Em geral, os sobreviventes queriam esquecer o incidente e continuar suas vidas, enquanto as famílias queriam seguir os rituais de luto, insistindo numa investigação profunda das causas dos acidentes, muitas vezes difícil de se conseguir. O autor também menciona o comentário de um estadunidense, para quem essa peça lembrava os vários amigos que morreram em decorrência do HIV. Esse comentário nos faz perceber que cada pessoa é afetada por uma obra de arte de maneiras distintas, e que as peças de Hare têm a possibilidade de tocar e mexer com os sentimentos da plateia.

O mais recente exemplo disso é Beat the Devil, um monólogo sobre a experiência do autor de contrair coronavírus em março de 2020. Mais uma vez, Hare critica os políticos: “Em vez de lockdown, isolamento, desastre comercial e distanciamento social”. O público britânico merecia honestidade: “Eles [os políticos] devem confessar seus erros, parar de se esquivar e tagarelar e começar a confiar-nos a verdade”, diz o dramaturgo sobre a peça. Criticou ainda a ideia de que o primeiro ministro britânico, Boris Johnson, tenha conseguido se recuperar do coronavírus por sua “coragem” e “amor pela vida”. Hare diz que ele mesmo sobreviveu por mera sorte, e graças aos cuidados de seu médico.

As peças de David Hare conseguem extrapolar temas que podem, às vezes, parecer túrgidos, além de profundos elementos humanos. Dois de seus textos mais conhecidos são Plenty e Pravda. Em Plenty, Susan Traherne, uma ex-agente secreta, é uma mulher em conflito com o contraste entre seu passado de trabalho secreto durante a Segunda Guerra Mundial e sua vida atual, muito mais comum. Com 17 anos, a personagem havia trabalhado atrás das linhas inimigas como mensageira executiva de Operações Especiais, na França ocupada pelos nazistas. No entanto, ela lamenta a natureza mundana de sua vida atual, como a esposa cada vez mais deprimida de um diplomata cuja carreira ela mesma destruiu. Encarando a sociedade como moralmente falida, Susan tornou-se autocentrada, entediada e destrutiva, e a lenta deterioração de sua saúde mental reflete as crises da classe dominante da Grã-Bretanha do pós-guerra.

Plenty é uma metáfora sobre a situação da Grã-Bretanha após a Segunda Guerra Mundial. Os aliados haviam ganhado a guerra. Nas eleições de 1947, o Partido Trabalhista ganhou de lavada do Partido Conservador de Sir Winston Churchill (1874–1965), o grande líder do governo durante o conlito, e o Welfare State [Estado de bem-estar social], que oferece ajuda assistencial “do berço até a cova” [from the cradle to the grave], foi introduzido. As cidades industriais que haviam sido bombardeadas, como a minha cidade natal Birmingham, por exemplo, começaram a ser reconstruídas. O desemprego se manteve baixo, e pouco a pouco a economia foi sendo revitalizada, embora o racionamento de comida tenha continuado até 1951. Havia esperanças de que, usando as palavras do poeta William Blake (1757–1827), o Reino Unido se tornaria “uma nova Jerusalem”, a terra prometida. Mas isso foi apenas uma ilusão. De acordo com David Hare, houve dois momentos-chaves no Reino Unido do pós-guerra: o primeiro, em 1947, com a criação do Estado de bem-estar social, e o segundo, com a vitória de Margaret Thatcher (1925–2013) nas eleições de 1979. Entre 1947 e 1979, houve certo consenso entre os dois partidos principais sobre o valor do Estado de bem-estar, e sobre o fato de que certos serviços sociais tinham de ser mantidos. Após a eleição da “Dama de Ferro”, como Thatcher ficou conhecida mais tarde, porém, houve o sucateamento dessa política, e uma nova obediência à lei do mercado, seguindo as políticas liberais da Escola de Chicago. Assim, em Plenty, a decadência da vida de Susan após a guerra incorpora a também decadente vida britânica da época, uma sociedade cada vez mais abastada, porém vazia, que perdera sua alma. Um país mais próximo a Mammon[1] do que a Jerusalém.

Pravda, peça satírica de David Hare e Howard Brenton, explora o papel do jornalismo na sociedade. Foi encenada pela primeira vez no National Theatre de Londres, em 2 de maio de 1985, dirigida por Hare e interpretada por Anthony Hopkins, que fazia o papel de Lambert Le Roux, magnata de mídia sul-africano e branco. O texto é uma sátira à indústria jornalística de meados da década de 1980, e, em particular, à mídia australiana e ao barão da imprensa Rupert Murdoch. O título refere-se ao jornal Pravda, do Partido Comunista russo, que quer dizer “verdade”.

E é essa nova mentalidade de concorrência acirrada, de egoísmo e adoração de Mammon, que Hare critica em muitas de suas peças, especialmente em O poder do sim.

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O poder do sim aborda a falência do banco de investimento estadunidense Lehman Brothers, ocorrida em 15 de setembro de 2008, marcando o início da maior e mais recente crise financeira mundial. Mas quais foram as causas profundas do crash? David Hare foi convidado pelo National Theatre de Londres a escrever uma peça que ajudasse a entender o assunto, e entrevistou várias pessoas ligadas à quebra, tendo como resultado conversas, que seriam a base dessa dramaturgia, e que deixam claros os vícios humanos de avareza, concorrência acirrada e egoísmo. O personagem central, o Autor, fala com os demais personagens: banqueiros, políticos, jornalistas, traders, sendo alguns deles pessoas reais, como o bilionário húngaro George Soros, o ex-presidente do Fed, Alan Greenspan, ou o vencedor do prêmio Nobel de Economia de 1997, Myron Scholes.

Nessas conversas, começa-se a entender que o poderoso banco estadunidense Lehman Brothers pediu concordata, e suas ações desabaram 94,25 por cento. Foi o estopim da crise que logo se alastrou pelo planeta. O motivo da derrocada do Lehman Brothers, que explodiu a bolha imobiliária dos Estados Unidos, foi o aumento da inadimplência no crédito imobiliário – pessoas que fizeram empréstimos vantajosos para a compra da casa própria e não conseguiram pagar as prestações quando os juros chegaram a triplicar.

O poder do sim retrata um quadro assustador dos banqueiros e do capitalismo mais selvagem. “As pessoas enlouqueceram completamente por ganância.” (Temporal, 2020, p. 32) 

Os bancos haviam sido considerados instituições respeitadas, enraizadas em comunidades, semelhantes às building societies do norte de Inglaterra, como a Halifax e a Bradford & Bingley, que ajudaram pessoas comuns a comprar suas casas. No entanto, agora, só importavam o lucro e a ganância, e os acionistas dessas building societies foram atraídos pelas possibilidades dos altos lucros que poderiam ser obtidos com a venda de todo tipo de produto, estimulando, assim, que as pessoas se endividassem.

A pressão era para crescer todos os anos, ignorando os ciclos econômicos naturais de crescimento e recessão. Na peça, uma comparação muito conveniente demostra isso: “Se você perguntar a um motorista de táxi o que ele acha de trabalhar com a condição de a cada ano ter obrigatoriamente mais passageiros que no ano anterior, ele vai dizer que você ficou louco” (Temporal, 2020, p. 79). 

A irresponsabilidade é geral. O novo órgão público do Reino Unido, a FSA (Financial Services Authority) “permitiu ao Royal Bank of Scotland assumir um nível de endividamento trinta vezes maior do que seu capital próprio” (p. 47). Os corretores de hipoteca nos Estados Unidos emprestaram para um milhão de pessoas que não tinham como pagar sua hipoteca (p. 62), e essa imprudência foi exportada para o resto do mundo: “As pessoas se endividavam para comprar aviões, para comprar casas, para comprar obras de arte, para comprar tudo” (p. 71). Na noite da bancarrota da Lehman Brothers, em 15 de setembro de 2008, antes de a notícia se espalhar, o artista britânico Damien Hirst vendeu “um touro com dois chifres de ouro por 18,6 milhões de dólares […] Se o leilão fosse uma semana depois, ele teria que pagar alguém para tirar aquele touro de lá” (Temporal, 2020, p. 108).

O nível de endividamento cresceu de 3 trilhões de libras em 2003 para 63 trilhões em 2007. E, “no momento em que foi à falência, o Royal Bank of Scotland tinha ativos que valiam um trilhão e novecentos bilhões de libras” (Temporal, 2020, p. 80), mais do que o PIB da Inglaterra!

Mas Gordon Brown, o ministro de Finanças do Reino Unido de 1997 a 2007 e depois primeiro ministro de 2007 a 2010, permitia isso. O setor financeiro gerava 27 por cento de todos os impostos e representava nove por cento da economia, e durante quinze anos antes de 2007 não houve nenhum recessão. Como Brown disse: “É o fim da gangorra de prosperidade e crise!” (Temporal, 2020, p. 55).

Assim, o sistema financeiro ameaçou ruir como um dominó, com a quebra de vários outros bancos na sequência, como o Royal Bank of Scotland. “Foi o dia em que o capitalismo deixou de funcionar”, observou Hare.

Não estamos então bastante próximos das peças de Shakespeare? Não seriam o ego enorme de Henry V, que invade a França e mata inocentes para unir as Ilhas Britânicas; a crueldade de Richard III em sua ascensão ao poder; a rivalidade maquiavélica entre as filhas do rei Lear, Goneril e Regan, para conseguir a coroa do pai; ou o assassinato do velho rei Hamlet por seu irmão Claudius e a rainha Gertrude?

De fato, na peça de Hare o desdobramento do crash pode ser comparado a uma tragédia de Shakespeare, em que cada ato segue uma letra da palavra SLUMP, isto é, crise, quedra, derrocada (aqui, econômica): Subprime, Liquidez, Unravelling [desmoronamento], Meltdown [colapso] e Pumping [salvamento].

Com relação ao último ato, o governo britânico acabou sendo obrigado a investir no financeiro para evitar um colapso total. Pumping, ou “dinheiro de helicóptero”, é o termo usado, e, nesse ato final da tragédia shakespeariana, “como em todo quinto ato, havia corpos por todo o palco […] Do Royal Bank of Scotland, da HBOS, do Lehman Brothers, do Northern Rock, e isso era só o começo” (Temporal, 2020, p. 112).

Talvez O poder do sim pertença a um momento específico da história econômica recente, e sua especificidade poderia ter interesse limitado para o público brasileiro de hoje. Porém, as peças de Hare são também aulas de história, política, instituições e, aqui, finanças e economia. Em 10 de março de 2020 (pouco antes do lockdown e do fechamento das escolas e universidades em São Paulo), a Temporal Editora, ao lado Fundação Getúlio Vargas (FGV), promoveu uma discussão sobre a peça. E isso talvez seja uma das coisas mais interessantes que O poder do sim faz: trazer o mundo do business e das finanças para o palco, e levar o teatro aos estudantes de finanças e economia.

[1] Termo derivado da Bíblia usado para descrever riqueza material ou cobiça, e que também pode ser personificado como uma divindade.

 

 

John Milton (Reino Unido, 1956) é professor titular da Universidade de São Paulo em estudos da tradução. Ajudou a estabelecer o programa de pós-graduação em estudos de tradução, e foi coordenador do programa entre 2012 e 2016. Seu principal interesse é a teoria, história, sociologia e política da tradução. Publicou O poder da tradução, em 1993 (reeditado como Tradução: Teoria e Prática, Martins Fontes, São Paulo, 1998, 2010); O Clube do Livro e a Tradução, em 2002; e Um país de faz com tradutores e traduções: a importância da tradução e da adaptação na obra de Monteiro Lobato, em 2019. Fora do Brasil organizou com Paul Bandia Agents of Translation (John Benjamins, 2009) e com Şehnaz Tahir Gürçağlar e Saliha Paker Tradition, Tension and Translation in Turkey, em 2015. Ele também publicou artigos em revistas acadêmicas no Brasil e em Target e The Translator, além de traduzir poesia do português para o inglês. Junto com Marilise Bertin adaptou Hamlet (2005), Romeu e Julieta (2006), e Otelo (2008).

* No banner: estreia de The Permanent Way sob direção de Alexander Lass no The Vault Theatre em Londres, 2019.  ©Nobby Clark