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"A gaivota" e as preocupações sociais de Tchékhov

  • por Editora Temporal

  • categoria: Editorial

  • tempo de leitura

    3 min
"A gaivota" e as preocupações sociais de Tchékhov

Médico e escritor russo do fim do século XIX, Tchékhov foi um importante dramaturgo de sua época que ficou conhecido por estabelecer um novo paradigma ao teatro realista, confrontando o simbolismo em voga na época e por levar aos palcos, em parceria com Stanislávski, sobretudo o tema da incomunicabilidade humana. Escrita em 1896 e motivo para o autor ter abandonado a escritura de peças teatrais após péssima recepção, A gaivota tornou-se, mais tarde, um ícone do teatro moscovita. Seus personagens apresentam a busca pela fama literária e discutem os caminhos possíveis da arte em meio a divergências pessoais, além de digladiarem-se com o amor e com a compreensão familiar.

Num clima melancólico de fim de século, típico dos anos pré-revolucionários, A gaivota pode se comparar a Lugar nenhum – que faz parte de nosso catálogo e de que comentamos no blog, aqui –, pelo estado devaneante de personagens nobres que, imersos em suas próprias questões e sentindo-se sem saída do cotidiano, realizam diálogos monológicos e contemplam seu redor quase sem ação. Sérgio de Carvalho, ao escrever Lugar nenhum, inspira-se nos diários de trabalho e em outras obras de Tchékhov para compor os embates existenciais de uma elite intelectual que se apequena diante das transformações da sociedade brasileira do final dos anos 1970.

Confira a seguir trecho do Primeiro ato da peça de Tchékhov:


TREPLIOV Chega! Cortina! Baixem a cortina! (Bate o pé) Cortina!

(A cortina é baixada)

TREPLIOV Peço desculpas! Esqueci que só uns poucos eleitos podem escrever peças e representar num palco. Perturbei o monopólio! Para mim… eu… (Ainda deseja falar alguma coisa, mas abana a mão e sai pela esquerda)

ARKÁDINA Mas o que deu nele?

SÓRIN Você o ofendeu.

ARKÁDINA Ele mesmo avisou que era uma brincadeira, então tratei sua peça como uma brincadeira.

SÓRIN Mesmo assim…

ARKÁDINA Pois, então, agora ficamos sabendo que ele escreveu uma obra genial! Era só o que faltava! Quer dizer que ele montou esse espetáculo e soltou essa fumaceira com cheiro de enxofre não por brincadeira, mas como um protesto… Quer nos ensinar como se deve escrever e o que se deve representar… No fim, tudo isso me dá tédio. Esses ataques constantes contra mim, ou essas pirraças, se preferirem, são de encher a paciência de qualquer pessoa! Um menino mimado e birrento.

SÓRIN Ele quis lhe oferecer uma diversão.

ARKÁDINA Ah, é? No entanto, em vez de escolher uma peça comum, ele nos obrigou a escutar esse disparate decadentista. Pois estou disposta a ouvir uma brincadeira, e até um disparate, mas não essas pretensões a formas novas e a uma nova era na arte. Para mim, não se trata de formas novas, o que há aqui é apenas má índole.

TRIGÓRIN Cada um escreve como quer e como pode.

ARKÁDINA Pois que ele escreva como quiser e como puder, mas que me deixe em paz.

DORN Júpiter, estás irado…[1]

ARKÁDINA Não sou Júpiter, sou uma mulher. (Acende um cigarro) Não estou irada, só lamento que um jovem passe seu tempo de modo tão enfadonho. Eu não queria ofendê-lo.

MIEDVIEDIENKO Ninguém dispõe dos meios de separar o espírito da matéria, pois talvez o próprio espírito seja um conjunto de átomos. (Animado, para Trigórin) Que tal escrever uma peça sobre como vivem os nossos irmãos professores e levá-la ao palco? É uma vida difícil, muito difícil!

ARKÁDINA É uma ideia justa, mas não vamos falar mais de peças, nem de átomos. A noite está tão agradável! Escutem! Não estão cantando? (Ouve com atenção) Que bonito!

referências

[1] Início de um provérbio latino: “Júpiter, estás irado; significa que estás enganado”. [N. T.]

*

Trecho extraído de: A gaivota, de Anton Tchékhov, tradução de Rubens Figueiredo (São Paulo: Cosac Naify, 2ª edição, 2014, pp. 25-26).

No banner: Logo do Teatro de Arte de Moscou que ostenta a imagem de uma gaivota em homenagem à peça homônima de Anton Tchékhov.

artigo por

Editora Temporal

É uma casa editorial brasileira focada na publicação de textos dramatúrgicos e na difusão da literatura teatral no Brasil. Nos artigos do seu blog oficial, a equipe editorial seleciona e apresenta trechos de peças cênicas relevantes da dramaturgia brasileira e internacional, acompanhados de contextualizações históricas, críticas e sociais — como neste texto, que introduz a obra Quando as máquinas param (1967), do dramaturgo Plínio Marcos.

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