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O desconexo

Botho Strauss, embora já tenha sido publicado no Brasil, por muitas vezes permaneceu incógnito. Por ocasião de seu aniversário, que se comemora em 2 de dezembro, a Temporal pretende esmiuçar a personalidade do autor de "Trilogia do reencontro". O Blog traz, nesta quinzena, o depoimento de Heinz Strunk, organizador alemão responsável por coletar e reunir escritos de Strauss em uma antologia, para a qual escreveu o seguinte texto como posfácio. Neste, é possível identificar interessantes elementos do estilo de Strauss, mas há um alerta: “só é possível conhecer este escritor de fato através de um livro”.

por Heinz Strunk

Suas frases martelam, perseguem, são febris: Por favor, leiam Botho Strauss. Ele é o ator da minha vida.

No começo dos anos oitenta, com 22, 23 anos, me deparei com Botho Strauss enquanto esmiuçava a biblioteca Harburger sempre em busca de novas leituras e, mais ou menos por acaso, peguei o então recém-lançado Paare, Passanten [Pares, passantes]. Já tinha ouvido falar deste livro, o mais popular dele até hoje; em uma conferência, falou-se algo sobre um “livro cult e intelectual das esquerdas”. Ou algo assim.

Abri na página 55, a “Mensagem de um cambojano à sua mulher, antes de ser executado pelo Khmer vermelho”. Este texto de vinte linhas me atingiu com tanta força que me vieram lágrimas aos olhos. Não imaginava que existia algo assim. E depois de ter terminado de ler o livro, era certo que eu leria tudo de Botho Strauss.

Não acontece muitas vezes que um leitor se depare com um autor em quem possa se encontrar de modo tão completo e que mexa tão profundamente consigo, como somente a literatura é capaz, mas isso aconteceu comigo em relação a Botho Strauss.

Há muitos anos, muito antes de eu tentar algo com a escrita, comecei a reunir meus textos preferidos de Botho Strauss e a colocá-los lado a lado, sempre os agrupando de modo novo na tentativa de montar um todo. Isso aconteceu sem um objetivo definido, só para mim, com tesoura e cola. No fim, levei a coletânea a uma copiadora: se tornou uma seleção fragmentada, poderíamos chamar assim (pelo que se diferenciava também da seleção notável de Thomas Hürlimann, Sie/Er [Ela/Ele], publicada em 2012). A seguir, de modo imperceptível, intensidade e ritmo foram aumentando a cada nova versão e, para mim, era como se os próprios textos se inserissem sozinhos em uma sequência obrigatória. Minha seleção é, por isso, menos representativa, muito mais subjetiva e corresponde agora a trinta anos de experiência de leitura.

Isso também tem a ver com o fato de que eu, de uma casa de músicos, considero Botho Strauss um dos escritores mais musicais, com um senso infalível para a composição e a melodia, mas, sobretudo, para o ritmo. Suas frases martelam, perseguem, são febris, como que trazidas de um pulso imaginário para a prosa sem ar, comparáveis às frases musicais alucinadamente rápidas de um Charlie Parker. A expressão “nenhuma palavra a mais e nenhuma a menos” também soa verdadeira no que se refere a Botho Strauss.

Em 2008, eu estava parcialmente satisfeito com a minha seleção. Mandei encadernar alguns poucos exemplares para presentear amigos muito bem escolhidos e em ocasiões bastante especiais. Estava orgulhoso disso, como se eu mesmo tivesse escrito. Três anos depois, dei o volume ao meu editor Alexander Fest que me sugeriu entrar em contato com Botho Strauss e seu editor.

Meu livro está aí para aproximar de Strauss os que não leram nada dele, ou quase nada, que, por ouvirem boatos, são da opinião de que ele é complexo demais, elitista, desgastante – a alta literatura sem graça?, ou para aqueles que, depois de Anschwellender Bockgesang [O crescente canto do bode], o consideravam suspeito de ser representante de uma nova direita. Só é possível conhecer este escritor de fato através de um livro: Strauss,, como ele mesmo diz, “um desconexo”, que há muitos anos retirou-se para morar em Uckermark, perto da fronteira polonesa, pertence a um tipo de intelectual praticamente extinto. Nunca aceita participar de talkshows, quase não dá entrevistas e, também, não faria nenhuma das tolices às quais todos nós somos induzidos para divulgar nossos trabalhos.

Podem pegar minha edição nas mãos, ler algumas páginas e deixá-la de lado novamente; não posso dizer se ela serve para ser lida por completo, na sua densidade incomum. Minha percepção é de que os textos têm efeitos mais duradouros se ministrados em pequenas doses. Nas pausas da leitura, se estabelecem apoios, ligações subliminares que se encaixam como um todo em uma atmosfera – para mim – em uma concepção. 

E quais são as linhas que conectam tudo isso? Lá está o amor de Strauss pelo fantástico, pelo fabuloso, com suas incontáveis cifras e símbolos: um armário rústico povoado por pessoas feitas de caixas; um diálogo entre uma grelha e um chiclete mascado; um solitário que pretensamente recebe a visita de 100 mil ogros que dificultam sua vida (na verdade, são somente 130); Bernd se apaixona pela bela da árvore, e a comerciante da beira alta se encontra, certa manhã, cem metros acima dos telhados da cidade.

Daqui é somente um passo para o pesadelo, o horror e o susto sem limites: o convidado se transforma, de glutão vira uma única goela gigante, a boca das bocas; Franz K. vai encolhendo até ficar do tamanho do pequeno polegar; o homem que está atrás no cinema se revela como sendo o primeiro causador do mal, o “destruidor das manhãs da vida”; um homem que, só por conta de uma chave de casa perdida, esmaga sua mulher por entre as grades de um portão fechado; um paciente aparentemente morto no hospital, em cujo rosto já foi colocado o pano de linho e que mordeu o lenço para tirá-lo do rosto - um cadáver com uma boca que continua devoradora. E a história do caçador enfiado de volta em casa que pelos degraus da metamorfose da cobiça chega até o limite da deformação, supera o auge da degeneração.

E lá está Botho Strauss, o cronista do presente, apto como nenhum outro a observar com uma exatidão sem precedentes as pessoas engatinhando, seres híbridos terríveis, delineados apenas de modo fugaz, paixões abomináveis, os débeis e desfigurados, os doidos dos acidentes, apto a capturar os destinos das pessoas em um instante de verdade, mas, ao mesmo tempo, no outro extremo, escreve sobre sensibilidade, toque, sexo, homens e mulheres, como nunca em nossa língua antes dele.

No entanto gostaria de mencionar também que muitos textos até hoje permanecem um mistério para mim. Mesmo depois de repetidas tentativas, não entendi. Mais uma razão para continuar e, de tempos em tempos, tentar novamente. É bom que permaneçam alguns mistérios.

A prosa de Strauss é tocante e alegra e, com todo o seu peso, tem uma leveza nas passagens decisivas, algo de que só um mestre é capaz. Eu não conheço ninguém que se iguale a ele. Botho Strauss é o autor da minha vida.

 

Heinz Strunk, alemão, autor de Fleisch ist mein Gemüse [Carne é minha verdura], reuniu os textos de Botho Strauss em uma antologia, Der zurück in sein Haus gestopfte Jäger [O caçador enfiado de volta em casa], da qual este texto é o posfácio, e foi posteriormente publicado no periódico Frankfurter Allgemeine, em 30 de março de 2014. foi lançado. Traduzido por Alice do Vale exclusivamente para a Temporal.

 


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