- dramaturgia internacional

O estranho por trás da palavra

Nesta quinzena, o nosso blog traz aos leitores o trecho de um ensaio de Gitta Honegger no qual a professora, diretora teatral e biógrafa de Thomas Bernhard apresenta alguns traços gerais dos personagens criados pelo dramaturgo, ressaltando o peso mortífero que a linguagem ossificada e a cultura humanista em decomposição exercem sobre as elites culturais, políticas e econômicas austríacas (mas também alemãs) do segundo pós-guerra, contexto de onde Berhnard extrai seus personagens centrais. Assim, embora focado na peça “Praça dos Heróis”, o excerto a seguir apresenta uma visão mais ampla a respeito da construção dos personagens bernhardianos.

por Gitta Honegger 

“Isso tudo me parece tão familiar”, disse Bernhard Minetti, um dos maiores atores alemães do século XX, depois da première em 1976 de Vor dem Ruhestand [Antes da Aposentadoria] de Bernhard, uma provocante “Comédia da alma alemã”, subtítulo dado pelo autor à peça.[1] Ela retrata um juiz alemão e ex-comandante de campo de con­centração na véspera de se aposentar, celebrando, como todos os anos, o aniversário de Himmler junto com suas duas irmãs.

[...] Praça dos Heróis reflete a retórica de Vor dem Ruhestand em uma reversão bizarra: o falante é judeu. Um respeitado professor universitário e refugiado de Hitler, ao voltar à sua cidade, Viena, se vê cercado pelos mesmos tipos de valores defendidos pelo juiz prestes a se aposentar e sua família. Ao demonstrar sua revolta em um discurso hiperbólico, tão típico de Bernhard, ele se torna indistinguível dos outros personagens bernhardianos. O mecanismo da dramaturgia do autor é a sua mensagem perturbante. A língua fala. Ela constitui culturas. A vítima se funde ao agressor, sufocado pela linguagem, que fica reencenando a sua história em comum. O estranho por trás da palavra é o outro do qual se tem medo, aquele que soa tão familiar que precisa ser silenciado. Um fala; o outro está sempre em silêncio na dramaturgia bernhardiana. O drama real está na linguagem. A mínima ação física nos palcos é a sua perversão melodramática. Os falantes podem ser trocados. As suas ações não são mais motivadas por escolhas, mas sim animadas pela gramática. Heidegger encontra Wittgenstein numa conjunção mortal de história e sintaxe.

A arte erudita, tão querida aos corações alemães (e ainda mais aos austríacos), é o ópio para uma elite de sobreviventes. O ex-coman­dante de campo de concentração que depois se tornou um honorável juiz (Vor dem Ruhestand) escuta sua irmã tocar Mozart para ele no pia­no e coloca para tocar uma gravação da Quinta Sinfonia de Beethoven durante a festa do aniversário póstumo de Himmler, a qual acaba, de modo abrupto, com seu ataque cardíaco. O general (Die Jagdgesell­schaft), que sobreviveu a Estalingrado, escuta a Sinfonia em Ré Maior de Mozart antes de se suicidar, ao final de uma longa noite de reflexões filosóficas com seus convidados. O professor [Robert] Schuster (Praça dos Heróis) e seu irmão suicida tinham retornado a Viena por amor à música. En­quanto o primeiro era capaz de aproveitar um concerto mesmo com a plateia cheia de nazistas — “os concertos cheios de nazistas” — e escutar Beethoven sem pensar nas Reuniões do Partido Nazista em Munique, tudo isso era sempre um pesadelo para o outro — “Pois ele só conseguia ouvir a música depois que conseguisse ignorar as convicções nacional-socialistas dos espectadores da Musikverein”.[2] Em Ritter, Dene, Voss, a irmã do filósofo põe para tocar um quarteto de cordas de Beethoven após uma desastro­sa refeição de boas-vindas para seu irmão, que tinha acabado de retor­nar do hospital psiquiátrico. A Eróica (conduzida por Knappertsbusch) constitui o fundo musical para sua queda ao chão com uma bandeja da bela porcelana da avó, Groimuttergeschirr.

A arte é imoral. Ela não melhora a natureza do homem, como havia mostrado a história recente, e ela também falha como for­ça redentora. A base da cultura austríaca, o centro transcendental da (re)construção da identidade dos austríacos depois da Segunda Guerra Mundial, é quebrada em pedaços junto com a porcelana da avó. O último sobrevivente no palco bernhardiano é o ator, que empresta seu nome ao estranho por trás da palavra não cumprida.

Os personagens dramáticos de Bernhard são os últimos representantes do patriarcalis­mo humanista que se extinguiu em duas guerras mundiais.

 Seus papéis são reencenados infinitamente. Na tradição nativa das grandes perfor­mances, eles voltam à vida — um sombrio teatro dos mortos — den­tro e fora dos palcos, postos em movimento pelos fios da linguagem.

Os cenários bizarros têm a familiaridade de um culto ancestral em declínio. A linguagem – destilada de idiomas locais e levada a seus limites por repetições, variações e inversões — tem o tom familiar do lugar comum, distorcido na câmara de ressonância do passado. O elenco de personagens intercambiáveis e o caráter repetitivo das mise-en-scène são intrínsecos à sua visão de mundo.

 

[1] Citado por Peter von Becker. “Die Unvernünftigen sterben nicht aus: Über Thomas Bernhards. Vor dem Ruhestand”. Theater Heute, p. 4-6, ago. 1979.

[2] Thomas Bernhard. Praça dos Heróis. Tradução de Cristine Röhrig. São Paulo: Temporal, 2020, p. 86.

 

Trecho extraído de Gitta Honegger. “O estranho por trás da palavra: das peças de Thomas Bernhard ao teatro anatômico de Elfriede Jelinek”. In. Matthias Konzett (Org.). O artista do exagero: a literatura de Thomas Bernhard. Organização da tradução e introdução de Ruth Bohunovsky. Curitiba: Editora da UFPR, 2014, pp. 203-07.

* No banner Cornelia Köndgen e Irene Kugler interpretam as irmãs Vera e Clara na montagem austríaca de Vor dem Ruhestand, em 2017, no Stadtheater Klagenfurt (Teatro municipal de Klagenfurt).