A utopia dos estudantes chilenos em uma cena de Andrés Kalawski
por Andrés Kalawski Isla
categoria: Editorial
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O salão do restaurante aos poucos vira uma outra coisa. A cortina sempre para baixo. Uma outra coisa é usada como mesa, as mesas são usadas como outra coisa. Algumas roupas penduradas. Uma ou outra caixa. Salvador e Miriam no fim de uma refeição. Salvador pega seu prato e começa a se levantar. Miriam se antecipa e pega os dois pratos.
Miriam: Deixa. Eu levo.
Salvador: Vou tirar as roupas, então.
Miriam: Você não comeu nada.
Salvador: Não estou com muita fome.
Miriam: Não sabia que você era tão fresco. Dá um dó jogar fora.
Salvador: Que ideia é essa. Mais tarde eu como.
Miriam: Tá.
Salvador: Arrumei a placa da despensa.
Miriam: Tá. (Começa a sair para a cozinha. Para) Nem almoçar você almoçou.
Salvador: Nada a ver.
Miriam: Faz quanto tempo que você está tirando os pratos?
Salvador: Estou tentando ajudar.
(Miriam põe o prato diante de Salvador)
Miriam: Vamos ficar aqui até que você coma.
Salvador: Tá bom, mamãe.
Miriam: Não é engraçado. Come.
Salvador: Não.
Miriam: Você está doente?
Salvador: Estou tentando ser coerente.
Miriam: Não estou entendendo.
Salvador: Isso.
Miriam: São os temperos? Também me dão enxaqueca. Muito tempo na despensa. Parece que grudam na pele.
Salvador: Não, não.
Miriam: Está te fazendo mal, é bom você não ficar mais lá.}
Salvador: Eu gosto dos temperos.
Miriam: E então? Você está me tirando?
Salvador: É superssério. Estava pensando em como te dizer.
Miriam: Quanto tempo faz que você não come?
Salvador: Também não exagera, tem um método. Outros companheiros fizeram isso. É uma forma de protesto.
Miriam: Você está mal da cabeça.
Salvador: Você falou que eu não sei o que é fome.
Miriam: Nunca disse isso.
Salvador: É verdade. Não tenho como entender o sofrimento se eu não vivi.
Miriam: Você está me tirando.
Salvador: Me ajuda.
Miriam: Não pretendo passar fome.
Salvador: Não. Não quero isso.
Miriam: Você precisa comer.
Salvador: Fiquei aqui. Não voltei com os companheiros.
Miriam: Também estou aqui.
Salvador: A gente deu conta.
Miriam: E foi bom.
Salvador: Eu tinha uma causa.
Miriam: As marchas.
Salvador: Não é as marchas. É transformar as coisas.
Miriam: Você quer passar fome de propósito?
Salvador: Posso fazer a diferença.
Miriam: As coisas são como são.
Salvador: Tem razão. Não é a idade. Na minha idade você já estava derrotada.
Miriam: Você tinha casa.
Salvador: Você tinha mais razões pra se revoltar.
Miriam: Eu queria sair, queria ir ao mar.
Salvador: Tinha gente morrendo e você não fez nada.
Miriam: Eu tinha que me sacrificar? Jogar pedras, esconder pessoas?
Salvador: Agora também tem gente morrendo. Você está vendo a injustiça e não está fazendo nada.
Miriam: É outra coisa. É gente vadia. É gente má.
Salvador: Como você pode dizer isso?
Miriam: Ninguém me ajudou. Não tenho por que ajudar ninguém.
Salvador: Vou fazer isso por todos que precisam.
Miriam: Ninguém liga se um ou outro morre.
Salvador: Eu ligo.
Miriam: Deixa os outros na deles. Cada um sabe o que faz.
Salvador: E eu quero fazer isso.
Miriam: Você é muito novo.
Salvador: Você sempre fala para eu decidir.
Miriam: Você está doente. Esse é o problema.
Salvador: Vou poder continuar trabalhando e tudo mais.
Miriam: Vou te enfiar a comida pela garganta, nem que seja à força.
Salvador: Não consigo sozinho. Preciso de você.
Miriam: Não posso ver você sofrer.
Salvador: Essa é a ideia. Como as coisas da TV. Vão querer parar meu sofrimento. Vão transformar as coisas.
Miriam: Um dia, três? Uma semana? Não, você está mal.
(Salvador pega na mão dela)
referências
Trecho de Andrés Kalawski, Diez mil cosas. Santiago: Consejo Nacional de la Cultura y las Artes, 2013. Publicaciones Cultura.
artigo por
Andrés Kalawski Isla
Dramaturgo, roteirista, historiador e professor universitário chileno. Doutor em História pela Pontifícia Universidade Católica do Chile (PUC-Chile), onde leciona na Faculdade de Artes e atuou como diretor artístico do Teatro UC. Reconhecido por sua expressiva contribuição ao teatro contemporâneo no Chile, é autor de obras aclamadas como Chef, Niño Probeta e La perra, além de assinar roteiros para produções de televisão e rádio. Sua trajetória destaca-se pela pesquisa e criação dramática que articulam história, memória e crítica social, com peças encenadas e premiadas tanto no Chile quanto em festivais internacionais.




