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A crítica definitiva de Sábato Magaldi

Dois dias após o falecimento de Oduvaldo Vianna Filho em julho de 1974, Magaldi dá depoimento categórico sobre a obra-prima Rasga coração

Oduvaldo Vianna Filho pedia aos médicos que o mantivessem vivo até a estreia de Rasga coração prevista para outubro. Sei que os médicos achavam que a sobrevivência, até anteontem, ia além de todas as previsões favoráveis. A vantagem do dramaturgo é que o texto permanece além dele e, quando Rasga coração estrear, provará que os 38 anos de Vianinha foram suficientes para deixar uma obra coesa e madura. Não há dúvida em afirmar que, de todo o grupo que renovou a literatura dramática brasileira moderna, a partir do Seminário de Dramaturgia do Arena, Vianinha foi quem deu a contribuição de maior sensibilidade. A visão clara da sociedade nunca impediu que ele procurasse sempre o drama do homem – o indivíduo solitário e desamparado dentro de uma engrenagem trituradora, concentrou o seu interesse mais profundo. Por isso, Papa Highirte, protagonista de uma peça do mesmo nome, não se transformou em caricatura, embora fosse criticado como ditador de uma republiqueta latino-americana. Vianinha captou com admirável acuidade o vazio desse homem que de concessão em concessão criou um deserto à sua volta.

Rasga coração é no teatro brasileiro a mais completa sondagem do país, desde a conturbada década de trinta até os nossos dias. Os acontecimentos políticos servem no entretanto, como pano de fundo para a caracterização de personagens representativas. Ficam em primeiro plano os conflitos humanos, sem que o enfoque ideológico deturpe os fatos e a autenticidade das psicologias.

Vianinha sempre se debruçou com extremado carinho sobre as suas criaturas. Sensibilizava-o mais do que as vitórias, a derrota do ser humano. Não uma derrota metafísica, determinada pelo efêmero da nossa condição, mas aquela que as forças opressoras condicionam. Por trás do indivíduo batido de Vianinha há sempre uma sociedade adversa, que recusa à expansão de suas potencialidades. A palavra final de Vianinha não era portanto pessimista: basta vencer os obstáculos para que prevaleça o otimismo. Modifique o homem o mundo, que ele estará intimamente modificado.

Diversos textos expressivos marcaram uma trajetória rica, desde a estreia de Chapetuba F.C. em 1959. Aí já se via o dramaturgo preocupado em levantar um importante setor da realidade brasileira ainda que sob o prisma dos marginalizados. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, peça escrita em parceria com Ferreira Gullar, mostrava em 1966 o beco sem saída de uma determinada realidade social. E Longa noite de cristal encenada em 1971, fixava a trajetória do protagonista, reduzido à usar a voz em programas radiofônicos da madrugada, depois que contrariou os interesses criados na televisão.

Escrevi há algum tempo que Vianinha havia composto várias peças de qualidade, não tendo ainda produzido a obra-prima que se esperava dele. Talvez fosse correta a observação antes de Papa Highirte e de Rasga coração. Nesses últimos textos, ainda inéditos no palco, Vianinha aceitou o desafio para ir mais longe, e venceu. Falecido muito jovem, Vianinha só tende a crescer com o tempo, quando a sua obra inteira puder ser encenada com a verdade que nunca deixou de revelar.

Este texto foi primeiramente publicado no Jornal da Tarde, e reproduzido no programa da primeira montagem da peça, em 1979.