- dramaturgia latino-americana, literatura chilena, tradução teatral

O movimento (con)textual: “Classe”, de Guillermo Calderón

A partir de uma análise de aspectos textuais e de montagem da peça “Classe”, do célebre dramaturgo chileno Guillermo Calderón, traduzida e apresentada no Brasil em 2019, a pesquisadora e professora Sara Rojo traz ao Blog da Temporal uma reflexão sobre os movimentos que uma dramaturgia tende a realizar em seu interior de acordo com o contexto em que se insere

por Sara Rojo

A obra Classe, do reconhecido dramaturgo e roteirista chileno Guillermo Calderón (1971), tem uma história especial que eu gostaria de relatar. O texto nasce em 2008, após a revolta dos “pinguins” por uma educação pública de qualidade – pinguins era o nome que se dava, por causa do uniforme, aos estudantes de segundo grau no Chile. Esse é o estímulo que faz com que o autor se debruce sobre uma sala de aula para criar um microclima entre um professor e uma aluna que não foi à manifestação. Era um momento histórico no qual a transição da ditadura (finalizada em 1989) para uma democracia plena se alargava sem muitos avanços estruturais no campo social e os estudantes se levantavam contra o governo vigente como uma voz de dissidência.

No Brasil, a peça ficou conhecida depois que o grupo teatral Mulheres Míticas (Belo Horizonte, mg) decidiu traduzi-la e montá-la após o impeachment da presidenta Dilma Rousseff (2011–16). A obra adquiriu um novo sentido no contexto dos governos do presidente Michel Temer (2016–18) e do atual, que retrocederam nos direitos sociais, econômicos e educacionais. Especificamente, o ano das ocupações estudantis (2015–16), que tentavam frear o desmonte da educação impulsionado pelo governo vigente, foi fundamental na construção da dramaturgia espetacular. O grupo Mulheres Míticas aprovou um projeto para a publicação de um livro via Lei de Incentivo à Cultura da prefeitura de Belo Horizonte: Mulheres Míticas em performance. Dramaturgias: O deszerto, Classe.[1] O autor Guillermo Calderón novamente cede os direitos para este novo projeto e escreve um novo desenlace para a obra. Esse ato, que coloca em questão o arquivo teatral, diz respeito a um aspecto próprio do teatro, que em pandemia geralmente perdemos. Refiro-me à mobilidade da dramaturgia espetacular de acordo com os contextos, mas o novo desenlace criado por Calderón recupera, nesta reescrita do texto dramático, essa mobilidade.

Um dado importante para entender o segundo final criado especialmente para a publicação brasileira de Classe foi a vivência do autor após as revoltas do ano de 2019. Ano emblemático para o Chile. As revoltas abrangeram todas as regiões e atravessaram todas as gerações. No primeiro desfecho, um amargurado professor termina olhando para uma estudante que, com uma inocência que às vezes nos provoca um sorriso de condescendência, o faz enfrentar suas contradições éticas. O homem se debate entre os ideais juvenis esquecidos em aulas sucessivas e o levante que acontece nas ruas. No segundo, esse mesmo professor escuta a reivindicação que explode do lado de fora da sala de aula com a lembrança da cantora e compositora Violeta Parra (1917–1967). A artista poetizou a força do futuro, dos estudantes e da ciência (hoje tão vilipendiada) quando disse:

Me gustan los estudiantes
Que marchan sobre la ruina
Con las banderas en alto
Va toda la estudiantina
Son químicos y doctores
Cirujanos y dentistas
Caramba y zamba la cosa
¡Vivan los especialistas!
[2]

Ela também poetizou a vida: “Volver a los diecisiete. Después de vivir un siglo”.[3] No segundo desenlace, Calderón coloca na fala do professor as palavras de Parra invertidas e respeitadas, na dialética que lhe é própria. Após as revoltas de 2019, realizadas nas ruas e que culminaram no plebiscito que decidiu, por 78 por cento, enterrar a Constituição da ditadura e escrever democraticamente uma nova para o Chile, o autor escreve:

Viver dezessete anos é viver um século.
Por isso, na rua, você pode considerar a
brevidade da vida.
A razão da vida.
A ética.
A forma de viver.
A rua.
A universidade da rua.
O sol sobre a terra.
O lugar perfeito para o amor.
O amor da vida a moral do amor (...)[4]

O que me interessa mostrar é que o próprio autor rompe a construção arquivística da publicação original de Classe[5] para realizar um outro movimento nesta nova publicação. Entendo, com Deleuze, que “o movimento é uma translação no espaço. Ora, cada vez que há translação das partes no espaço, há mudanças qualitativas num todo”.[6] Portanto, cabe agora se perguntar qual é a mudança qualitativa no todo (peça teatral) que o novo desenlace introduz.

Temos que pensar nos conceitos de distopia e utopia. Se no primeiro desenlace textual, o autor nos falava de um mundo distópico no qual o desejo de mudança só existia envolto num mar de contradições nos jovens, no segundo, esse desejo se estende para aquelas gerações atravessadas pelas frustrações de uma longa espera por transformações dentro de uma transição na qual só existia a justiça “na medida do possível”. Isso, segundo as palavras do primeiro presidente em democracia do Chile, Patricio Aylwin (1990–94), e evocadas na outra peça publicada na mesma edição, O deszerto.

O dramaturgo italiano Dario Fo (1926–2016) reescrevia seus textos de acordo com as novas experiências que o atravessavam. Calderón, em sua saga, faz um movimento semelhante e é nessa mesma linha que na montagem brasileira o professor se desdobra, agora, em dois personagens: um professor e uma professora. A companhia Mulheres Míticas queria marcar que os lugares de poder não estão apenas definidos pelo gênero, mas nas estruturas de pensamento que perpassam os corpos, assim como uma mudança estrutural não está só nos jovens (mesmo que eles possam ser impulsores de vida nova). Acredito que o segundo desenlace criado por Calderón abre essa comporta de troca entre gerações diferentes, entre experiências vividas na rua e na sala de aula:

E com essa lição vão voltar a entrar
Nesta classe.
E você vai me ensinar.
Vai me dar uma aula.
Vai me contar o que viu
O que a rua te ensinou.
E eu vou escutar
Vou te escutar.
Em silêncio.[7]

Esta análise coloca por terra a base estrutural da dramaturgia de Guillermo Calderón. Refiro-me à contradição presente nas suas personagens e na temática. A resposta é não. A personagem que finaliza a obra é o professor, a diferença do primeiro desenlace que termina nas questionadoras palavras da menina. Observemos um trecho desse primeiro desfecho:

Meus colegas lá fora ficam lindos de
Uniforme.
Mas o Estado vai continuar traindo cada
um deles.
E a história desse golpe vai ficar para
Sempre com a gente
Vamos ser a nova geração decepcionada
da República.
Vamos ser como você, mas com mais sorrisos,
E talvez algum dia a gente consiga ver o
Fim dos mistérios
O fim da repressão nas escolas

No segundo, é o professor que finaliza, e ele continua com seus questionamentos, mesmo que agora esteja disposto a escutar:

Há perguntas que não posso responder.
Quem são os maus?
Não sei.
O que é a ética?
Eu não sei.
Mas na rua eles sabem.[8]

As contradições não acabam e não têm que acabar, são a única forma para avançar, e isso está na obra como um todo; mas elas devem se manifestar na escuta. Talvez seja isso o que está em falta em nossa convulsionada América Latina.

[1] Guillermo Calderón, Classe. Tradução de Gabriela Figueiredo, Sara Rojo e A. Rojo. In. Felipe Cordeiro e Sara Rojo (Orgs.), Mulheres Míticas em performance. Dramaturgias: O deszerto, Classe. Belo Horizonte: Javali, 2020. Outras obras do autor em português são: Neva (2009), publicada pela editora EDUFBA, e Escola (2018), publicada pela editora Javali. No Brasil, também tiveram repercussão os filmes de Pablo Larraín com roteiro de Calderón: Violeta se fue a los cielos (2011) e Neruda (2016).

[2] Ver a letra completa da canção aqui. Acesso 16 abr. 2021.

[3] Ver a letra completa da canção aqui. Acesso 16 abr. 2021.

[4] Guillermo Calderón, ibid., pp. 193–94.

[5] Id. Clase. In. Teatro I. Santiago: Lom, 2012.

[6] Gilles Deleuze, Cinema I. A imagem movimento. Tradução de Stella Senra. São Paulo: Editora 34, 1983.

[7] Guillermo Calderón, op. cit., pp. 194–95.

[8] Id. ibid., pp. 191–92.

 

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Sara Rojo é pesquisadora (CNPq), diretora teatral e professora titular da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

No banner: grupo Mulheres Míticas em cena do espetáculo Classe, dirigido por Sara Rojo


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