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Entre a instabilidade e a melancolia: o retrato da militância no pós-1964 em “Moço em estado de sítio”

Inédita até 2021, a peça "Moço em estado de sítio", publicada pela Temporal, revela um passo muito importante para a compreensão da obra de Oduvaldo Vianna Filho, um dos principais dramaturgos brasileiros do século XX. A peça evidencia o testemunho de uma geração de artistas e intelectuais militantes que sonhavam com a transformação da sociedade por meio do fazer artístico, e que assistiu sem possibilidades de resistência a implantação violenta do golpe civil-militar de 1964

por Rafael de Souza Villares

Moço em estado de sítio apresenta um mapeamento das posições políticas adotadas pelos artistas e intelectuais no momento posterior ao golpe de Estado implementado à época. É possível compreender, por meio da interpretação dada aos personagens, o debate público daquele momento. No texto, cada integrante do grupo teatral, núcleo que abre a peça, assume um posicionamento estético-político distinto, o que revela o problema enfrentado pelas esquerdas no período, isto é, a bipolarização entre, pelo menos, dois blocos constituídos que divergiam sobretudo quanto a questões de forma e conteúdo. A forma defendida pelos artistas ligados ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) alinhava-se ao realismo crítico pensado por György Lukács, corrente bastante questionada pelos chamados “vanguardistas”, que, por sua vez, buscavam a alegoria inspirada nos happenings e na performance. Quanto ao conteúdo, os militantes do PCB procuravam retratar por meio da subjetividade uma crítica mais abrangente, enquanto os “vanguardistas” objetivavam, por meio de uma estética mais agressiva, despertar no público certo incômodo, o que poderia, segundo a visão desses artistas, resultar numa ação política.

Essas divergências podem ser observadas, por exemplo, no debate travado entre os personagens Lúcio Paulo, o protagonista da peça, que se posiciona a favor do teatro político e da militância, Jean-Luc, representante das convicções da cultura existencialista, e Estelita, que defende o esteticismo, a arte pela arte e não sua condição política. Com isso, Vianna Filho traz à tona o cerne da questão do pós-1964: o impasse, a indecisão e a falta de possibilidades de ação perante o regime militar recém-instaurado.

No mesmo ano em que escreve Moço em estado de sítio, 1965, Vianinha participa como ator principal do filme O desafio, de Paulo César Saraceni. As angústias e a melancolia vividas pelo protagonista Marcelo se assemelham à instabilidade observada em Lúcio Paulo. Neste ponto, cabe ressaltar que ao longo da produção cinematográfica de Saraceni, Vianna Filho teve liberdade para construir diálogos e distribui-los em cena, o que revela pontos de contato entre as obras e permite compreender a visão assumida pelo dramaturgo naquele momento.

Assim como acontece com Marcelo no longa-metragem, em Moço fica evidente que Oduvaldo Vianna Filho faz uso do posicionamento do protagonista Lúcio para construir uma crítica ao Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC da UNE), projeto em que ele mesmo se encontrava imerso no período anterior ao golpe. Assim como o grupo de teatro estudantil retratado na peça, os membros do CPC buscaram realizar um trabalho mais efetivo de conscientização política por meio do fazer teatral. Em dado momento da trama, a fala de Lúcio, num diálogo travado com Suzana, sua companheira de grupo, mostra a defesa do protagonista em resolver o suposto problema, que também teria sido enfrentado pelo CPC, ao dizer:

Então por que fez o espetáculo, hein? (Tempo) A filosofia qual é? Sem dinheiro, se mete em subúrbio, faz um espetáculo, não volta mais – se voltar é daqui um ano… A filosofia qual é, Suzana? (…) Dinheiro pra montar uma peça que prova que delatar é coisa feia? Isso acho que tem gente dizendo desde um tal de Judas… Judas, um palestino, lembra dele? (Silêncio) Tem é que concentrar num bairro só, Suzana. Fazer um clube, uma associação com o povo, não sei o quê… mas não sair de lá…[2]

No trecho, o dramaturgo assume uma postura autocrítica com relação à falta de continuidade da ação político-cultural realizada pelos intelectuais, à época, junto às classes trabalhadoras. Segundo o entendimento de Vianinha, o trabalho do CPC poderia ter alcançado camadas, mais profundas, se tivesse se concentrado em uma região única, ao contrário de atuar, como foi o caso, em diversas comunidades, mantendo apresentações dedicadas a diversos segmentos de trabalhadores. Hoje, entende-se que essa é a visão crítica do dramaturgo, inserido no momento, uma vez que se tem conhecimento do trabalho contínuo realizado nos Centros Populares de Cultura pelo Brasil como, por exemplo, aquele realizado junto ao Sindicato da Construção Civil, em São Paulo.

Contudo, mesmo havendo certa projeção do autor em Lúcio Paulo, as questões pessoais, dúvidas, conflitos e contradições apresentados pelo personagem já haviam, a essa altura, sido enfrentados pelo dramaturgo. Podemos dizer que, ao contrário de Lúcio, que adotou uma postura inerte diante das contradições, Vianinha transformou suas angústias em ação efetiva. Para Vianna, foi o desejo de atuar ao lado das massas trabalhadoras o que o motivou a participar da criação e da experiência efetiva do CPC da UNE. Para Lúcio, a defesa de uma ampla atuação ao lado das massas trabalhadoras é também um ponto crucial. Essa postura autocrítica, cabe ressaltar, já havia sido realizada pelos próprios membros do CPC: em 1964, por exemplo, seria inaugurado o teatro do Centro Popular de Cultura na sede da UNE em Botafogo.

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Desde a criação do Show Opinião, que estreou em dezembro de 1964, algumas mudanças significativas podem ser observadas na trajetória de Oduvaldo Vianna Filho. A mudança estética da produção do dramaturgo encontra-se menos na forma do que na construção e na escolha dos personagens. A incorporação e o retrato da vida de uma jovem carioca de classe média, por exemplo, indicam uma nova preocupação em seu fazer teatral: o autor volta-se à classe média.

Maria Silvia Betti, ao definir a divisão social do Brasil no período pós-golpe militar, aponta algumas características sobre o posicionamento da classe média. Em sua perspectiva, o indivíduo de classe média vivia a constante ilusão da ascensão social, enquanto o governo, ligado aos interesses do capitalismo, incentivava tal ilusão, ao adotar políticas de crédito que, ao lado de outras medidas tomadas, impulsionavam o consumismo entre essa camada da população. Nas palavras da pesquisadora:

A grande massa, excluída desse sonho de riqueza, não dispõe de entidades que defendam seus direitos ou representem seus interesses. Enquanto a classe média vive a ilusão da ascensão social, motivada por mecanismos que facilitam o crédito e estimulam o consumo, a burguesia atrela os seus interesses aos do capital estrangeiro.[3] 

Vianinha retrata a ilusão sentida por essa camada social e as consequências dessa fantasia.

É provável que a opção de Vianna Filho de retratar a classe média tenha ocorrido em função do apoio que essa parcela da população cedeu aos militares para a concretização do golpe. É de conhecimento público que alguns setores da sociedade, além de uma parte dos próprios militares, assumiram um papel de destaque ao colaborar com a imposição da ruptura democrática. Em 1964, por exemplo, grupos religiosos, ligados à ala mais conservadora da igreja católica, intelectuais responsáveis pelos meios de comunicação e uma parcela de representantes da classe média nacional organizaram a famigerada Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Nesse sentido, Vianinha aborda um tema fundamental: o da cooptação de intelectuais de esquerda por parte dos meios de comunicação. A ideia de cooptação, no âmbito da televisão, parte da noção de que a presença de comunistas faz parte da estratégia das emissoras de agregar, ao seu quadro de funcionários, membros competentes para sintonizar obras engajadas à linguagem jornalística por meio de uma pesquisa estética que colaborasse para o avanço de sua programação. Em Moço em estado de sítio, as críticas dirigidas à imprensa são numerosas. É a partir da experiência no suplemento literário que Lúcio percebe a possibilidade de sua liberdade criativa e posição ideológica se tornarem mercadorias. Essa noção revela a fragilidade do personagem, que aceita condições estéticas e políticas contrárias a sua postura e ideias.

Outro aspecto apresentado na peça, está no espaço ocupado pelas personagens femininas, que acabam por reforçar o caráter contraditório do protagonista. Cota, a mãe, é enganada em inúmeras ocasiões e dá dinheiro ao filho, escondida do marido, para que ele se mantenha sem um trabalho formal – quando não convém a ele a ajuda da mãe, porém, ela é desprezada. Lúcia, a irmã, busca travar uma relação mais próxima, mas Lúcio age apenas conforme o que lhe favorece. Ele não é sequer capaz de acolhê-la diante da situação de uma gravidez inesperada. Por fim, Noemia, a amante, vive com o protagonista uma relação abusiva.   

Entretanto, é necessário observar que as contradições não se restringem à figura de Lúcio. Ao apresentar Cristóvão, pai do protagonista, servidor público que vive uma vida aparentemente medíocre, e passa os dias a telefonar para pessoas “importantes” que não lhe dão a mínima atenção e a relembrar seu suposto passado profissional glorioso – ele teria sido responsável pelo furo de reportagem que anunciou a morte do ex-presidente Rodrigues Alves, fato que teria lhe rendido certa fama e perseguições políticas –, Vianna Filho explora camadas mais profundas. Com 57 anos, o personagem apresenta dificuldades para compreender os caminhos traçados pelo filho, e busca tirar proveito do fato de Lúcio ser formado em direito com a tentativa de conseguir um novo cargo dentro da máquina estatal: Cristóvão almeja ocupar uma vaga no Conselho do Ensino Secundário. Para tanto, obriga Lúcio, que deseja, ao que parece, se dedicar exclusivamente ao teatro, a trabalhar no escritório de advocacia do doutor Etchevarrieta, um advogado influente, que pode conseguir a tal vaga, o que só faz os conflitos entre pai e filho aumentarem de forma exponencial.

Apelidado propositalmente de “Cristo”, Cristóvão se aproxima de outros personagens da dramaturgia de Vianinha: Maguari Pistolão, de Rasga coração (1974), e seu Sousa, de Nossa vida em família (1972), também eram pais de família presos numa situação de impotência, que não tinham controle de seu entorno e viviam diante da constante perda de prestígio ao tentar acompanhar novidades. Temos, neste ponto, algo característico da dramaturgia de Oduvaldo Vianna Filho, o conflito de gerações vivido entre pai e filho. Os Azeredos mais os Benevides, de 1964, já continha esse elemento, que será ampliado nas demais obras, até alcançar o último texto do autor, a peça Rasga coração.

De volta à Moço em estado de sítio, a questão familiar se torna ainda mais complexa, uma vez que a família de Lúcio representa o padrão de classe média urbana (pai, mãe e filhos), que se mostra repleta de preconceitos e de julgamentos morais. O inconformismo com a gravidez inesperada da filha e o caráter persuasivo dos pais até o convencimento pela opção do aborto sublinham a principal característica desse núcleo familiar, o conservadorismo.  

As figuras de Galhardo, empresário que convida Lúcio para escrever numa revista anticomunista, e de Nívea, irmã de Galhardo, com quem o protagonista trava uma relação amorosa, são também representantes do conservadorismo. Sob influência deles, Lúcio vive em estado de sítio, ao mesmo tempo em que é parte do mesmo sistema opressor. Nesse sentido, o personagem transita entre o grupo de teatro, com suas convicções ideológicas de esquerda, e o trabalho formal no jornal, que lhe faz produzir textos de conteúdo antidemocrático.

Moço em estado de sítio pode ser considerada uma peça transitória na carreira de Oduvaldo Vianna Filho. O texto demonstra a maturidade estética do autor ao apresentar um enredo em que se utiliza a fragmentação contrária à linearidade própria do realismo, construindo um verdadeiro mosaico de mudanças bruscas e de cenas objetivas que se assemelham à estética cinematográfica. Dialeticamente, o dramaturgo brinca com o tempo das cenas, que é por vezes acelerado, e por outras desacelera, e mostra como a vida pode ser cíclica, como ela pode não avançar. Ao fim e ao cabo, Vianinha conclui a proposta de mapeamento do contexto histórico ao despertar no público os mesmos sentimentos de instabilidade e melancolia vividos no período pós-1964.    

[1] Oduvaldo Vianna Filho, Moço em estado de sítio. São Paulo: Temporal, 2021.

[2] Ibid, p. 20.

[3] Maria Silvia Betti. Oduvaldo Vianna Filho. São Paulo: Edusp, 1997, p. 224.

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Rafael de Souza Villares é historiador e ator, com doutorado em artes da cena pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Pesquisador do teatro brasileiro e autor de enredos para escolas de samba. E-mail para contar: rafavillares@hotmail.com.

 

No banner: parte do elenco em montagem de 1981 dirigida por Aderbal Freire Filho e apresentada no Teatro Sesc Tijuca I, no Rio de Janeiro


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