- dramaturgia brasileira, teatro

“Mão na luva”: a modernidade de um Vianinha até agora desconhecido

artigo por VIVIAN WYLER — Em 1984, ocasião da montagem de “Mão na luva” dirigida por Aderbal Freire Filho – à época, apenas Aderbal Júnior –, Vivian Wyler rememora a trajetória do texto teatral, desde sua escrita, em 1966, até sua redescoberta e empreitada nos palcos de São Paulo e Rio de Janeiro. Ao costurar depoimentos de Aderbal e de Marco Nanini, que vivenciou o protagonista Lúcio Paulo no espetáculo, com excertos da peça, a editora e jornalista revela as particularidades que conferem caráter único a esta obra em meio à trajetória de Oduvaldo Vianna Filho

por Vivian Wyler

 

“Mão na luva” – diz o marido para a mulher em dado momento de uma convivência de dez anos, perturbada aqui e ali por dúvidas, desvios profissionais e ocasionais infidelidades. “Você é feito tomar banho de cascata. Sabe o que quer, sabe o que te querem, junta os dois juntos. Você é mão na luva”. Trocam murmúrios, beijam-se, interrompe-se o flashback. Estamos de volta ao tempo presente: ela quer ir embora. Sílvia, interpretada por Juliana Carneiro da Cunha.[i] Mulher de Lúcio Paulo, vivido por Marco Nanini. Personagens de um jogo tenso, elaborado e emocional.

Mão na luva. Assim, também, era o dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho, morto prematuramente, aos 37 anos, faz uma década. Sabia o que queria, o que se esperava dele, juntava os dois juntos e o resultado foi, por exemplo, Rasga coração. Ou a peça a que chamaram, postumamente, Mão na luva. E que prova a partir de hoje, no teatro Gláucio Gill, depois de uma temporada de três meses em São Paulo, porque foi importante resgatá-la de um anonimato de quase vinte anos. Porque o diretor Aderbal Júnior empolgou-se ao lê-la e se prometeu montá-la. Desde que com o elenco perfeito.

Uma descoberta que a viúva de Vianinha, Maria Lúcia, fez e veio, cautelosa, mostrar. Na época, Aderbal tinha acabado de dirigir Moço em estado de sítio, sua segunda experiência com um texto do autor (a primeira tinha sido Corpo a corpo). Maria Lúcia achava que Mão na luva poderia render bem no palco, mas tinha algumas dúvidas. Fora escrita antes dela conhecê-lo (casaram-se em 1970): será que deveria ser montada?

No palco do teatro Maria Della Costa, em São Paulo, a peça dissipou qualquer indagação. Nu, o acerto de contas entre Lúcio e Sílvia levou espectadores às lágrimas e críticos a inflamados elogios. “Uma obra que parece destinada a despertar emoções e controvérsias” – sentenciou o especialista Yan Michalski no prefácio do livro O melhor teatro de Oduvaldo Vianna Filho, que a Global está lançando no Rio, simultaneamente com a montagem. Nele, lado a lado com Papa Highirte e Rasga coração, a peça, escondida a sete chaves por seu autor enquanto viveu, ajuda a compor um irretocável painel.

Em cena, um jornalista pleno de ideais que vai inconscientemente atraiçoando, uma mulher iludida por tais lampejos de heroísmo até a amarga decepção. Muito da temática que o público se acostumou a ver tratada por Oduvaldo Vianna Filho. Mas vista pelo lado de dentro, pelas marcas que as situações vão imprimindo na alma das pessoas. No caso, um par amoroso.

– É a mesma guerra, só que o campo de batalha é dentro de casa – explica Aderbal Júnior. – São as mesmas questões, mas noutro tom, de forte comunicação e grande modernidade. Geralmente o que acontece quando se descobre uma antiga peça de algum bom autor, que por uma razão ou outra não foi montada, é a constatação do seu envelhecimento ou a comparação desfavorável com obras mais conhecidas. Mão na luva, não. Acabou de ser escrita em 27 de julho de 1966, quando Vianinha estava participando do elenco de Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, no Teatro Opinião. A época ideal para sua apreciação, no entanto, poderia ser amanhã.

Vindo de uma temporada de quatro anos pelo país com Doce deleite, esbanjando barrigas postiças, bigodes e recursos de “teatrão”, o ator Marco Nanini, 36 anos, tinha uma ideia na cabeça. Desafiar-se numa peça intimista, sóbria, contida. De um reencontro com Aderbal (fizeram juntos Cordão umbilical, de Mário Prata) surgiu a possibilidade de montar Senhorita Júlia, de Strindberg. Sem querer impor seu projeto, Aderbal Júnior esperou o outro desistir da primeira opção para só então mostrar-lhe Mão na luva.

– A peça tem um pique que não para, um exército desgastante de emoção. É um desafio, um texto de domínio difícil, cujo ritmo tem que ser conquistado dia a dia, eu controlando minha ansiedade natural, fabricando o exercício da disciplina.

 

Ele Me dá um beijo. (Beija) De cabeça para baixo fizeram, o amor fica lá no último, ser feliz lá no último, antes vem casa própria, as desilusões, a força pra se desiludir, depois o que? documentos em ordem, as taxas, depois um porto seguro, o Monte Pascoal, depois segurar a violência que sua na gente, onde vou nos feriados, depois aproveitar, aproveitar o que puder, que estou cumprindo os dois mil e dezessete e cinquenta mandamentos, me deixa aproveitar aqui à socapa, depois? depois sair do anonimato, fila, sala de espera, fugir da televisão, tenho que ver televisão sempre, sempre? depois, por último, vem o amor: pobre, marraio, amor é marraio.

Ela Quando tem, a gente quer que ele resolva tudo, coitado.

Ele Coitado.

Ela Amor só aguenta amor, mais nada, não é esconderijo, não é albergue, pomada de São Benedito...

Ele Então nós vamos fazer um grande amor. Quer?

Ela Quero.[ii]

 

Para muitos, Mão na luva é uma peça de incógnitas. Quando acabou de escrevê-la, Oduvaldo Vianna Filho deu-lhe o título de Corpo a corpo. Mais tarde, preferiu transpor o título para um monólogo. Por que não a teria mostrado, comentado? Não gostava dela – sugerem uns. Considerava-a inacabada – ponderam outros.

– A minha opinião é de que ele não só a considerava acabada, como gostava muito dela – garante Aderbal Júnior. Escrita logo após um texto de criação coletiva, Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, segundo Gullar a “mais coletiva” das criações do Teatro Opinião, ela era ousada. E, de certa maneira, não combinava com a proposta do grupo que ele, inclusive, liderava. Nada tinha a ver com o pacto cultural cumprido em conjunto. Por isso, acredito, a guardou. Esperando a época certa de mostrá-la. Mão na luva revela o herói pressionado, típico de Vianinha num dos seus melhores momentos. É uma peça com capa, data, e a palavra fim. E ele a citou, nas entrelinhas, em comentários e entrevistas posteriores.

Foram vinte dias para descobrir o tom certo, ler, dividir as cenas, se encantar com o acabamento, a carpintaria teatral. Dois meses de ensaios. Às vezes Nanini se trancava no camarim, sofria seu personagem. Às vezes a repetição era fortemente emocional, Juliana Carneiro da Cunha mantinha o equilíbrio – característica de Sílvia –, Lúcio Paulo se descontrolava. Um dia, Nanini chegou a se internar num hospital, cansado de explodir de ciúme, de paixão.

– O Gabeira, lembram, voltou dizendo que na década de 1960 se sufocavam os sentimentos – conta Aderbal – e escandalizou as esquerdas. A peça de Vianinha tem muito desse escândalo. Fala de marido que aceita o amante da mulher, um tipo de compreensão impossível de se pensar naqueles tempos. Como ativista e crítico, ele sufocou o individual. Como criador, não conseguiu.

No palco, os atores transmitem um pouco desse clima, dessa divisão que levou o texto a ser subintitulado de “Introdução ao homem de duas faces”. Envolvem-se com o personagem e saem dele, deixando clara a passagem permanente entre presente e passado, que é o cerne do jogo de Sílvia e Lúcio. Um herói derrotado que tem diante de si um espelho, sua própria mulher. Uma mulher que se casa três vezes: a primeira com um herói, a segunda com o anti-herói em que ele se transforma (e ela se conforma), a terceira com a fusão dos dois, que ela aceita no final. Uma relação em muitas etapas torturadas, recriada com minúcia por Juliana e Nanini, com o auxílio de Klauss Vianna e dos elementos cênicos de Márcio Colaferro.

– A solidão dos personagens é tão grande que os elementos cênicos tornam-se fundamentais para a criação – conta Marco Nanini. – A peça é como um tabuleiro de xadrez em que se alternam emoção, ator e os elementos que reforçam a ação.

Abre o pano. Ele diz: “Quer dizer que você vai embora mesmo assim?...”.

 

[i] Na edição de Mão na luva editada pela Temporal em 2021, é possível conferir a ficha técnica completa da montagem. [Nota da editora.]

[ii] Trecho da página 87 na edição da Temporal.

 

Texto originalmente publicado no Jornal do Brasil em edição de 1984.