- dramaturgia brasileira

O “atravessamento” da linguagem cinematográfica na peça teatral "Rasto atrás", de Jorge Andrade

A dramaturgia moderna busca retirar de cena a ilusão que cercou, por vários anos, as peças clássicas, românticas e realistas. Os rompimentos com a linearidade tradicional e as vivências do tempo interior são as marcas deste novo teatro, do qual Jorge Andrade (1922–1984) é um exímio representante

No ciclo dramatúrgico que Jorge Andrade denominou de Marta, a árvore e o relógio, formado por dez peças teatrais,[1] escritas entre 1951 e 1969, e que cobrem cronologicamente importantes períodos da nossa história (ciclo do ouro, do café e da industrialização), podemos localizar inúmeras rupturas e inovações na construção dramática proposta pelo autor. Nos textos, identificamos uma variedade dos chamados “atravessamentos”, tendo como base o conceito de Christophe Bident, professor da Universidade Paris VII, que assim questiona e define este “teatro atravessado”: “Qual é esse teatro que nós podemos qualificar de ‘atravessado’? É a visão puramente abstrata de um espaço de representação em que intervêm corpos e linguagens”.[2] Alguns atravessamentos presentes na peça Rasto atrás são: a biografia do autor (base de toda a narrativa da peça); o período histórico brasileiro entre 1922 e 1965 (intervalo em que transcorre toda a ação da peça, relacionado às quatro diferentes idades do protagonista Vicente – 5, 15, 23 e 43 anos), que é representado por vezes separadamente, por outras concomitantemente; e a linguagem cinematográfica (presente na construção fragmentada do texto e na utilização de projeções de filmes e slides). Esta última é justamente o que queremos aqui registrar, isto é, o “atravessamento” da linguagem cinematográfica nesta peça teatral, concluída em 1965, que conquistou o primeiro lugar no concurso do Prêmio Serviço Nacional de Teatro no ano seguinte.

Assim como em A moratória, primeira peça de Jorge Andrade, escrita em 1954, ano em que o autor era ainda aluno da Escola de Arte Dramática (EAD) de São Paulo, em Rasto atrás temos novamente uma ação simultânea que se passa em tempos diferentes, em que podemos acompanhar a vida dos personagens entre o período já destacado de 1922 a 1965. Entretanto, podemos identificar que essa simultaneidade, que faz parte do “atravessamento” da linguagem cinematográfica, aparece de forma diferenciada em cada uma das peças: se em A moratória Jorge Andrade coloca a ação de duas épocas – 1929 (passado) e 1932 (presente) – que transcorrem ao mesmo tempo no palco, em Rasto atrás, oscilamos entre os anos em cenas alternadas, sem ordem cronológica estabelecida, numa rapidez de flashes cinematográficos comoventes e esclarecedores.

Para elaborar este texto, Jorge Andrade fez uso da narrativa épica, baseando-se em suas vivências pessoais que estão presentes em várias cenas e que podem ser identificadas a partir de entrevistas e depoimentos do próprio autor. Do ponto de vista técnico, o uso de imagens filmadas (dos filmes) e slides em um grande número de cenas da peça mostra uma complexa concepção técnica. Essas inovações possibilitaram ao autor ampliar ainda mais o rompimento com uma dramaturgia tradicional, caracterizada pela narrativa cronológica e linear.

A opção do autor em usar o cinema como recurso dramático, é indicada por meio das rubricas do texto, nas cenas reproduzidas a seguir:

PRIMEIRA PARTE

Época: de 1922 a 1965.

Cena: Quando se abre o pano, alguns casais estão sentados em um cinema: entre eles, Vicente e Lavínia. Ouvem-se assobios de protestos.

Vozes: Acenda a luz! Êta galinheiro. Pardieiro. Miauuuuu! Áu, áu, áu, áu! (Risadas) Miauuuuuuuu! Larga o osso!

[...]

(Subitamente, uma grande tela é iluminada, onde está sendo projetado o filme “As Aventuras de Tom Jones”. Passa-se a cena da caçada. De repente, Vicente, aflito, levanta-se.).[3]

E seu diálogo com o cinema continua, valendo-se, em outra cena, ainda da Primeira Parte da peça, da projeção de slides:

(O apito do trem se transforma, lentamente, em som de buzina de caça. Voltam os latidos dos cães. Vicente e Lavínia desaparecem. À medida que aumentam os latidos dos cães e se acentua o som da buzina, corta-se o filme. A projeção de “slides” coloridos sugerindo uma floresta ambienta abstratamente a cena.).[4]

Frames do longa-metragem "As aventuras de Tom Jones". Em cena, os personagens Tom Jones e Sophie Western. 

 

No que se refere à encenação de Rasto atrás, estreada em janeiro de 1967, é importante lembrar que Gianni Ratto (1916–2005) voltava a dirigir outro texto de Jorge Andrade após doze anos de intervalo, quando realizou em 1955 A moratória, em São Paulo, com produção da Companhia Maria Della Costa. Mais uma vez, dotado de experiência, sensibilidade e criatividade, Ratto foi responsável pela direção e cenografia desta que foi a primeira montagem do texto de Andrade, no Teatro Nacional de Comédia (TNC), companhia criada e mantida pelo Serviço Nacional de Teatro, localizada na cidade do Rio de Janeiro. A crítica destacou a renovação que representou a montagem, destacando o trabalho do diretor italiano com esta obra-síntese do universo andradiano:

O comoventemente bonito espetáculo dirigido por Gianni Ratto é pelo menos tão estimulante e renovador quanto o texto. Raramente vmos, nos últimos anos, uma concepção de mise-en-scène tão ousada, tão inspirada, e ao mesmo tempo tão completamente realizada, esclarecedora em relação às intenções e ideias do autor. Desde o espetacular cenário do próprio Gianni Ratto que aplica – pela primeira vez no teatro brasileiro, ao que parece – as técnicas de projeção cinematográfica integrada com ação cênica, tão divulgadas na Europa, e tão eficientes [...].[5]

O ensaísta Yan Michalski (1932–1990), em sua segunda crítica sobre a peça publicada no Jornal do Brasil, detalha a cenografia do espetáculo, destacando o perfeito diálogo entre a cena e as projeções de filmes e de imagens fotográficas através de slides, como solicita o texto de Jorge Andrade:

A concepção cenográfica de Ratto apoia-se em três pontos: um palco giratório, que assegura as rápidas mudanças de cena exigidas pela peça; painéis brancos que descem do urdimento – na hora certa e silenciosamente, coisa rara entre nós – e quebram a monótona nudez do palco, além de servirem de tela às projeções; e finalmente, estas projeções, que constituem o terceiro ponto, o mais importante de todos. Pela primeira vez no Brasil, ao que nos parece, temos aqui uma convincente demonstração daquilo que parece ser o grande futuro da cenografia: o uso das projeções fotográficas e, principalmente, filmadas, intimamente integradas na ação cênica. Vale a pena ressaltar, particularmente, o emocionante efeito impressionista dos slides coloridos (pintados pelo próprio Gianni Ratto), que ambientam, abstratamente, a ação passada no campo e na floresta; e o notável efeito do cenário filmado na cena da rua e da estação, logo no início da peça.[6]

É importante destacar que, ainda que as indicações em relação ao uso das projeções tenham partido do próprio Jorge Andrade, que as inseriu pontualmente entre as cenas de Rasto atrás, observamos que a direção do espetáculo, conduzida por Gianni Ratto, ampliou o uso dos filmes e slides projetados, fazendo com que esse “atravessamento” cinematográfico fosse levado ao palco não só como forte elemento cenográfico, mas também como um condutor dramático da narrativa fragmentada de que constitui a peça – como bem revelaram as análises das anotações feitas pelo diretor, em seu caderno de direção, os depoimentos dos atores e as críticas publicadas à época.  

Reconhecido por desenvolver uma dramaturgia que apresenta o homem inserido em seu contexto histórico e por fazer uso de procedimentos formais inéditos – dentre os quais, o aspecto de ruptura, com destaque para o atravessamento da linguagem cinematográfica discutido neste artigo –, que contibuíram para a modernização da dramaturgia brasileira, Jorge Andrade é um dos maiores autores do teatro nacional moderno. Clássicos, seus textos definitivamente merecem ser lidos e encenados.

[1] As confrarias, Pedreira das almas, A moratória, O telescópio, Vereda da salvação, Senhora da Boca do Lixo, A escada, Os ossos do Barão, Rasto atrás e O sumidouro.

[2] Christophe Bident, “O teatro atravessado”.  ARJ – Art Research Journal / Revista de Pesquisa em Artes, v. 3, n. 1, 2016, p. 51.

[3]  Jorge Andrade, “Rastro atrás”. Marta, a árvore e o relógio. São Paulo: Perspectiva, 2a ed., 2008, p. 459.

[4] Ibid., p. 461.

[5] Yan Michalski, “Rasto atrás”. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 de janeiro de 1967.

[6] Yan Michalski, “Rasto Atrás II”. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1 de fevereiro de 1967.

Antonio Gilberto é mestre em história e historiografia do teatro e das rtes (HTA) pelo Programa de Pós-Graduação em artes cênicas (PPGAC) do Centro de Letras e Artes (CLA) da UNIRIO, com pesquisa dedicada à dramaturgia de Jorge Andrade. Bacharel em artes cênicas (com habilitação em direção teatral) pela UFRGS e em psicologia pela PUC-RS, atua profissionalmente, como diretor, professor, pesquisador e produtor teatral desde 1984, no Rio de Janeiro e em outras cidades do Brasil.

*No banner (esq. para dir.): o autor Jorge Andrade;  cena da montagem de Rasto atrás, de autoria de Gianni Ratto (1967); o diretor teatral Gianni Ratto; elenco de Rasto atrás (1967)