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O jogo teatral em estado pleno

Em artigo veiculado no “Jornal do Brasil”, em 1984, o crítico Macksen Luiz analisa o espetáculo “Mão na luva”, apresentado por Marco Nanini e Juliana Carneiro da Cunha, e dirigido por Aderbal Freire Filho, e comenta as particularidades e as aproximações entre este texto e as demais obras do conjunto de Oduvaldo Vianna Filho

por Macksen Luiz

 

A morte em 1974 de Oduvaldo Vianna Filho interrompeu uma das mais fulgurantes carreiras de dramaturgo do nosso país. Ao entrar em contato com Mão na luva, texto que escreveu em 1966, fica-se, no mínimo, surpreendido com a força de uma peça que na aparência difere tanto da obra de Vianinha (afinal, o autor confronta um casal em fim de linha, deixando de lado as preocupações políticas e sociais) mas que na essência é extremamente coerente com seu universo, além de expressar aquilo que tinha de melhor como criador: a generosidade. Mesmo escrita há tento tempo, permaneceu inédita, não se sabe ao certo se por decisão do autor ou apenas à espera de que ele desse retoques finais. A morte acabou com qualquer projeto e, somente em 1981, Mão na luva foi revelada. O curioso é que Vianna Filho a escreveu durante os ensaios de Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, texto-espetáculo do Teatro Opinião, no qual se buscava o coletivo. Delicada, investigando os motivos que corroeram um casamento, Mão na luva secciona a perspectiva social, transferindo o conflito para um apartamento, para o final de uma relação afetiva de sete anos.

Quem conhece, por exemplo, Corpo a corpo, A longa noite de Cristal e ainda Rasga coração não estranhará que Mão na luva trate de tema tão particular. Embutido em cada um de seus textos, Vianna Filho sempre discutiu o individual, colocando seus personagens, especialmente o homem, numa posição de fraqueza, às vezes ideológica, outras emocional. A traição de algumas ideias em nome da sobrevivência, o medo de enfrentar a si mesmo diante de uma questão ética e a figura da mulher como elemento oprimido pelo brilho e inteligência de seu parceiro, mas igualmente lúcida a respeito de suas limitações, estão presentes, aqui e ali, ao longo de sua dramaturgia. Mão na luva, no entanto, traz, tal como uma lente de ampliação, esses problemas para a frente da cena, deixando um homem e uma mulher frente a frente, sós, num corpo a corpo sem máscaras.

Está presente nesta peça o brilho dos diálogos de quem sempre soube usar as palavras como uma arma, como um estilete que vai ao fundo do que se pretende dizer. As palavras se decompõem, joga-se com o seu sentido, camufla-se e revela-se, é esse o engenho que o autor arma para melhor sustentar sua guerra conjugal. O próprio título – Mão na luva – se explica por esta riqueza verbal. Há na peça uma carga emocional enorme, alicerçada numa diabólica construção estilística. Presente (a comunicação da separação pela mulher e os atritos decorrentes), passado (os diversos fatos que corroeram a afeição entre o casal), memória (os sentimentos que os ligavam) e confronto (a luta psicológica de dois náufragos prestes a se afogarem) se equilibram no mais límpido e clássico jogo teatral.

Mesmo quando a ação se torna um tanto recorrente, em função das voltas dos personagens em torno de seus próprios limites, Mão na luva não perde sua voltagem. Jogo emocional e esgrima intelectual, a peça é definitiva como exercício de dramaturgia e uma evidência a mais de generosidade e talento incomuns.

Não foi por acaso que Mão na luva chegou até Aderbal Júnior. Sem querer fazer qualquer trocadilho, o texto veio ter às mãos certas. Num momento de desânimo e desalento por que passa nosso teatro, é confortador reencontrar-se com a teatralidade num palco. Rever um trabalho de construção teatral rigoroso, criativo, cheio de nuanças e carregado de inteligência.

Aderbal usou o seu código muito pessoal de direção. Das marcações circulares a uma exploração interpretativa detalhada, elaborou uma transcrição cênica a qual não escapou, sequer, da pesquisa sonora do rico diálogo. As palavras repetidas em gravação marcam um tempo emocional tão forte e a máscara do ator é explorada em suas múltiplas dimensões (basta lembrar a extraordinária dublagem da cena das rosas quando a imagem do “homem de duas faces” fica nítida para o espectador).

As cenas se armam e se desfazem quase ao ritmo de valsa tocada ao sinal da inexorabilidade e da dependência da união, e mantém uma circularidade de movimentos eficiente para demonstrar, tanto a angústia das conversas à mesa do jantar quanto para revelar as fissuras do jogo do medo.

O espetáculo de Aderbal Júnior é límpido na sua elaboração, projeção emocional de uma análise depuradíssima de sua essência. O diretor parece ter investigado cada meandro dos dois personagens, pinçado de cada palavra o seu sentido mais profundo, armado a cena com o despojamento e a simplicidade de quem confia no material de que dispõe e na inteligência de quem irá consumi-lo.

A inspirada iluminação que é parte integrante do tempo dramático da narrativa, os quase simbólicos adereços cênicos – mesa, cadeiras, porta, janela – que funcionam como sinais de rotina, evasão e partida e a teatralidade de uma trilha sonora que é um outro personagem fazem de Mão na luva uma unidade estética que nos devolve o prazer da fruição da mágica teatral.

Os atores Marco Nanini e Juliana Carneiro Cunha se afinam de tal forma que desenvolvem movimentos que sempre se completam. Transmitindo uma forte compreensão dos personagens, funcionam como um espelho refletor capaz de reter até mesmo pequenos e desprezíveis detalhes. Juliana, num meio sussurro, menciona a necessidade de seu personagem em criar brincadeiras para abafar o conflito com seu parceiro, repetindo na mesma entonação parte do diálogo que havia dito minutos antes. Marco Nanini torna emocionante a cena em que cantarola Villa-Lobos tendo ao fundo a gravação de sua própria voz. São detalhes que reforçam interpretações irrepreensíveis, interiorizadas, inteligentes, tocando desta forma, o núcleo do fazer teatral. Em cena, Juliana e Nanini intercambiam experiência que chegam até o público em estado pleno.

 

Texto publicado originalmente no Jornal do Brasil em edição de 1984.