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A revolução é dos que ficam: pequenas breves notas sobre “Os que ficam”

artigo por LUIZ ANTONIO RIBEIRO — Para finalizar outubro, o Blog da Temporal traz artigo de Luiz Antonio Ribeiro, idealizador do Jornal Nota, sobre a peça “Os que ficam”, de Sérgio de Carvalho com colaboração da Companhia do Latão, obra do catálogo de dramaturgia nacional da Temporal. Em seu texto, Luiz explora a relação entre “Os que ficam” e “Revolução na América do Sul”, de Augusto Boal

A revolução é dos que ficam. Essa frase seguiu ressoando na minha cabeça mesmo após finalizar a leitura da intensa dramaturgia de Sérgio de Carvalho para o espetáculo Os que ficam, da Companhia do Latão, com sua direção. Penso nessa frase porque me parece que a dramaturgia coloca uma dimensão trágica e complexa contida em toda revolução, que é a tentativa de compreender a hora exata do rompimento das forças. Entre a revolução fracassada e a revolução que não sai do papel, existe um fosso imenso de luta entre forças dialéticas, aquilo que Walter Benjamin chamaria de luta das imagens históricas, cuja síntese presente nenhum dará, talvez o futuro, se der, numa futuridade que apenas se pode prever. Por isso que, diante de um passado turvo e de um presente turvo, é naqueles que ficam que está a revolução.

Os que ficam, escrita em 2015, é uma tentativa de reelaboração do espetáculo Revolução da América do Sul, do teatrólogo, dramaturgo e pensador Augusto Boal, encenado em 1960 com colaboração de Chico Assis nas canções. No espetáculo original de Boal, acompanhamos José da Silva, um arquétipo que faz as vezes de uma espécie de figura popular imaginada, sendo ele representante de uma coletividade anônima que tenta adquirir consciência de classe e conquistar uma revolução capaz de acabar com a própria fome e a de sua família.

Em Revolução, que Boal constrói com maestria, contamos também com a presença de uma espécie de anjo do capitalismo – representante das grandes corporações e sistemas –, enquanto José da Silva circula por entre os poderes em busca da vaga possibilidade de uma autonomia financeira, um aumento de salário. O mais curioso é que Boal escapa de romantizar esse operário, tratando-o, por vezes, como tolo, ingênuo e vítima da própria desorganização. O personagem, assim, é dado como um ser nômade, vítima de um mundo estreito. Na contramão de José da Silva, Boal retrata figuras políticas torpes e vorazes, sem deixar de lado os comunistas aproveitadores, os revolucionários de profissão, figuras que fazem uso dos operários com vistas no próprio carreirismo político, mesmo diante de um sistema autoritário e excludente.

Deste ponto de partida, Os que ficam nasce do plano de Sérgio de Carvalho, aliado à Companhia do Latão, de não apenas representar a peça de Boal, mas também de reformulá-la, adicionando uma série de camadas que complexificam ainda mais a narrativa de Revolução: Boal, exilado no exterior, envia cartas a respeito de sua sobrevivência como expatriado e sobre como ele próprio idealiza a realização de sua peça; os atores e diretores, subjugados por uma ditadura militar intensa que caça e prende oposicionistas; outros atores, que, por um lado, conseguem espaço e sucesso na televisão e, por outro, se frustram com o chamado teatro político que se mostra voltado apenas para uma classe média intelectualizada; ainda mais atores e atrizes no plano presente, filhos daqueles que são perseguidos pela ditadura, que em cena fazem relatos em primeira pessoa em cena; e por fim outros artistas, que resolvem cair fora daquela dinâmica e decidem entrar para um teatro de contracultura, seguem uma política do corpo para observar a política para além das tramas filosóficas.

Assim, o Latão incorpora as lutas políticas de Boal ao cenário atual e mostra como elas podem se complexificar ainda mais diante do contexto brasileiro no ano de 2015, quando a peça foi escrita e montada. Os que ficam, me parece, passa a ser uma tentativa de nos colocar diante da figura de José da Silva, indivíduo ambivalentemente repleto e esvaziado de agências, que reúne um acúmulo de dificuldades, fracassos – até porque a luta política é travada enquanto estudamos, trabalhamos, temos filhos, tentamos viver e sobreviver.

Sérgio de Carvalho fala um pouco sobre isso no prefácio que preparou para a edição da Temporal: “Os que ficam, entretanto, é uma peça que contém o elogio ao “sabotador individual”, aos pequenos gestos de luta cotidiana, aos heróis humildes. Mas que se esforça ao máximo para não mistificar nenhum desses gestos”.

Nesse sentido, Os que ficam parece fazer justiça com uma massa de insatisfeitos que fizeram algo pela democracia, pela luta política, pelos seus ideais, ainda que não tudo o que podiam. Diante desta horda “dos que ficam”, cria-se também um sentimento de culpa por não terem se empenhado o suficiente, por ter cedido à ditadura, por ter entregue um amigo frente à tortura, de ter aberto mão de certos princípios. Como remissão, o espetáculo quase diz (sem dizer) que os que passaram dos limites também erraram, também tiveram que parar de lutar. Frente a este sistema violento e opressor, os personagens são, bem como os espectadores, vítimas, independentemente de serem aqueles que tentam, que não tentam, que insistem ou que desistem. Qualquer luta é alguma luta.

A história, porém, é que vai prestar contas a respeito das escolhas de cada um. Em determinado momento, por exemplo, temos uma carta de Boal sobre a tortura sofrida como quem projeta uma dor de fora, a dor de ter sido parte dessa história:

Eu precisava ver a coisa acontecer fora de mim. Em cena. Para que me pudesse ver, separar-me de mim. Eu e a palavra. Eu e o ator. Só assim me entenderia. Não me pastava espelho nem memória. Precisava me ver em alguém que me roubava o nome: o Augusto Boal que eu pensava ser, que eu trazia colado ao rosto, às mãos, ao peito. Já não saia quem era ou tinha sido. Queria ouvir palavras que pronunciei na tortura. Voz empostada de ator, bem treinado, reproduzindo gritos roucos, ver-me longe de mim, dirigir-me como dirijo atores. Não queria admitir que eu era o torturado, que aquela cena acontecera comigo.

Sérgio de Carvalho, seguindo a máxima de Anatol Rosenfeld, realiza a dialética, mas espera que a positividade venha do espectador, de quem assiste de fora; de quem quer escutar a cena sendo contada para si, como menciona Boal. É o teatro épico em seu auge, tese, contratese e prática, em um só lugar.

Dos que ficam, sabemos apenas de uma coisa: “o problema não é a cena. Somos nós.” E é esta história que devemos mudar.

 

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Luiz Antonio Ribeiro é doutor em Memória Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), na área de Memória e Linguagem/Literatura Brasileira, mestre em Memória Social (PPGMS-UNIRIO), na área de Poesia Brasileira, e formado em Artes Cênicas – Teoria do Teatro pela UNIRIO. É adepto da leitura, pesquisa, cinema, cerveja, Flamengo e ócio criativo. Em geral, se arrepende do que escreve.


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