- teatro, dramaturgia internacional

Thomas Bernhard, o Struwwelpeter da literatura de língua alemã

Em fevereiro, relembramos o aniversário de Thomas Bernhard, e, para celebrar a ocasião, Samir Signeu, especialista e estudioso do autor, tece, exclusivamente para o Blog da Temporal, um retrato preciso sobre as vivências, a personalidade e a intersecção entre a biografia e a literatura bernhardiana

por Samir Signeu

 

Há um personagem na literatura infantil germânica, o Struwwelpeter, que é um garoto que não corta as unhas nem penteia os cabelos e possui aparência e atitude selvagens que afrontam as normas e as condutas sociais. É possível relacionar o caráter desse personagem, criado pelo escritor e médico alemão Heinrich Hoffmann no livro O Struwwelpeter ou histórias divertidas e figuras engraçadas, publicado em 1845, à vasta obra literária e à vida de um dos mais representativos escritores de língua alemã do século XX, o austríaco Thomas Bernhard.

Bernhard nasceu em Heerlen, na Holanda, em 1931. Filho natural da austríaca Hertha Bernhard e do marceneiro Alois Zuckerstätter; pai que ele nunca conheceria. A figura paterna será substituída efetivamente pela presença do avô materno, o escritor austríaco Johannes Freumbichler, que o introduzirá nos campos da arte, da filosofia, da independência, da ironia e do silêncio. É através da biblioteca desse avô que Bernhard terá, desde muito cedo, seus primeiros contatos com os livros e a leitura. Ainda criança, viveu os momentos de horrores da Segunda Guerra, tendo que frequentar internatos. Quando jovem, teve pleurisia, doença que o levou a diversas internações e, mais tarde, foi também a causa de sua morte. Ainda durante a juventude, o autor dedicou-se aos estudos de canto, violino e estética musical na Academia de Música de Viena e, também, às artes cênicas no Mozarteum, em Salzburgo. Publicou os primeiros trabalhos literários na faixa dos 20 anos. Encontramos em sua obra uma imagem de uma Áustria repleta dos sentimentos de ódio, repulsa e amor. Seus escritos estão permeados dos ensinamentos e pensamentos do filósofo também austríaco Ludwig Wittgenstein, que evidenciam, por exemplo, os mecanismos de aprendizagem da linguagem, propiciada muito mais pela repetição do que pela reflexão.  

Nas obras de Thomas Bernhard, são as transgressões de conteúdo do discurso que ganham destaque, quando ele, por meio de seus personagens, de seu niilismo, misantropia, misoginia e de sua máquina de linguagem, utiliza-se das palavras para falar e criticar o homem, o teatro e a sociedade austríaca com veemência e sem pudor. Esses procedimentos, que também poderíamos denominar de bufonaria, estiveram sempre presentes nos discursos proferidos por Bernhard nas cerimônias de recebimento dos diversos prêmios que ganhou durante a sua trajetória como escritor. O autor foi agraciado com as mais importantes premiações destinadas aos escritores de língua alemã, entre as quais se destacam: Julius Campe (1964), Literarische Ehrengabe (1967); Prêmio Nacional Austríaco de Literatura e Anton Wildgans (1968), Büchner (1970), Grillparzer (1972), Hannoverscher Dramatiker e Séguier (1974), Feltrinelli (1987) e Medici (1989). Nessas formalidades, provocava incômodos nos promotores dos eventos e nas plateias ao abordar temas como a morte e a política austríaca.

Um estudo mais atento a partir de sua obra e desse morbus austriacus, desse enfant terrible, desse angry man da literatura e dramaturgia austríacas que foi Bernhard, gera a possibilidade, por exemplo, de denominá-lo o Struwwelpeter do teatro contemporâneo, e de constatar uma produção teatral discursiva e provocativa, pela insistência e frequência com que incitava e instigava os seus leitores, espectadores e a sociedade. As obras de Thomas Bernhard para o teatro são das mais significativas e originais da cena contemporânea de língua alemã e do cenário mundial.

Instigante, mordaz, polêmico e provocador são alguns dos adjetivos pelos quais Bernhard foi e continua sendo qualificado. Ele foi um construtor de histórias tão grande, quanto foi destruidor. Um escritor/construtor obstinado pela arte de destruir. De certa forma, o autor pratica uma estética do choque, na qual realidade e ficção se equilibram, ao mesmo tempo em que se confundem. A violência, aqui, não é a do ato, mas é aquela que a palavra porta, e que pode ferir tal como uma ação física. Thomas Bernhard foi superlativo em sua obra, com o emprego da ironia, do exagero, da extrema provocação, do grotesco, do derrisório. No entanto, também, a qualidade poética de seu trabalho com a linguagem se mostra evidente; é uma língua trabalhada. Nota-se a performance da palavra em sua produção. O escritor usa as potencialidades do romance no teatro e estabelece uma constante peleja entre conteúdo e forma. Seus personagens que monologam podem ser vistos como o eu narrador do romance. E, assim, Bernhard escreveu contos e romances, foi ensaísta, poeta, compositor, roteirista e dramaturgo. Com frequência, ainda, encontramos em sua produção literária uma de suas obsessões temáticas: a solidão humana.

O imediato reconhecimento de Thomas Bernhard acontece a partir dos anos 1960/70, com a tradução e a publicação de suas narrativas e com a apresentação de suas peças em diversos países da Europa. Hoje, passados noventa anos de seu nascimento (1931) e 32 anos de sua morte (1989), muitas pesquisas e publicações sobre o autor vieram à luz, em diversas partes do mundo, com a perspectiva e o objetivo de divulgar, explicar e analisar a sua obra. Na Áustria, seu país natal, há duas fundações que cuidam de seu espólio e mantêm vivo o seu legado. Na Europa, suas peças fazem parte do repertório de muitos teatros e, com frequência, suas narrativas são lidas em salas de espetáculos ou colóquios. E no Brasil? O que temos é, no campo editorial, a publicação de alguns de seus romances e narrativas, como O sobrinho de Wittgenstein (1992) e Perturbação (1999), ambos pela editora Rocco, e, pela Companhia das Letras, as obras Extinção (2000), O náufrago (2006), Origem (2006) – este último sendo um volume que contém seus cinco romances autobiográficos, a saber: A causa, O porão, A respiração, O frio e Uma criança –, O imitador de vozes (2009) e Meus prêmios (2011). Há, ainda, a publicação das peças O fazedor de teatro (2017), pela Perspectiva, e Praça dos Heróis (2020), pela Temporal; além de O presidente, num caderno brochura, do Instituto Goethe, de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.[1] Já as pesquisas universitárias sobre Bernhard e sua obra concentram-se, sobretudo, na Universidade de São Paulo, dentre as quais destacamos a tese de Heloisa Helena Bauab, O teatro de Thomas Bernhard como máquina de linguagem, de 2004, a tese de Alexandre Villibor Flory, Sopa de letras nazista: a apropriação imediata pela forma na ficção de Thomas Bernhard, de 2006, a dissertação de Patrícia Miranda Dávalos, Ficção e autobiografia: uma análise das narrativas de Thomas Bernhard, de 2009, e finalmente a minha tese, Thomas Bernhard, o Struwwelpeter do teatro de íngua alemã ou o fazedor de teatro e a sua dramaturgia do discurso e da provocação, de 2011.

Se há um nome nas artes contemporâneas e, mais especificamente, na literatura de língua germânica, cuja análise, aproximação ou caminhos para se chegar ao seu trabalho tenha como grande tentação utilizar da comparação de sua obra com a sua biografia, este nome é o do controverso Thomas Bernhard. Muitos artigos, ensaios e teses sobre ele têm priorizado ou partido desse viés, no qual a crítica genética assume um papel preponderante e fundamental. Philippe Lejeune, por exemplo, com o seu Pacto autobiográfico,[2] tem servido de base para essa empreitada. O próprio Bernhard é responsável por nos conduzir a essa opção, uma vez que nos legou uma obra vastíssima e rica, que em muitos aspectos é assumidamente autobiográfica, sobretudo a porção composta dos cinco romances anteriormente citados.

De certa maneira, Thomas Bernhard refletiu e evidenciou em suas produções literárias os dois grandes momentos pelos quais passaram o Estado e a sociedade austríaca na sua história. O primeiro, em 1918, com o desmoronamento do Império austro-húngaro, ao final da Primeira Guerra Mundial, e o segundo, em 1938, com o Anschluss, quando a Áustria foi anexada à Alemanha pelo regime nazista – o que durou até 1945, com o fim da Segunda Guerra. O escritor esteve sempre em conflito com a história e o Estado, e era consciente de sua inadequação. Isso, porém, não o impediu de encarar, sem um véu protetor, a herança histórica de seu passado. E ainda que a Áustria tenha sido o objeto de seus ataques, percebe-se, em sua obra, a presença do contexto histórico europeu. Pode-se dizer que toda a sua produção e também a sua vida foram exercícios de protesto de um cidadão que viveu os horrores da guerra e não teve dúvidas em fazer de sua atividade artística um ato pela consciência.

É tentador, ainda, fazer uma abordagem da obra de Bernhard pela seara da musicalidade de seus trabalhos. A sua formação como musicista, seja como cantor ou violinista, é marcante neste sentido, sendo possível detectar em seus romances, narrativas e peças essa forte presença. Não só com relação às citações, informações e argumentações relacionadas à música, mas ao constatar como a própria forma de algumas de suas produções assumem, deliberadamente, essas influências, seja na divisão, na repetição ou no serialismo; e não só pelos seus temas, mas também pelo uso dos procedimentos de repetição das palavras e frases. Há uma diversidade polifônica em seu trabalho.

Por fim, não é raro encontrar nas obras de Bernhard a presença de um ou mais filósofos, seja por afinidades, seja nas alusões, citações e leitura dos personagens, seja em transformá-los em seus próprios personagens, ou, ainda, como exercícios de fundamentação temática. Assim, nos deparamos com Pascal, Schopenhauer, Kant, Wittgenstein, Hegel, Montaigne, Novalis, Spinoza, Voltaire, Kierkegaard, Heidegger. Nesse sentido, poderíamos falar até de uma obra filosófica.

Tendo vivido um período marcado pela guerra, pela destruição de ideais, pelo ódio entre povos e pela angústia humana, em sua produção literária, Thomas Bernhard encontrou uma possibilidade de sobrevivência; ele foi um sobrevivente, o Struwwelpeter de seu tempo.

  

[1] Em setembro de 2020, a editora da Universidade Federal do Paraná publicou a obra O presidente, em edição traduzida por Gisele Eberspacher e Paulo Rogerio Pacheco Junior, com supervisão da docente da universidade, a profª draª Ruth Bohunovsky. [N. E.]

[2] Philippe Lejeune, O pacto autobiográfico: de Rousseau à Internet. Tradução de Jovita Maria Gerheim Noronha e Maria Inês Coimbra. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014.

 

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Samir Signeu é mestre e doutor em dramaturgia pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Atua como coordenador e professor de artes cênicas na Recriarte, importante escola de artes cênicas e visuais que conta com uma história de mais de quarenta anos na cidade de São Paulo, e como professor na TeenBroadway – Escola de Teatro Musical.

 

No banner: o personagem Struwwelpeter.