- dramaturgia brasileira, teatro

Rasga Coração, uma peça de síntese

Pouco antes de falecer, em entrevista concedida a Luís Werneck Vianna, Oduvaldo Vianna Filho descreve sua peça "Rasga coração" como uma síntese entre o drama ficcional e as justaposições realizadas pelo Grupo Opinião, definindo-a como uma “colagem monodramática”

Acredito que existam dois tipos de vanguarda: a vanguarda que privilegia o estético, que acha que o estético é a essência da realidade, e uma outra vanguarda que quer poetizar a realidade profundamente, conhecer, conhecer a realidade pra transformá-la, quer dizer… que continua, intensifica a autonomia da arte. Não pra ficar na autonomia da arte, mas exatamente pra ligá-la ainda mais profundamente à realidade [...] Então são duas vanguardas, atualmente, que existem no mundo. E uma, eu acho que faço parte de uma, incorporando todas as experiências que a outra possa trazer. E estou tentando fazer isso numa peça em que eu estou tentando ligar duas coisas que a dramaturgia brasileira criou, ou pelo menos… pelo menos… manipulou até aqui. Uma é a colagem, a colagem que o Arena conta Zumbi faz, que Liberdade Liberdade fez... e outra é o teatro... é a história... Quer dizer, nunca houve ainda uma colagem e ao mesmo tempo... quer dizer, ser colagem e ser fatos acontecidos no Brasil. Fatos históricos, pitorescos, fatos de uma época etc. e tal. Mas ao mesmo tempo, essa colagem pertence a um único movimento dramático, a um único personagem, a uma única história, ao esclarecimento do interior de um personagem [...] Quer dizer, esse processo de colagem ser [sic] a história do próprio personagem. [...] Vamos juntar Opinião, juntar Liberdade Liberdade com Eles não usam black-tie. [...] Essas referências de realidade são muito importantes, de fundamentação do homem brasileiro, da história brasileira, da consciência da nossa história, da existência da nossa história, que é um fato que não existe na cabeça nossa. Então o Arena conta Zumbi, Arena conta Tiradentes um pouco eram isso. Era se atirar pela nossa tradição, não porque ela fosse muito conhecida, mas exatamente porque ela é absolutamente desconhecida. A experiência que eu estou fazendo é nessa peça chamada Rasga coração.

Eu estou tentando fazer uma colagem monodramática: ao mesmo tempo é uma história e um personagem só, tentando descrever a história de um homem que foi revolucionário durante trinta anos, lutou pela transformação do país, viveu a revolução de 1930, de 1935, de 1937. E agora enfrenta o filho que acha que o maior defeito atual do ser humano é a luta política, é participar politicamente da tentativa de organizar o mundo.

O mundo não é organizável a não ser que o homem se afaste e mergulhe no autoconhecimento, no conhecimento de si mesmo e na deliberada suspensão de projetos da organização da realidade. De ser uma pessoa que se “ajusta” à realidade, que a aceita, que a admira, que a acolhe com o máximo de respeito e que não procura intervir nela. Isso para um homem que durante toda a sua vida fez isso: sacrificou sua vida e secou sua vida inclusive, emagreceu sua vida, porque ele só privilegiou o político… Realmente, ele nem consegue dar respostas a esse filho que vem com uma série de problemas que ele também sente, de secura interior, de ausência de apetite vital, de energia vital, tudo isso realmente está acontecendo com ele…

Trecho extraído de: Oduvaldo Vianna Filho. “Entrevista a Luís Werneck Vianna”. In: Fernando Peixoto (org.). Vianinha: Teatro, televisão, política. São Paulo: Brasiliense, 1983, pp. 170-71.